Thursday, October 20, 2005

Como nossos pais

Ok, este blog corre o risco de ficar monotemático, mas vamos lá a mais um texto a falar dos trintões & cia (sempre a lembrar o meu fabuloso livro “Os Ttintões”, que já está nas livrarias e já vai na segunda edição).

É moda em Londres, ou seja, não demora e será moda também em Portugal. São as chamadas School Dance, festas organizadas para trintões rememorarem os tempos de escola. A receita é simples: música dos anos 80 e roupas que remetem directamente para a época em que aquele bando de balzaqueanos bêbados que chocalha o esqueleto no Kapital ainda eram colegiais. É uma mistura de Duran Duran com celulite; um cocktail explosivo de Police e lipoaspirações.

A ideia de fundo das School Dance é proporcionar um reencontro de colegas de turma e a simulação de uma máquina do tempo, remetendo toda a malta para uma era em que eram todos menos feios e mais felizes, menos sérios e mais loucos, menos carecas e mais magros.

A coisa segue uma tendência que vem dos EUA. Lá é imenso o sucesso dos sites que promovem o reencontro de ex-colegiais. Só um deles, o “classmate.com”, tem cerca de 30 milhões de registados. Gente que aderiu sem pudores ao Complexo de Peter Pan, que tem dificuldades em crescer, em desligar-se do passado, em usar os trapinhos da Diesel ou dançar trance ou hip hop.

Cá na terrinha o negócio tem tudo para prosperar. Cedo chegará o dia em que vou encontrar alguns dos meus amigos numa School Dance lusa. A festa será num lugar entre o Frágil do Bairro Alto e a Discoteca 2001 no Autódromo do Estoril. Lá estarão o Pedro Rolo Duarte (a dançar com a gravata na testa em cima de uma coluna de som) e o João Gobern, a fazer de DJ, a pôr um LP dos Táxi para girar na pick-up e animar o pessoal. Você, claro, também estará convidado. E com um pouco de sorte ainda convence a Margarida Rebelo Pinto a dar uma voltinha nas dunas do Guincho, com a desculpa de que sempre é uma maneira de homenagear o GNR.

As School Dance e os sites de ex-colegiais têm a ver com um só fenómeno: o revivalismo dos anos 80. Ainda mal se dá por ele aqui por estas bandas, mas desde há uns dois anos a onda vem crescendo de importância um pouco por todo o planeta e principalmente na Europa.

Basta fazer as contas para ver que os grandes impulsionadores da coisa são as pessoas de trinta-e-tantos anos. E nem poderia ser diferente. São consumidores com alto poder de compra (para alguma coisa tem que servir trabalhar até tarde naquele emprego chato) e que têm imensa dificuldade de acompanhar a velocidade com que a informação circula no mundo hoje em dia.

Trata-se de uma raça que surgiu e viveu toda a sua juventude sem a internet e a TV por cabo. Que garimpava as rádios à procura de pequenas pepitas musicais. Que gastava a mesada em revistas como a New Musical Express ou a Melody Maker, na esperança de decorar os nomes de bandas que levariam ainda alguns meses para ter um disco lançado no mercado nacional. Que nem no Amoreiras encontrava a maioria das marcas de roupas internacionais. Que para conhecer o continente tinha que passar pela aventura do inter-rail.

Os ex-jovens dos anos 80 sentem-se razoavelmente perdidos na Torre de Babel em que o mundo se tomou na última década. Ainda olham para o telemóvel como um fantástico avanço tecnológico e mal aprenderam a enviar SMS. Navegam na rede ainda com uma dose cavalar de espanto e admiração mas é pouco provável que convivam com o ICQ como se fosse a coisa mais natural do universo.

Daí que de vez em quando precisem se encontrar num canto qualquer com os da mesma espécie. Seja numa festa ou na audiência do canal VH1. Tanto faz. O importante é sentir-se seguro e protegido contra algumas modernidades que andam por aí. Tal como os nossos pais fizeram um dia. O que me faz lembrar uma velha canção da Elis Regina (ora bolas, não estamos a falar de reminiscências?) que dizia:

“Não quero lhe falar, meu grande amor
Das coisas que aprendi nos discos
Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo.

Viver é melhor que sonhar
E eu sei que o amor é uma coisa boa
Mas também sei que qualquer canto
É menor do que a vida
De qualquer pessoa.

Já faz tempo eu vi você na rua
Cabelo ao vento, gente jovem reunida
Na parede da memória
Essa lembrança é o quadro que dói mais.

