Saturday, November 05, 2005

Conta aí

Tenho cara de “conta aí.”

Isso é mais ou menos como ter a cara de um padre do interior já patusco de tão velho e necessariamente surdo.

O “conta aí” tem cara de pedinchão. É como se ele passasse a vida a implorar que os outros lhes contassem as suas vidas nos mínimos detalhes. E que, claro, tudo o que fosse dito não sairia dali, morreria com ele.

Pois é, tenho cara de “conta aí”. E as pessoas contam mesmo.

Graças à Deus há as excepções. Há quem seja prático e procure um psicanalista para fazer o trabalho sujo. E, então, com a atenção de um profissional ao seu serviço, comece a abrir as gavetas da alma, tirando de lá todos os tipos de objectos putrefactos e inúteis que coleccionamos ao longo da nossa curta e dispensável existência.

Como os analistas são pagos para não ter nojo das porcarias dos outros, vão remexendo no lixo à procura de algo que preste ou que possa ser consertado. Quase sempre conseguem dar a volta ao texto, mas às vezes não é fácil (“Hum, não, não, o facto do senhor coleccionar sapatos femininos não tem nada de errado, onde já se viu. É apenas uma demonstração tardia de apego ao design. Não vale a pena debruçarmo-nos sobre o tema. Prefiro antes voltar a aquele seu sonho recorrente, aquele do rapto do Pai Natal, em que aparecem o Lobo Mau, vestido em roupa interior de cabedal, a Cicciolina e dois rapazes fisioculturistas que têm os seios iguais aos da Pamela Anderson.”)

Mas como a maioria das pessoas não tem massa para pagar por uma análise, acaba por recorrer aos ouvidos dos amigos que, como todos sabem e o dicionário confirma, é o melhor sinónimo possível para a palavra sanita.

O meu caso então é terrível. Como tenho cara de “conta aí” e o meu ar apalermado é uma garantia de que nem que eu quisesse conseguiria usar o que ouço contra quem contou, volta e meia, conhecidos (o que até que é esperado) e desconhecidos (aí é que a coisa pia mais fino) contam-me segredos que fazem duvidar daquela balela de que o ser humano é uma raça superior.

E nem estou a referir-me necessariamente a coisas relacionadas ao sexo. Não, graças a Deus, o máximo que já ouvi de inconfidências sobre o assunto resume-se a meia dúzia de casos banais de infidelidade matrimonial (vamos ser sinceros, encornar e ser encornado são os dois desportos mais antigos do mundo). Nunca ouvi nada que envolva pigmeus albinos besuntados em ovos ou texugos selvagens (já sobre texugos domésticos, bem..).

Mas vamos aos factos. Dou alguns exemplos (todos eles reais).

Tenho uma amiga que há trinta anos não bebe água. Bebe sumos, ice-tea, refrigerantes em geral, mas água não. O estranho é que ninguém sabe desse seu hábito. Nem o marido desconfia. A água, como ela confessou-me, tem qualquer coisa de molhado que lhe causa uma certa repugnância. Certo, claro, então tá.

Um amigo, já um senhor de quase 40 anos, director de uma multinacional, guardou uma insólita mania da infância que é a de tocar músicas a soltar gases em geral (os arrotos e os outros). Cheguei a comover-me ao ouvi-lo arrotar outro dia o «Parabéns a Você». Mas nada que chegasse aos pés da sua maravilhosa improvisação do tema de “Dr. Jivago”, num arranjo para orquestras de gases.

Tenho outro amigo que só consegue dormir com duas almofadas. E daí? Bem, o problema é que as almofadas têm de ser as mesmas que o acompanham há mais de vinte anos (inclusive em viagens). Detalhe: elas nunca foram lavadas. Nem queiram saber a opinião da esposa dele sobre o assunto.

Pessoas que usam dois pares de meia de cada vez, conheci umas quatro. Pessoas que discutem sozinhas, a ponto de numa briga feia ficarem semanas sem dirigir a palavra a si mesmas, são quase todas. Idem para as pessoas que se deleitam com prazeres secretos a partir de actos aparentemente banais que envolvam a cera dos ouvidos e os macacos do nariz.

