Tuesday, December 06, 2005

Esperança e canja de galinha

Rápido, parado, mexido, na mesma. Acho que 2005 vai ser lembrado como o ano em que nada foi resolvido, pouco foi melhorado, em que o planeta esteve onde sempre esteve, mas, como diria Galileu, no entanto moveu-se.

Será que vamos ter saudades de 2005? Tenho dúvidas, tenho dúvidas.

Costumamos ter saudades dos tempos em que as coisas eram bonitas, melhores, mais ricas. As nossas recordações são sempre em polaroids da vida, nunca na crueza de uma imagem digital que pode ser perfeitamente apagada (apenas porque sim) só para não ocupar espaço no disco rígido das nossas almas.

Duvido que 2005 entre por si só no álbum de fotografias da década.

2005 não teve nos seus dias o delírio de um Euro 2004 em Portugal, por exemplo.

2005 foi um ano daqueles de, literalmente, cumprir o calendário. Não é que tudo foi mau (e, olha, que muita coisa foi má), apenas não teve o seu brilho próprio.

Não foi em 2005 que descobriu-se a cura para a SIDA. Não foi em 2005 que todos os países decidiram cumprir o Protocolo de Quioto (uma das poucas garantias de que este mundo tenha lá algum futuro). Não foi em 2005 que Saint Louis, o berço do jazz, não foi atingido por um furacão e que a festa pôde seguir como sempre. Não foi em 2005 que a humanidade descobriu-se extremamente solidária e que o G8 além de perdoar uns trocados da dívida dos países subdesenvolvidos (mesmo assim só por que o Bono dos U2 pediu) decidiu perdoar as dívidas todas e, já agora, vamos lá trabalhar todos para que as coisas funcionem melhor. Não foi em 2005 que Bin Laden, Bush e os seus comparsas chegaram a um acordo, fizeram as pazes e deixam-nos viver em paz.

Paz. Sim, teve qualquer coisa de paz em 2005. Aquilo lá entre Israel e a palestina até andou qualquer coisa. Mas foi pouco, soube a pouco.

Não foi em 2005 que a crise económica portuguesa acabou. Que o desemprego desceu. Que a justiça funcionou melhor. Que a saúde esteve em óptimo estado. Que o Estado esteve de óptima saúde.

Não, não foi em 2005. Nada disso aconteceu.

Mas, e agora?

Agora é bola para frente. Fora quem trabalha em museu, ninguém vive de passado.

2006 está aí mesmo a nossa frente para acontecer.

Como afirmou Gandhi: “Não sou um utópico, sou um idealista prático.” Ou Churchil: “Eu sou um optimista. Não me parece muito útil ser outra coisa.” Ou Armando Nogueira: “É sempre melhor ser optimista do que pessimista. Até que tudo dê errado, o optimista sofreu menos.”

É isso aí: 2006 ainda não deu errado.

Pode ser que dê certo. Todos os anos há sempre a hipótese dele dar certo. Quem sabe não é dessa vez.

Um pouco de canja de galinha e de esperança nunca fez mal a ninguém.

Tenha um feliz 2006.

E o mais importante: tente ter.

PS do meu Tio Olavo: "Se não houver frutos, valeu a beleza das flores; se não houver flores, valeu a sombra das folhas; se não houver folhas, valeu a intenção da semente."

Think about.