Sunday, October 09, 2005

Um e Outro

Onde um era água, o outro era mão. Um escorria pelos dedos, enquanto o outro, desesperado, agarrava-o em vão. Um não era nada, o outro achava-se tudo, menos tudo o que queria ser. Como eu. Como você. E seguiam juntos pela vida, como se a vida fosse para algum lugar, mas não, não vai. Nem vem. A vida não é táxi de ninguém.

Um era astronauta sem foguete, o outro era avião. Mesmo Céu, mesmas estrelas, mas sempre presos ao chão. O que faz lembrar que pior do que nada ser é ser apenas quase. Pois quase é perto, mas não é lá. Quase é o demónio que engana o homem sério, quase é o melhor atalho para o inferno. É o que faz acreditar que no fim tudo vai fazer sentido. E é aí, amigos, que mora o perigo. Pois nada sentido faz. Nem fez. A vida é sempre com vocês.

Um era rebuçado, o outro papel plástico amassado. Um era teorema, o outro resposta na página ao lado. Um era lâmpada acesa, o outro vela sobre a mesa. Um era um bom cigarro, o outro não era um comentário do ministério implicado na solução final para o problema prioritário do cancro nacional. Onde um era água, outro era mão. Água molha, mão segura. Água verte, mão na luva. Água mole, pedra dura. Tanto bate, mão esmurra. Água esguicha, mão partida. Mão doente, água quente. Mão enferma, água cura.

Se a paixão fosse um copo, um até poderia sonhar. Esquecendo o claro risco de, por uma gota, ver o outro transbordar. Onde um era água, o outro era mão. Até que veio o inverno e, junto, a solução. Água virou gelo. E mão o pode agarrar. Daí seguiram juntos pela vida. Como se a vida fosse para algum lugar. Mas não, não vai. Não vai não. A vida só vai até a próxima batida do coração. Ou, no caso, até nascer o primeiro raio de Sol na primeira madrugada do primeiro dia do próximo Verão.

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