Friday, October 28, 2005

honestamente

Recebi um e mail que demonstra um bocadinho do que nós, latinos, pensamos sobre a nossa maneira de ser.

O e mail dizia mais ou menos o seguinte:

A ONU decidiu realizar um debate sobre a fome. Para tanto, enviou uma mensagem pedindo que todos "respondessem, por favor, honestamente sobre a questão da escassez de comida nos seus países."

A mensagem causou uma enorme confusão. Os holandeses, por mais que pensassem, não conseguiam descobrir o significado da palavra "escassez". Os franceses desconheciam totalmente o conteúdo da expressão "por favor". Os africanos tinham dúvidas sobre o que era aquela coisa chamada "comida".

Mas o pior aconteceu no Brasil, na Espanha, na Itália e em Portugal. Dois meses depois, mesmo após imensos debates nos seus parlamentos, jornais e televisões, ninguém conseguia perceber o que a ONU queria dizer com a palavra "honestamente"

Thursday, October 20, 2005

Como nossos pais

Ok, este blog corre o risco de ficar monotemático, mas vamos lá a mais um texto a falar dos trintões & cia (sempre a lembrar o meu fabuloso livro “Os Ttintões”, que já está nas livrarias e já vai na segunda edição).

É moda em Londres, ou seja, não demora e será moda também em Portugal. São as chamadas School Dance, festas organizadas para trintões rememorarem os tempos de escola. A receita é simples: música dos anos 80 e roupas que remetem directamente para a época em que aquele bando de balzaqueanos bêbados que chocalha o esqueleto no Kapital ainda eram colegiais. É uma mistura de Duran Duran com celulite; um cocktail explosivo de Police e lipoaspirações.

A ideia de fundo das School Dance é proporcionar um reencontro de colegas de turma e a simulação de uma máquina do tempo, remetendo toda a malta para uma era em que eram todos menos feios e mais felizes, menos sérios e mais loucos, menos carecas e mais magros.

A coisa segue uma tendência que vem dos EUA. Lá é imenso o sucesso dos sites que promovem o reencontro de ex-colegiais. Só um deles, o “classmate.com”, tem cerca de 30 milhões de registados. Gente que aderiu sem pudores ao Complexo de Peter Pan, que tem dificuldades em crescer, em desligar-se do passado, em usar os trapinhos da Diesel ou dançar trance ou hip hop.

Cá na terrinha o negócio tem tudo para prosperar. Cedo chegará o dia em que vou encontrar alguns dos meus amigos numa School Dance lusa. A festa será num lugar entre o Frágil do Bairro Alto e a Discoteca 2001 no Autódromo do Estoril. Lá estarão o Pedro Rolo Duarte (a dançar com a gravata na testa em cima de uma coluna de som) e o João Gobern, a fazer de DJ, a pôr um LP dos Táxi para girar na pick-up e animar o pessoal. Você, claro, também estará convidado. E com um pouco de sorte ainda convence a Margarida Rebelo Pinto a dar uma voltinha nas dunas do Guincho, com a desculpa de que sempre é uma maneira de homenagear o GNR.

As School Dance e os sites de ex-colegiais têm a ver com um só fenómeno: o revivalismo dos anos 80. Ainda mal se dá por ele aqui por estas bandas, mas desde há uns dois anos a onda vem crescendo de importância um pouco por todo o planeta e principalmente na Europa.

Basta fazer as contas para ver que os grandes impulsionadores da coisa são as pessoas de trinta-e-tantos anos. E nem poderia ser diferente. São consumidores com alto poder de compra (para alguma coisa tem que servir trabalhar até tarde naquele emprego chato) e que têm imensa dificuldade de acompanhar a velocidade com que a informação circula no mundo hoje em dia.

Trata-se de uma raça que surgiu e viveu toda a sua juventude sem a internet e a TV por cabo. Que garimpava as rádios à procura de pequenas pepitas musicais. Que gastava a mesada em revistas como a New Musical Express ou a Melody Maker, na esperança de decorar os nomes de bandas que levariam ainda alguns meses para ter um disco lançado no mercado nacional. Que nem no Amoreiras encontrava a maioria das marcas de roupas internacionais. Que para conhecer o continente tinha que passar pela aventura do inter-rail.

Os ex-jovens dos anos 80 sentem-se razoavelmente perdidos na Torre de Babel em que o mundo se tomou na última década. Ainda olham para o telemóvel como um fantástico avanço tecnológico e mal aprenderam a enviar SMS. Navegam na rede ainda com uma dose cavalar de espanto e admiração mas é pouco provável que convivam com o ICQ como se fosse a coisa mais natural do universo.

Daí que de vez em quando precisem se encontrar num canto qualquer com os da mesma espécie. Seja numa festa ou na audiência do canal VH1. Tanto faz. O importante é sentir-se seguro e protegido contra algumas modernidades que andam por aí. Tal como os nossos pais fizeram um dia. O que me faz lembrar uma velha canção da Elis Regina (ora bolas, não estamos a falar de reminiscências?) que dizia:

“Não quero lhe falar, meu grande amor
Das coisas que aprendi nos discos
Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo.

