Wednesday, November 23, 2005

ponto de situação

então é assim pessoal: estou mesmo sem tempo de escrever coisas novas aqui. isso não quer dizer que desisti do blog ou que amanhã ou depois não arranje tempo para dar o ar da minha graça.

entretanto sugiro o seguinte: o blog contém dezenas e dezenas de textos. a maioria completamente atemporal. logo, se ainda não teve a oportunidade de ler alguns dos textos antigos, está aí uma boa oportunidade.

qualquer comentário sobre textos antigos pode ser colocado aqui neste post.

prometo que assim que puder ter trinta minutos de paz volto a escrever coisas novas.

e é isso. um abraço a todos.

Saturday, November 05, 2005

Conta aí

Tenho cara de “conta aí.”

Isso é mais ou menos como ter a cara de um padre do interior já patusco de tão velho e necessariamente surdo.

O “conta aí” tem cara de pedinchão. É como se ele passasse a vida a implorar que os outros lhes contassem as suas vidas nos mínimos detalhes. E que, claro, tudo o que fosse dito não sairia dali, morreria com ele.

Pois é, tenho cara de “conta aí”. E as pessoas contam mesmo.

Graças à Deus há as excepções. Há quem seja prático e procure um psicanalista para fazer o trabalho sujo. E, então, com a atenção de um profissional ao seu serviço, comece a abrir as gavetas da alma, tirando de lá todos os tipos de objectos putrefactos e inúteis que coleccionamos ao longo da nossa curta e dispensável existência.

Como os analistas são pagos para não ter nojo das porcarias dos outros, vão remexendo no lixo à procura de algo que preste ou que possa ser consertado. Quase sempre conseguem dar a volta ao texto, mas às vezes não é fácil (“Hum, não, não, o facto do senhor coleccionar sapatos femininos não tem nada de errado, onde já se viu. É apenas uma demonstração tardia de apego ao design. Não vale a pena debruçarmo-nos sobre o tema. Prefiro antes voltar a aquele seu sonho recorrente, aquele do rapto do Pai Natal, em que aparecem o Lobo Mau, vestido em roupa interior de cabedal, a Cicciolina e dois rapazes fisioculturistas que têm os seios iguais aos da Pamela Anderson.”)

Mas como a maioria das pessoas não tem massa para pagar por uma análise, acaba por recorrer aos ouvidos dos amigos que, como todos sabem e o dicionário confirma, é o melhor sinónimo possível para a palavra sanita.

O meu caso então é terrível. Como tenho cara de “conta aí” e o meu ar apalermado é uma garantia de que nem que eu quisesse conseguiria usar o que ouço contra quem contou, volta e meia, conhecidos (o que até que é esperado) e desconhecidos (aí é que a coisa pia mais fino) contam-me segredos que fazem duvidar daquela balela de que o ser humano é uma raça superior.

E nem estou a referir-me necessariamente a coisas relacionadas ao sexo. Não, graças a Deus, o máximo que já ouvi de inconfidências sobre o assunto resume-se a meia dúzia de casos banais de infidelidade matrimonial (vamos ser sinceros, encornar e ser encornado são os dois desportos mais antigos do mundo). Nunca ouvi nada que envolva pigmeus albinos besuntados em ovos ou texugos selvagens (já sobre texugos domésticos, bem..).

Mas vamos aos factos. Dou alguns exemplos (todos eles reais).

Tenho uma amiga que há trinta anos não bebe água. Bebe sumos, ice-tea, refrigerantes em geral, mas água não. O estranho é que ninguém sabe desse seu hábito. Nem o marido desconfia. A água, como ela confessou-me, tem qualquer coisa de molhado que lhe causa uma certa repugnância. Certo, claro, então tá.

Um amigo, já um senhor de quase 40 anos, director de uma multinacional, guardou uma insólita mania da infância que é a de tocar músicas a soltar gases em geral (os arrotos e os outros). Cheguei a comover-me ao ouvi-lo arrotar outro dia o «Parabéns a Você». Mas nada que chegasse aos pés da sua maravilhosa improvisação do tema de “Dr. Jivago”, num arranjo para orquestras de gases.

Tenho outro amigo que só consegue dormir com duas almofadas. E daí? Bem, o problema é que as almofadas têm de ser as mesmas que o acompanham há mais de vinte anos (inclusive em viagens). Detalhe: elas nunca foram lavadas. Nem queiram saber a opinião da esposa dele sobre o assunto.

Pessoas que usam dois pares de meia de cada vez, conheci umas quatro. Pessoas que discutem sozinhas, a ponto de numa briga feia ficarem semanas sem dirigir a palavra a si mesmas, são quase todas. Idem para as pessoas que se deleitam com prazeres secretos a partir de actos aparentemente banais que envolvam a cera dos ouvidos e os macacos do nariz.

Tudo isso para dizer o quê? Bem, é só para lembrar que é risível a necessidade de toda a gente parecer normal. Além de uma perda de tempo (ninguém acredita) é só mais uma razão para causar stress desnecessário e infelicidade premeditada.

Sendo assim, amigo, ponha para fora o anormal que tem dentro de si. Gosta de pôr a língua na ponta nariz (há quem consiga), faça isso já, aí no meio da praça, no meio da rua. Ninguém se vai assustar (se calhar ainda é aplaudido).

Desde que não faça coisas ilegais, ninguém tem nada com isso.

Ou como diria o meu Tio Olavo: “De perto ninguém, é normal.”