Friday, September 09, 2005

nadar

Ai, ai, ai: vamos falar do hai-kai. É uma espécie de poema com uma avaria no sistema. Parece meio bobo, se calhar, até tolo, pois rima coisas como bolo e lobo, sem motivo aparente, mas, o que é que isso minha gente?, o bolo até pode ter comido o lobo, ou o inverso, e assim sucessivamente.

Segundo os entendidos, “o hai-kai é um tipo de poema originário do Japão. Consta originalmente de 17 sílabas em três versos: o primeiro de cinco, o segundo de sete e o terceiro de cinco.”

Mas isso é muito acadêmico para o meu gosto. E também para o meu saudoso compatriota Paulo Leminski (grande poeta e redactor publicitário que, apesar de muito vivo, já se encontra bastante morto).

Leminski ensinava como fazer um hai-kai: “Você tem a fórmula do conteúdo, que é o que os poetas contemporâneos obedecem, ao invés da contagem de sílabas; escolha temas simples; o primeiro verso expressa algo permanente, eterno; o segundo, introduz uma novidade, um fenômeno; o terceiro e último, é a síntese.”

A coisa já parece mais livre, mais solta, melhor. Mas ainda pode ser mais. O próprio Leminski fez poemas soberbos fora do formato hai-kai, guardando, porém, a sua leveza crónica e, por vezes, cômica.

Por exemplo:

não fosse isso
e era menos
não fosse tanto
e era quase

................................................

aquário de água limpa
olavo limpa
olavo lava
aquário de água clara
olavo aclara
olavo eleva
na água do aquário
olavo é adão
olavo é eva
na água do aquário
peixa pisca
olavo paga
na água do aquário
olavo risca
o tempo apaga
sombras do pomar
cores no cocar
susto no lugar
do aquário para o mar


................................................


o pauloleminski
é um cachorro louco
que deve ser morto
a pau a pedra
a fogo a pique
senão é bem capaz
o filhodaputa
de fazer chover
em nosso piquenique


................................................


sossegue coração
ainda não é agora
a confusão prossegue
sonhos afora

calma calma
logo mais a gente goza
perto do osso
a carne é mais gostosa


Quando descobri Leminski e a lógica do hai-kai, vi que a minha praia andava por ali. Das poucas vezes que tenter cometer poesia, sempre foi inspirado na coisa.

Os dois poemas que pode ler abaixo são pequenas provas disso. Mas há uma melhor (na verdade, pior) que tem a ver com uma história.

Um dia, houve um concurso de poesia moderna na minha faculdade. Quis participar mas, morto de vergonha, assinei o poema com um nome falso. De qualquer forma, o texto nada mais era do que uma gozação com a turma de pseudointelectuais que andava pelo campus a vomitar poesia de péssima qualidade e muita pretensão. O certo é que o poema ganhou o concurso eu tive que fingir que não tinha nada com aquilo. O poema chamava-se “Nadar” e era assim:

nada?
a danada?
não nada nada.
nada, nada?
nada, nada.
danada.

3 Comments:

Blogger estreladomar said...

Oi! Edsontioolavo! Nunca consegui fazer poesia... Agora ando entretida a tentar! Brigada pela dica...cmprmnts

6:28 AM

 
Anonymous Anonymous said...

Ouvi esse mesmo poema dito pelo autor, à saída do estúdio que era do Diamantino, ali na Graça, depois da gravação dos spots TV para a TSF com o Diogo Infante. Há uns 9 anos, acho eu.

Se ainda me lembro, o poema tem esse grande mérito.

É memorável.

9:52 AM

 
Blogger Ricardo Brand said...

Pois eu me lembro da versão original manuscrita

11:19 AM

 

Post a Comment

<< Home