Viver é melhor que sonhar
E eu sei que o amor é uma coisa boa
Mas também sei que qualquer canto
É menor do que a vida
De qualquer pessoa.

Já faz tempo eu vi você na rua
Cabelo ao vento, gente jovem reunida
Na parede da memória
Essa lembrança é o quadro que dói mais.

Nossos ídolos ainda são os mesmos
E as aparências não enganam não,
Você diz que depois deles
Não apareceu mais ninguém.

Você pode até dizer que eu estou por for a
Ou então que eu estou inventando
Mas é você que ama o passado e que não vê
Que o novo sempre vem.

Minha dor é perceber
Que apesar de termos feito tudo
Tudo, tudo que fizemos
Nós ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como nossos pais…”

Sunday, October 16, 2005

Politiquices

Já agora, a propósito das recentes eleições, o meu Tio Olavo enviou-me uma série de frases que falam sobre os políticos e a política.

Por exemplo:

"O político é um sujeito que vive as claras, aproveitando as gemas e sem desprezar as cascas."

"O estômago sadio é sempre conservador. Poucos radicais têm uma boa digestão."

"Não é raro que o diâmetro do cérebro de um político seja inferior ao do seu bolso."

"Político é como cozinheiro: quem faz o melhor bocado nem sempre o come."

"90 % dos políticos dão aos 10 % restantes uma péssima reputação."

"Todo poder é emprestado e há de retornar aos seu legítimo dono."

"Se votar resolvesse alguma coisa, votar seria ilegal."

"Vote no candidato que promete menos. Você ficará menos decepcionado."

"A melhor plateia para um comício é uma plateia inteligente, educada e ligeiramente bêbada."

Tuesday, October 11, 2005

meia-idadismo

A propósito do meu novo livro (“Os Trintões”, Editora Palavra, já à venda nas boas lojas do ramo), alguns amigos perguntam-me onde começa a meia idade.

Isso porque a simples comemoração do trigésimo aniversário (como se fazer 30 anos fosse motivo de festa) não é o suficiente para determinar o meia-idadismo. É natural. Até há 300 anos, ter 20 anos (quando quase ninguém chegava aos 40) era uma idade bastante madura.

Hoje em dia, pelo que eu vejo nos “Morangos com Açúcar”, aos 20 anos ainda se está a aprender a falar, a andar, a comer com talheres e a pensar e respirar ao mesmo tempo (a maioria, infelizmente, não consegue).

Logo, a meia-idade começa mais ou menos quando uma série de factores reunidos fazem com que o cidadão (ou a cidadã) se sinta o portador de uma carcaça mal gerida.

Para facilitar o auto-reconhecimento do seu meia-idadismo, reuni uma série de indicações que permite que você descubra se está naquele ponto da estrada em que ainda não vê o fim da linha mas que já não dá para voltar para trás.

Portanto, você é uma pessoa de meia-idade quando:

Em vez de ir escondido dos pais ao concerto dos Rolling Stones, passa primeiro na casa deles para deixar as crianças.

A ressaca de sexta feira prolonga-se até segunda de manhã.

Homem: presta mais atenção a uma mulher quando ela fala, do que quando ela anda.

Mulher: consegue se divertir mais ao lado de um homem do que debaixo dele.

Fica a tentar compreender as letras das músicas que tocam no rádio.

Não recebe convite para nenhum casamento há muitos anos e, quando ele chega, é da filha de um dos seus amigos, aquela que há pouco tempo você foi no aniversário e deu uma boneca de presente.

Acha a Madonna uma miúda espevitada.

Ainda usa a palavra «espevitada».

Acha que silicone é coisa de travesti.

Fica emocionado quando ouve uma música dos GNR

Lembra-se de quando a Manuela Moura Guedes era cantora.

Sabe que a Ana Maria Lucas já foi Miss Portugal.

Pior que isso: sabe o que é uma Miss Portugal.

Consegue passar horas na cama com a sua parceira só a conversar.

Relê os clássicos e descobre que eles não eram tão chatos assim.

A maioria dos telefonemas que recebe em casa é para os seus filhos.

Tem mais cabelos na toalha do que na cabeça.

Já não presta atenção às próprias celulites e varizes.

Ainda tem dúvidas se o Michael Jackson é gay.

Dá preferência aos vinhos tintos por causa dos flavonóides.

E o pior: sabe o que são os tais flavonóides.

Chegou a ter um sonho erótico com uma hospedeira da TAP.

Assistiu a chegada do homem à Lua.

Ainda tem dúvidas sobre se o homem realmente chegou à Lua.

Comprou ou ganhou de aniversário um Longa Duração da Madalena Iglésias.

Terrível: sabe o que é um Longa Duração e quem é Madalena Iglésias.

Já fez sexo sem camisinha sem ter medo de apanhar SIDA.

Assistiu a pelo menos um programa do Vasco Granja.

Participou num debate a discutir se «Vila Faia» era ou não melhor do que «Passerele».

Costuma mostrar álbuns de fotografias às visitas.

Acreditou que a Teresa Guilherme era noiva do Goucha.

Para as mulheres: a única maneira de alguém pedir para você fazer um topless é quando vai fazer uma mamografia.

