Tuesday, September 27, 2005

Adorável Dora (1ª parte)

(apontamentos para uma curta-metragem)


Dora: Mulher cinquentona, decadente fisicamente, que há cerca de vinte anos era uma bonita cantora de ié-ié. Vaidosa, não suporta o seu envelhecimento. Enlouquecida, Dora acaba por se refugiar em símbolos do passado para se sentir jovem, atraente, desejada. Seu mundo passa por uma mistura de fantasias. Solitária, isolada no seu apartamento, ela está a beira de colapso nervoso no dia do seu aniversário. Resolve então se suicidar. Mas um imprevisto acaba por dar um novo impulso em sua vida.


1ª Sequência:

Dora acorda pela manhã numa grande cama de casal. O seu braço movimenta-se sobre a cama, como que a procurar alguém para abraçar. Não encontra. Dora então se senta na beira da cama. Se espreguiça. Ela está a usar uma máscara de dormir. Fica um tempo parada, desanimada. Depois de alguns segundos, tira a máscara dos olhos. A luz da manhã incomoda-a.

Dora vai até a casa de banho. Olha-se no espelho. Examina as suas rugas, os dentes meio amarelados. Levanta os seios caídos. Ensaia um sorriso patético, na tentativa de parecer melhor. Aos poucos o sorriso vai se desmanchando. Ameaça chorar.

Após o duche, Dora volta ao quarto enrolada numa toalha. Abre o armário e tira dele uma espécie de baú. No baú ela encontra roupas visivelmente fora de moda: mini-saias, camisas coloridas, cintos de fivela larga, tudo bem típico da década de sessenta. No baú há também várias fotos dela há décadas atrás em festas, espectáculos, programas de televisão. Dora examina as fotos e as roupas. Ri sozinha. Até que encontra uma foto onde ele está a soprar as velas de um bolo de aniversário, abraçada a um lindo rapaz. Se detém nessa foto. Ao fundo, ouvimos de uma festa de aniversário, mulheres a falar como Dora está bonita, rapazes a lhe fazer elogios, a voz de um homem a dizer que a ama. Os ruídos são substituídos por uma música romântica de época (pode ser “Perfume de Gardénia”). Dora caí em prantos. Rasga a foto. Fica raivosa, começa também a rasgar algumas roupas. Na confusão a toalha cai, deixando-a nua. Chuta o baú, magoando o pé, cai no chão e continua a chorar, nua sobre a alcatifa, no meio das roupas, das fotos. A imagem escurece até negro.

2ª Sequência

Vemos Dora a se arrumar em frente ao espelho. Está vestida com as roupas que estavam no baú, de cílios postiços, muito pintada. Não demonstra qualquer emoção, está fria, passiva. Ajeita na cabeça uma peruca com um penteado em formato de bolo de noiva. Ao fim, olha-se no espelho satisfeita.

Vai até a sala e põe o gira-discos a funcionar. Vemos na capa do disco que é a própria Dora a cantora. Uma música de ié-ié invade o ambiente.

Dora vai para a cozinha e começa a preparar um bolo, onde coloca veneno de rato. Quando o bolo fica pronto, coloca duas velas de aniversário em cima (59 anos).

Dora volta para a sala com o bolo. Põe na cabeça um chapelinho de aniversário. Apaga as velas. Corta uma fatia de bolo e já está a se preparar para o comer quanto toca a campainha.


(continua)

Friday, September 23, 2005

meiquin-ofe

No começo aquilo não era um livro. Era vida. A minha vida, de certa maneira. A coisa arrancou como uma página semanal no DNA (suplemento do Diário de Notícias), intitulada "Os Trintões". E estava mais para uma espécie de confessionário público daquilo que assistia no meu dia a dia, além de alguns acertos de contas com o meu passado.