Tudo isso para dizer o quê? Bem, é só para lembrar que é risível a necessidade de toda a gente parecer normal. Além de uma perda de tempo (ninguém acredita) é só mais uma razão para causar stress desnecessário e infelicidade premeditada.

Sendo assim, amigo, ponha para fora o anormal que tem dentro de si. Gosta de pôr a língua na ponta nariz (há quem consiga), faça isso já, aí no meio da praça, no meio da rua. Ninguém se vai assustar (se calhar ainda é aplaudido).

Desde que não faça coisas ilegais, ninguém tem nada com isso.

Ou como diria o meu Tio Olavo: “De perto ninguém, é normal.”

25 Comments:

Blogger António_Pinto_de_Mesquita said...

Como na serie de fernando guimarães e Fernanda Abreu, representa, todos somos "normais" mas nem todos nos damos a tanto trabalho para escondelo!

3:52 AM

 
Blogger brunoqualquercoisa said...

o texto não faz parte de seu livro?

6:25 AM

 
Blogger _Faceless_ said...

"...esconde-lo!" Permita-me...

Só posso dizer "Genial!"

Quando e onde é que posso aprender consigo?

10:33 AM

 
Blogger MeninaMulher said...

Bruno é um remix de 2 crónicas do livro, ou o contrário também se deve aplicar, acho!

Por falar em livro...

Hum, 20 euros?!?!?!?

Ooookkkk, a disposição gráfica até está bonitinha, traz um CD e tudo, mas 20 euros???

Bolas, lá se foi uma noite de copos no Bairro.

2:32 AM

 
Blogger MeninaMulher said...

Ah em relalação à normalidade só por si é um conceito castrador.

2:43 AM

 
Blogger António_Pinto_de_Mesquita said...

Antes de mais obrigado pela correção. Segundo, a normalidade é um conceito para poder limitar formas de ser por rotulos para pessoas que necessitam de rotular as pessoas para as aceitar, perceber nunca, mas aceitar.
PS: MeninaMulher, temos que ver essa festa 90´s style. Com muito nirvana e metallica

2:27 AM

 
Blogger MeninaMulher said...

António Metallica é 80´s, 80´s.

Primeiro álbum de Metallica 1981 (1 ano antes de eu nascer) Kill Em All.

Estive no melhor concerto deles, 1993 Alvalade, claro q para os "old school" o Black é para tenrinhos.

Deal!!! Vamos ter festa mais rápido do q pensava…

3:52 AM

 
Blogger brunoqualquercoisa said...

o iva sobre os livros em portugal é um atentado ao bom senso. Como levar mais pessoas a ler se o estado não faz um esforço?
"que os ricos pagam a crise"
salve-se quem puder.

7:02 AM

 
Blogger MeninaMulher said...

Bruno no espaço de uma semana gastei 38,50€ em 2 livros, fora os que tive de comprar para a faculdade, mas esses ñ me saíram do bolso... incrível!!!

Não há bolsa q resista.

Não sei se o problema será só do IVA, acho q as editoras também deixam muito a desejar, dizem!

6:53 AM

 
Blogger Isa said...

muito bom... ;-)

4:25 PM

 
Blogger António_Pinto_de_Mesquita said...

meninamulher, o "black album" é para tenrinhos, mas quem não tem direito a ser tenrinho de vez em quando? O "kill them all" tem uma sonoridade jamais captada por ninguem, mas os nirvana são mais 90´s que 80´s.
O problema dos livros, como o vejo, é que os putos pensam que um livro é a versão longa de um filme, se não há filme não interessa. Também já ouvi da boca de um puto que livros só por obrigação. Eu que agora tenho que ter tv em casa estou a perder muito o habito de ler mas assumo, sai mais barato ver tv.

2:21 AM

 
Blogger MeninaMulher said...

Na minha modesta opinião nós somos a geração “clip”estamos habituados aos 2500 planos por segundo, pensamos mais por imagens do que por palavras e depois é toda a estrutura desconjuntada do sistema educativo, os jovens no Liceu levam cá com uma estopada que só de folhear as páginas queimam os dedos e a maioria não é masoquista.

