Monday, January 02, 2006

Começar com o pé direito

Viver é movimento. Quem está parado, respira mas não vive (quem disse que as duas coisas são inseparáveis?)

Entre o ano com o pé direito. E depois com o esquerdo. E o direito. E o esquerdo. Taí uma receita simples para quem deseja a felicidade prometida. Não espere sentado senão ela não passa disso, uma promessa. E de promessas o Céu está cheio.

Ande. Caminhe. Corra. Viaje.

Viajar para dentro ou viajar para fora. Tanto faz. Viajar é transitar, é trocar, é ver, sentir, comer, cheirar o novo, o outro, o diferente.

Viajar não é simples. Não basta pegar um comboio, um carro, um avião. Não, mil vezes não. Viajar não é só tirar a bunda cadeira. Não adianta fazer isso se não tirar a bunda da cabeça. Se não por o cérebro a funcionar, se não liberar o sentidos.

Se não sair nunca do casulo, sempre será larva, nunca borboleta.

Estive o último mês viajando. Primeiro no Chile (de Santiago até aquele lugar onde Judas encontrou a bota, em plena Patagónia). Depois Argentina e ainda pelo Sul do Brasil até, por fim, passar pelo Rio de Janeiro.

Foi uma viagem estranha, porém bacana. Fui sozinho, como todas as boas viagens sempre acabam por ser (mesmo aquelas em que vai bem acompanhado). Deu para reflectir sobre algumas coisas, tomar umas notas mentais, fazer um balanço da vida e, noves fora, chegar a brilhantes inconclusões (o corrector de texto do computador avisa que esta palavra não existe, dane-se o corrector, quem sabe do que escrevo sou eu).

Os pontos altos foram vários e plenamente recomendáveis para quem um dia quiser conferir pessoalmente.

Não vai dar para esquecer o fim de tarde em Porto Varas, o Sol rosa/vermelho a descer como uma bola no lago, com o vulcão Osorno como pano de fundo.

Fim de tarde só comparável com um dos três ou quatro que vi em Ipanema. Com o diferencial da banda sonora ser de alguns turistas e muitos cariocas a brindar em plena praia ao Sol, ao Rio, à natureza. Aquela cidade tem dessas coisas. As pessoas perdem a noção do ridículo e batem palmas até para o horizonte. Melhor assim. Bem melhor, aliás.

Em Bariloche, descobri o prazer de nadar às 11 da noite numa piscina aquecida ao ar livre. Temperatura da água: 35º. Temperatura exterior: 10º. Resultado: a água a deitar fumo, só a cabeça do lado de fora e um belo visual para um fantástico lago patagónico.

Em Florianópolis, foi interessante rever uma cidade (na verdade, um ilha) em que morei há quase vinte anos. Curioso foi estar ao pé da casa em que lá habitei e descobrir que ela era mais feia do que lembrava, mais pequena do que lembrava e nem sequer ficava de frente para a praia, ficava de lado, o que não correspondia a nada do que estava gravado na minha memória. Fica a lição: deixe o passado no passado. As pessoas e os lugares nunca vão ser os mesmos. Vão estar sempre mais velhos e possivelmente mais feios. Com as pessoas ainda há uma salvação: o que importa nelas é o que está por dentro e não o que está por fora. E de qualquer maneira, se for para comparar com a dos outros, a sua carcaça também não deve estar grande coisa.

No mais, um dos pontos altos foi poder ver numa sessão de cinema ao meio-dia, ou seja, entre praias, ao documentário “Vinicius”, que conta de maneira intimista a biografia do poeta Vinicius de Moraes. Lindo filme e também bela lição de vida.

Vinicius foi um poeta atípico, que começou a escrever para as elites e depois resolveu dedicar-se ao povo. Passou a vida a inventar e reinventar-se. Fugia do sucesso fácil. Estava sempre onde ninguém imaginava poderia estar. Pagou por isso. Foi menos reconhecido quando vivo do que deveria. Mas a sua obra continua aí, lida e cantada como se tivesse sido feita ontem, ou melhor, hoje.

Como por exemplo, o texto que vem a seguir que fala justamente sobre o que devemos fazer no começo de um novo ano e que dedico a todos vocês:


Amigos Meus

Ah, meus amigos, não vos deixeis morrer assim... O ano que passou levou tantos de vós e agora os que restam se puseram mais tristes; deixam-se, por vezes, pensativos, os olhos perdidos em ontem, lembrando os ingratos, os ecos de sua passagem; lembrando que irão morrer também e cometer a mesma ingratidão.

Ide ver vossos clínicos, vossos analistas, vossos macumbeiros, e tomai sol, tomai vento, tomai tento, amigos meus! - porque a Velha andou solta este último Bissexto e daqui a quatro anos sobrevirá mais um no Tempo e alguns dentre vós - eu próprio, quem sabe? - de tanto pensar na Última Viagem já estarão preparando os biscoitos para ela.

Eu me havia prometido não entrar este ano em curso - quando se comemora o 1964º aniversário de um judeu que acreditava na Igualdade e na justiça - de humor macabro ou ânimo pessimista. Anda tão coriácea esta República, tão difícil a vida, tão caros os géneros, tão barato o amor que - pombas! - não há de ser a mim que hão de chamar ave de agouro.

Eu creio, malgrado tudo, na vida generosa que está por aí; creio no amor e na amizade; nas mulheres em geral e na minha em particular; nas árvores ao sol e no canto da juriti; no uísque legítimo e na eficácia da aspirina contra os resfriados comuns. Sou um crente - e por que não o ser? A fé desentope as artérias; a descrença é que dá câncer.

Pelo bem que me quereis, amigos meus, não vos deixeis morrer.

Comprai vossas varas, vossos anzóis, vossos molinetes, e andai à Barra em vossos fuscas a pescar, a pescar, amigos meus! - que se for para engodar a isca da morte, eu vos perdoarei de estardes matando peixinhos que não vos fizeram mal algum.

Muni-vos também de bons cajados e perlustrai montanhas, parando para observar os gordos besouros a sugar o mel das flores inocentes, que desmaiam de prazer e logo renascem mais vivas, relubrificadas pela seiva da terra.

Parai diante dos Véus-de-Noiva que se despencam virginais, dos altos rios, e ride ao vos sentirdes borrifados pelas brancas águas iluminadas pelo sol da serra. Respirai fundo, três vezes o cheiro dos eucaliptos, a exsudar saúde, e depois ponde-vos a andar, para frente e para cima, até vos sentirdes levemente taquicárdicos. Tomai então uma ducha fria e almoçai boa comida roceira, bem calçada por pirão de milho.

O milho era o sustentáculo das civilizações índias do Pacífico, e possuía status divino, não vos esqueçais! Não abuseis da carne de porco, nem dos ovos, nem das frituras, nem das massas. Mantende, se tiverdes mais de cinqüenta anos, uma dieta relativa durante a semana a fim de que vos possais esbaldar nos domingos com aveludadas e opulentas feijoadas e moquecas, rabadas, cozidos, peixadas à moda, vatapás e quantos. Fazei de seis em seis meses um check-up para ver como andam vossas artérias, vosso coração, vosso fígado.

E amai, amigos meus! Amai em tempo integral, nunca sacrificando ao exercício de outros deveres, este, sagrado, do amor.

Amai e bebei uísque. Não digo que bebais em quantidades federais, mas quatro, cinco uísques por dia nunca fizeram mal a ninguém.

Amai, porque nada melhor para a saúde que um amor correspondido.

Mas sobretudo não morrais, amigos meus!

1965
in Para uma menina com uma flor