Tentava não escrever com muita antecedência. Tal como nas novelas de televisão, queria uma obra em aberto. Acreditava que seria mais interessante deixar claro para quem estivesse a minha volta que sim, aquela nossa conversa, aquilo que estava a acontecer connosco poderia perfeitamente aparecer narrado no suplemento da semana seguinte.E foi mais ou menos o que foi acontecendo. Claro que, pelo meio, acrescentava muita ficção ou, pelo menos, algum delírio estilístico.

Foi assim que apareceu, por exemplo, o personagem Laura uma espécie de musa sincrética cujo perfil foi montado a partir dos gestos, atitudes e pensamentos de cinco antigas namoradas. E, o curioso, é que na facilidade em fazer os encaixes, percebi que os meus ex-relacionamentos correspondiam a um perfil exacto de raparigas. A outra opção seria a de afirmar que todas as mulheres são iguais. O que não é muito politicamente correcto de se dizer. Só elas podem falar essas coisas sobre nós.

Nós. Pois é, estava a esquecer-me de uma coisa importante. “Os Trintões” traz especificamente o ponto de vista de um “gajo” sobre o mundo (digo “gajo” pois é disso que se trata: os textos têm uma voz ligeiramente machista, certamente masculina e, por vezes, cínica, como só um “gajo” pode ter). Isso, diferente do que eu pensava, em vez de afastar o público feminino, só atraiu. Eram as mulheres que me escreviam, que me mandavam e-mails, na maior parte da vezes a agradecer a ajuda. “Os Trintões” tinham se tornado numa espécide de bula para se perceber um pouco melhor a cabeça dos namorados, maridos e amigos.

Um belo dia, a coisa acabou. Tinha já tocado em todos os temas que queria e para continuar teria que me expor mais do que gostaria. O exercício estava feito e antes que se tornasse entediamente pedi ao Pedro para parar. E passei a escrver sobre outros assuntos.

Meses depois o Gonçalo Bulhosa, da Editora Palavra, procurou-me para desafiar-me a construir um livro que fosse uma consequência da coluna “Os Trintões”. Achei estranho, achei que não dava. Já estava com a cabeça noutras coisas, prestes a embarcar para o Brasil, onde viveria alguns meses e sem tempo para aquele projecto.

Mas o Gonçalo foi insistente. Declarou-se leitor atento dos “Trintões”, que aquela página o havia ajudado a reflectir sobre a sua vida num determinado momento, que outras pessoas deveriam ter sentido a mesma coisa e, enfim, de tanto argumentar acabou por me convencer.Daí foram mais alguma semanas, já no Rio de Janeiro, a reler e reescrever os textos. Eram, no principío, uma colcha de retalhos sem nada que os unissem verdadeiramente. Demorou até aparecer o click de que eles não deveriam ter títulos próprios, nem ser divididos em crónicas e ficção. Só percebi que sim teria ali um pequeno e despretencioso livro quando dividi os textos em quatro grandes áreas (o culto ao corpo, o amor, a amizade e a vida como um
todo). Daí para a frente a coisa foi bem mais fácil. Fui repescar alguns textos antigos já publicados noutros contextos mas que ali se encaixavam com perfeição. Escrevi as partes que faltavam para aquilo tudo fazer mais sentido.

No final, a obra acabou por se tornar numa coisa entre o manual de auto-ajuda e um pequeno livro de contos. A ideia é estar sempre a supreender o leitor, que nunca sabe o que vai encontrar na página seguinte. É também um livro conciso, que dá para ler em poucas horas, de um só fôlego, para que o raciocínio geral não seja perdido nem esquecido. Vícios de publicitário, talvez.

Originais prontos e organizados, enviei para Lisboa (no começo de Dezembro do ano passado, as pessoas não têm muita noção do tempo e do trabalho que dá editar um livro). Vim para cá em Janeiro para, entre outras coisas, tratar da paginação, da escolha da capa, da foto da contra-capa. Um amigo, o designer Rui Costa, propôs uma capa só com tipografia e com os “Trintões” escritos de maneira estrannha (“Os 3Ões”). Achei piada. Ficou assim.Depois o Gonçalo propôs lançar junto com o livro um CD de música que eu havia acabado de produzir. O CD (parte de um projecto de releituras acústicas de músicas dos anos 80, chamado “Davi Não Vê Estrelas”) encaixava-se na temática dos “Trintões”. Nasceu assim a banda sonora ofertada com o livro.