Aos 14 anos metem-nos a ler os Lusíadas e a Odisseia, aos 15 O Velho e o Mar e aos 16 Os Maias, só aquela descrição do Ramalhete deixa qualquer pessoa à beira de um colapso nervoso, depois quem tem a sorte de gostar de ler, lá encara aquilo como uma prova de fogo e sabe que por muito que custe vai acabar por chegar ao fim, quem não tem lê os resumos e não toca num livro o resto da vida.

8:25 AM

 
Blogger António_Pinto_de_Mesquita said...

Resumindo, o habito da leitura deveria ser incutido em casa aos 8 ou 9 anos de idade e não na escola aos 14.

8:28 AM

 
Blogger MeninaMulher said...

Concordo!

8:35 AM

 
Blogger MeninaMulher said...

Sim, António Nirvana é sem dúvida 90´s apesar de terem editado o primeiro álbum em 89.

Voltando aos livros, aquilo que referiste de ser em casa q deve ser incutido o gosto pela leitura também pode ter o efeito “boomerang”, por vezes aquilo que nos “impigem” é a primeira coisa q rejeitamos.

Vou-te dar um exemplo concreto não comi carne até aos 8/9 anos e hoje em dia ñ dispenso um bom naco grelhado e suculento.

2:22 PM

 
Blogger Ary Nelson said...

Edson... O teu blog já está sofrendo do teu mal de "conta aí"... Hehehe

Nada mais democrático.

Beleza :)

12:09 AM

 
Blogger António_Pinto_de_Mesquita said...

Quando digo incutido não digo obrigado, mas sim mostrado. Uma mãe que le com os seus filhos, ajuda de certa forma a que este queiram ler.

4:24 AM

 
Blogger brunoqualquercoisa said...

conta? não conta? ai as contas?

8:21 AM

 
Blogger MeninaMulher said...

António então e o pai???

Fica a coçar a micose e a ver a bola, não???

Isso de se atribuir só à mulher a educação dos filhos tem pano para mangas.

Regressando à base…

Tenho de concordar contigo, nós aprendemos por imitação e se crescermos rodeados de livros é provável que venhamos a gostar deles, mas é só provável ñ é dado adquirido.

3:04 PM

 
Blogger MeninaMulher said...

Faceless increve-te já no Lisbon Ad School.

3:08 PM

 
Blogger António_Pinto_de_Mesquita said...

Meninamulher,
Não me leves a mal, o meu maior sonho nesta curta e leviana vida é ter um filho, com certeza não é para ver como ele é educado, nem para passar a gostar de bola. Quero ter um filho e quero fazer parte da educação dele, académica, cultural e em tudo o resto que ele precise, até mesmo nas descascas que ele terá que ouvir, para aprender que tudo tem limites e que o bom senso tem razão para existir.

4:31 AM

 
Blogger António_Pinto_de_Mesquita said...

Faceless,
inscrições em Lisbon Ad School ou no Iade (marketing e Publicidade) são uma forma de aprender, se não fazes como eu e tentas estagiar na Ogilvy!

4:33 AM

 
Blogger MeninaMulher said...

António estamos a jogar em equipas diferentes.

O meu pior pesadelo é pensar que um dia vou ser mãe… mas, enfim… isso sou eu, uma eterna egoísta de merda que ainda pensa que o mundo gira à sua volta.

É extremamente positivo pensares assim… espero que não seja só conversa!

Limites? Bom-senso? As convenções deixam-me deprimida!

Ps- Queres dar-me o teu mns para continuarmos esta conversa???

É capaz de ser mais eficiente e eficaz.

ATENÇÃO não te estou a bater o "coro".

6:06 AM

 
Blogger alfinete de peito said...

Realmente os livros estão muito caros. Tal como a meninamulher estive em 93 a ver os Metallica. Gostava de trabalhar na Ogilvy, até porque trabalho lá perto. Mas estive por um fio para ir trabalhar para a concorrência.

Gostei do blog...Parabens.
Agora falta a visita ao Alfinete de Peito.

Temos dito.
Ass: Alfinete de Peito

3:04 PM

 
Blogger MeninaMulher said...

Ñ se preocupem comigo, não sou uma rival, ñ quero “vender pentes a carecas”.

8:31 PM

 

Post a Comment

<< Home