Friday, September 23, 2005

meiquin-ofe

No começo aquilo não era um livro. Era vida. A minha vida, de certa maneira. A coisa arrancou como uma página semanal no DNA (suplemento do Diário de Notícias), intitulada "Os Trintões". E estava mais para uma espécie de confessionário público daquilo que assistia no meu dia a dia, além de alguns acertos de contas com o meu passado.

Tentava não escrever com muita antecedência. Tal como nas novelas de televisão, queria uma obra em aberto. Acreditava que seria mais interessante deixar claro para quem estivesse a minha volta que sim, aquela nossa conversa, aquilo que estava a acontecer connosco poderia perfeitamente aparecer narrado no suplemento da semana seguinte.E foi mais ou menos o que foi acontecendo. Claro que, pelo meio, acrescentava muita ficção ou, pelo menos, algum delírio estilístico.

Foi assim que apareceu, por exemplo, o personagem Laura uma espécie de musa sincrética cujo perfil foi montado a partir dos gestos, atitudes e pensamentos de cinco antigas namoradas. E, o curioso, é que na facilidade em fazer os encaixes, percebi que os meus ex-relacionamentos correspondiam a um perfil exacto de raparigas. A outra opção seria a de afirmar que todas as mulheres são iguais. O que não é muito politicamente correcto de se dizer. Só elas podem falar essas coisas sobre nós.

Nós. Pois é, estava a esquecer-me de uma coisa importante. “Os Trintões” traz especificamente o ponto de vista de um “gajo” sobre o mundo (digo “gajo” pois é disso que se trata: os textos têm uma voz ligeiramente machista, certamente masculina e, por vezes, cínica, como só um “gajo” pode ter). Isso, diferente do que eu pensava, em vez de afastar o público feminino, só atraiu. Eram as mulheres que me escreviam, que me mandavam e-mails, na maior parte da vezes a agradecer a ajuda. “Os Trintões” tinham se tornado numa espécide de bula para se perceber um pouco melhor a cabeça dos namorados, maridos e amigos.

Um belo dia, a coisa acabou. Tinha já tocado em todos os temas que queria e para continuar teria que me expor mais do que gostaria. O exercício estava feito e antes que se tornasse entediamente pedi ao Pedro para parar. E passei a escrver sobre outros assuntos.

Meses depois o Gonçalo Bulhosa, da Editora Palavra, procurou-me para desafiar-me a construir um livro que fosse uma consequência da coluna “Os Trintões”. Achei estranho, achei que não dava. Já estava com a cabeça noutras coisas, prestes a embarcar para o Brasil, onde viveria alguns meses e sem tempo para aquele projecto.

Mas o Gonçalo foi insistente. Declarou-se leitor atento dos “Trintões”, que aquela página o havia ajudado a reflectir sobre a sua vida num determinado momento, que outras pessoas deveriam ter sentido a mesma coisa e, enfim, de tanto argumentar acabou por me convencer.Daí foram mais alguma semanas, já no Rio de Janeiro, a reler e reescrever os textos. Eram, no principío, uma colcha de retalhos sem nada que os unissem verdadeiramente. Demorou até aparecer o click de que eles não deveriam ter títulos próprios, nem ser divididos em crónicas e ficção. Só percebi que sim teria ali um pequeno e despretencioso livro quando dividi os textos em quatro grandes áreas (o culto ao corpo, o amor, a amizade e a vida como um
todo). Daí para a frente a coisa foi bem mais fácil. Fui repescar alguns textos antigos já publicados noutros contextos mas que ali se encaixavam com perfeição. Escrevi as partes que faltavam para aquilo tudo fazer mais sentido.

No final, a obra acabou por se tornar numa coisa entre o manual de auto-ajuda e um pequeno livro de contos. A ideia é estar sempre a supreender o leitor, que nunca sabe o que vai encontrar na página seguinte. É também um livro conciso, que dá para ler em poucas horas, de um só fôlego, para que o raciocínio geral não seja perdido nem esquecido. Vícios de publicitário, talvez.

Originais prontos e organizados, enviei para Lisboa (no começo de Dezembro do ano passado, as pessoas não têm muita noção do tempo e do trabalho que dá editar um livro). Vim para cá em Janeiro para, entre outras coisas, tratar da paginação, da escolha da capa, da foto da contra-capa. Um amigo, o designer Rui Costa, propôs uma capa só com tipografia e com os “Trintões” escritos de maneira estrannha (“Os 3Ões”). Achei piada. Ficou assim.Depois o Gonçalo propôs lançar junto com o livro um CD de música que eu havia acabado de produzir. O CD (parte de um projecto de releituras acústicas de músicas dos anos 80, chamado “Davi Não Vê Estrelas”) encaixava-se na temática dos “Trintões”. Nasceu assim a banda sonora ofertada com o livro.

Questão importante foi a do prefácio. Queria que ele fosse escrito por alguém que tivesse vivido os anos 80 de maneira intensa e com que me identificasse em termos de gostos e de visão do mundo. O problema é que o nome que mais vinha a minha cabeça era a de uma pessoa a quem eu nunca sequer havia sido apresentado pessoalmente, o Miguel Esteves Cardoso. Mas, como tenho uma certa lata para essas coisas, mandei um e-mail para o Miguel, sem muita esperança que ele respondesse. Passadas algumas horas, lá estava a resposta positiva. Trocamos mais alguns e-mails até que o prefácio fosse entregue ainda antes do prazo combinado. Até hoje, ainda não me encontrei nem falei sequer ao telefone com o Miguel, mas é uma daquelas pessoas que pela simpatia e antenção que teve comigo só posso chamar de amigo.

E é isso. O livro já está nas livrarias. É como se um filho estivesse a sair de casa. Ele deixa de ser meu e passa a ser de quem o ler. Espero que ele cresça nas mãos dos leitores, que ele seja útil para alguém.

Ou, pelo menos, como diria o meu Tio Olavo: “Nos dias de hoje, tudo o não atrapalha, já está a ajudar o suficiente.”

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