Para os homens: a memória começa a ir embora e a única coisa que ainda consegue reter com facilidade é água.

Sunday, October 09, 2005

Um e Outro

Onde um era água, o outro era mão. Um escorria pelos dedos, enquanto o outro, desesperado, agarrava-o em vão. Um não era nada, o outro achava-se tudo, menos tudo o que queria ser. Como eu. Como você. E seguiam juntos pela vida, como se a vida fosse para algum lugar, mas não, não vai. Nem vem. A vida não é táxi de ninguém.

Um era astronauta sem foguete, o outro era avião. Mesmo Céu, mesmas estrelas, mas sempre presos ao chão. O que faz lembrar que pior do que nada ser é ser apenas quase. Pois quase é perto, mas não é lá. Quase é o demónio que engana o homem sério, quase é o melhor atalho para o inferno. É o que faz acreditar que no fim tudo vai fazer sentido. E é aí, amigos, que mora o perigo. Pois nada sentido faz. Nem fez. A vida é sempre com vocês.

Um era rebuçado, o outro papel plástico amassado. Um era teorema, o outro resposta na página ao lado. Um era lâmpada acesa, o outro vela sobre a mesa. Um era um bom cigarro, o outro não era um comentário do ministério implicado na solução final para o problema prioritário do cancro nacional. Onde um era água, outro era mão. Água molha, mão segura. Água verte, mão na luva. Água mole, pedra dura. Tanto bate, mão esmurra. Água esguicha, mão partida. Mão doente, água quente. Mão enferma, água cura.

Se a paixão fosse um copo, um até poderia sonhar. Esquecendo o claro risco de, por uma gota, ver o outro transbordar. Onde um era água, o outro era mão. Até que veio o inverno e, junto, a solução. Água virou gelo. E mão o pode agarrar. Daí seguiram juntos pela vida. Como se a vida fosse para algum lugar. Mas não, não vai. Não vai não. A vida só vai até a próxima batida do coração. Ou, no caso, até nascer o primeiro raio de Sol na primeira madrugada do primeiro dia do próximo Verão.

Monday, October 03, 2005

Adorável Dora (2ª parte)

É o carteiro. Ela recebe a carta. Volta para o sofá. A fatia do bolo continua sobre a mesa. Abre a carta com um ar meio indiferente, enquanto morde o bolo. É nesse instante que ela, já a mastigar o bolo, descobre que a carta é de um fã apaixonado, que a conheceu no tempo em que ainda era uma cantora de sucesso e que se lembrou do seu aniversário. Em off, ouvimos a voz do fã a fazer rasgadas declarações de amor. Dora fica surpreendida com o teor da carta. Lembra-se que está a mastigar o bolo envenenado. Assustada, vai até a casa de banho, vomita, lava a boca e volta a correr para a sala. Continua a ler a carta. O fã começa então a narrar uma fantasia erótica que teve com ela. Dora passa a sonhar. Vemos a fantasia a acontecer. Mas nunca vemos o rosto do fã, tudo se passa a partir de uma câmara subjectiva com o ponto de vista dele. Ao fim, Dora acorda do sonho. Está feliz. Abraça a carta contra o peito. No gira-discos o LP chega ao fim e o aparelho desliga-se. A imagem vai a negro.


Sequência 3

A partir daí, todos os dias Dora recebe uma carta a narrar as fantasias sexuais do fã. Vemos sempre as fantasias a acontecer. Dora continua a vestir-se como uma jovem dos anos sessenta.

É criado um clima de suspense quanto a quem é o fã. Pistas falsas indicam que ele pode ser o próprio carteiro ou um rapaz que Dora vê na rua a olhar para a sua janela ou um homem que ela tem a impressão que está a segui-la. Todos os suspeitos são jovens e bonitos.

Sequência 4

Um dia, o fã avisa que irá visitá-la no dia seguinte. Dora fica feliz com a notícia.

No dia da visita, vemos Dora a arrumar freneticamente a casa e depois se prepara para o encontro. Coloca um vestido de festa, brincos enormes, sapatos de saltos muito altos. Tudo extremamente antigo e piroso. Ela está tão feliz que porta-se como uma adolescente a se preparar para o primeiro encontro.

A campanhia toca. Ela corre a atender. Pára na porta antes de abrir. Tenta controlar as suas emoções. Abre a porta com um imenso sorriso. Fica desconcertada com o que vê: um senhor careca, a beira dos sessenta anos. O homem se apresenta como o fã, entrega um punhado de flores e pede para entrar. Meio que em transe, Dora deixa-o passar. Os dois sentam-se e ficam a se olhar. O fã tenta ser simpático, mas não consegue manter uma conversa com Dora, que está completamente assustada. A situação torna-se constrangedora.

Num dado momento, Dora se levanta e coloca um disco seu a rodar. Depois vai para a cozinha. Volta com o bolo envenenado. Serve uma fatia para ele e uma para si mesma. Ele, simpático, elogia o bolo. Dora tem então um ataque de risos. Ele também ri, sem saber o porque. Os dois comem e riem sem parar. A música sobe. Ecrã vai a negro. Fim.