Nossos ídolos ainda são os mesmos
E as aparências não enganam não,
Você diz que depois deles
Não apareceu mais ninguém.

Você pode até dizer que eu estou por for a
Ou então que eu estou inventando
Mas é você que ama o passado e que não vê
Que o novo sempre vem.

Minha dor é perceber
Que apesar de termos feito tudo
Tudo, tudo que fizemos
Nós ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como nossos pais…”

16 Comments:

Blogger dislexico anonimo said...

A uníca questão é porque raio é que quando eu estava nos 80's com borbulhas e oculos de aro de metal e as ormonas da adolescência aos saltos, eu tinha a sensação de estar simplkesmente a sobreviver e agora que olhe para trás acho que aquilo é que foi vida e agora vou sobrevivendo. Será pecimismo, relativismo ou falta de noção.

3:06 AM

 
Anonymous Anonymous said...

Eu acho muito fixe isso. Quando houver uma festa dessas, eu vou.

5:39 AM

 
Blogger Humor Negro said...

Olha a auto-promoção... olha que isso é heresia no mundo dos blogs. Olha que essa é a técnica dos cantores pimba.
OLha...

7:10 AM

 
Blogger António_Pinto_de_Mesquita said...

A ideia das festas está BRUTAL, tenho pena é de apenas ser uma criança durante os anos 80!

8:30 AM

 
Blogger MeninaMulher said...

António não tenhas pena!

Repara bem: ainda nos pudemos dar ao luxo de cometer todo o tipo de loucuras, numa pureza imprudente de uma irreflexão reflectida, deixando as consequências para depois, que por norma parecem sempre muito distantes e sem que certas e determinadas atitudes sejam encaradas como pura demência ou insanidade aguda.

Há alguma coisa melhor do que ter 20 anos???

11:09 PM

 
Blogger António_Pinto_de_Mesquita said...

Talvez ter melhor do que ter 20 anos seja ter 20 anos e imaginação.

8:37 AM

 
Blogger MeninaMulher said...

António a imaginação é inata à nossa condição humana, quer se tenha 8 ou 80.

Temos é que treiná-la tal e qual como vamos ao ginásio tonificar os músculos. (Hum… onde é q eu já ouvi isto?!?!?!?)

Fica bem!

Ps- Daqui a 20 anos talvez nos encontraremos nalguma festa perdida na realidade virtual, a ouvir Nirvana e a “abanar o capacete” (ui… q expressão tão 80´s) ou a bater o pezinho(versão actualizada).

5:02 PM

 
Blogger António_Pinto_de_Mesquita said...

Talvez, ou quem sabe até numa festa para recordar os 80 que apesar de criança tambem vivi.

4:10 AM

 
Blogger MeninaMulher said...

António daqui a vinte anos a geração 80´s só se for de andarilho (xiii… q mazinha).

4:00 AM

 
Blogger António_Pinto_de_Mesquita said...

Minha joven, só nasci dois naos antes de ti, pode ser que daqui a 20 anos ainda consiga dançar por mim.

8:30 AM

 
Blogger MeninaMulher said...

António já completaste um quarto de século... :p

Eu estava-me a referir à geração 80´s.

Não achas q a nossa geração é da década posterior?

8:52 AM

 
Blogger Isa said...

sobre o tema: http://ecaequeeessa.blogspot.com/2005/11/tou-me-borrifar-prs-colegas-da-primria.html
abraço

9:28 AM

 
Blogger ahmaro said...

"Hoje eu sei que quem me deu a ideia de uma nova consciência e juventude, está em casa contando o vil metal"... faltava esta á letra..

8:02 AM

 
Blogger Rosmaninho said...

Realmente, há pouco tempo deu-me um ataque de anos-oitentismo, daqueles em que me apeteceu reviver e até viver o que não vivi naquela altura. Mas cheguei à conclusão (ao fim de muito pouco tempo) de que o passado não nos traz mesmo nada de novo. O importante é espremer o que ele teve de bom e usá-lo enquanto seguimos para a frente. Quando é que é a festa? Eu voto no Frágil. O dos anos 80, claro.

8:16 AM

 
Blogger Padauan said...

Bem, sem querer estragar a discussão, mas já estragando, a música "Como nossos pais" é do Belchior (cantor e compositor cearense, aqueeele, o "rapaz latino-americano sem dinheiro no banco, vindo do Interior", lembram?). Música que, aliás, não seria nada, se não fosse a Pimentinha. Foi mal, Belchior, mas a verdade é crua...

Abraço procês.

6:46 AM

 
Blogger Padauan said...

This comment has been removed by a blog administrator.

6:46 AM

 

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