Questão importante foi a do prefácio. Queria que ele fosse escrito por alguém que tivesse vivido os anos 80 de maneira intensa e com que me identificasse em termos de gostos e de visão do mundo. O problema é que o nome que mais vinha a minha cabeça era a de uma pessoa a quem eu nunca sequer havia sido apresentado pessoalmente, o Miguel Esteves Cardoso. Mas, como tenho uma certa lata para essas coisas, mandei um e-mail para o Miguel, sem muita esperança que ele respondesse. Passadas algumas horas, lá estava a resposta positiva. Trocamos mais alguns e-mails até que o prefácio fosse entregue ainda antes do prazo combinado. Até hoje, ainda não me encontrei nem falei sequer ao telefone com o Miguel, mas é uma daquelas pessoas que pela simpatia e antenção que teve comigo só posso chamar de amigo.

E é isso. O livro já está nas livrarias. É como se um filho estivesse a sair de casa. Ele deixa de ser meu e passa a ser de quem o ler. Espero que ele cresça nas mãos dos leitores, que ele seja útil para alguém.

Ou, pelo menos, como diria o meu Tio Olavo: “Nos dias de hoje, tudo o não atrapalha, já está a ajudar o suficiente.”

Wednesday, September 21, 2005

festa esta sexta

meus caros,

Pois é: tenho um novo filho, ou melhor, livro e gostaria de o apresentar à sociedade como um todo e ai em específico. O livro fala sobre a turma da meia-idade. Daí que a ideia é nos encontrarmos todos e relembrarmos os saudosos anos 80. Além dos comes e bebes por conta da casa e da oportunidade de podermos comparar as nossas velhas carcaças, vamos ter um belo concerto da banda Davi Não Vê Estrelas (por acaso, produzida por mim). O show apresentará uma releitura totalmente acústica (guitarras, piano, violino, baixo, violoncelo, percussão) de várias canções dos eighties. E é isso. Boa conversa, boa música, bom livro e boa noite. pode vir e trazer companhia.

se quiser vir, faz o seguinte: deixe aqui um post com o seu nome até sexta pela manhã e eu coloco ele numa lista na entrada do evento.

Programa das Festas:

Dia 23 de Setembro, sexta-feira, Bar Lua (antigo Musicais) - Jardim do Tabaco - Lisboa

Cocktail e Autógrafos: das 21:00 às 23:00

Show: às 23:00

Friday, September 09, 2005

nadar

Ai, ai, ai: vamos falar do hai-kai. É uma espécie de poema com uma avaria no sistema. Parece meio bobo, se calhar, até tolo, pois rima coisas como bolo e lobo, sem motivo aparente, mas, o que é que isso minha gente?, o bolo até pode ter comido o lobo, ou o inverso, e assim sucessivamente.

Segundo os entendidos, “o hai-kai é um tipo de poema originário do Japão. Consta originalmente de 17 sílabas em três versos: o primeiro de cinco, o segundo de sete e o terceiro de cinco.”

Mas isso é muito acadêmico para o meu gosto. E também para o meu saudoso compatriota Paulo Leminski (grande poeta e redactor publicitário que, apesar de muito vivo, já se encontra bastante morto).

Leminski ensinava como fazer um hai-kai: “Você tem a fórmula do conteúdo, que é o que os poetas contemporâneos obedecem, ao invés da contagem de sílabas; escolha temas simples; o primeiro verso expressa algo permanente, eterno; o segundo, introduz uma novidade, um fenômeno; o terceiro e último, é a síntese.”

A coisa já parece mais livre, mais solta, melhor. Mas ainda pode ser mais. O próprio Leminski fez poemas soberbos fora do formato hai-kai, guardando, porém, a sua leveza crónica e, por vezes, cômica.

Por exemplo:

não fosse isso
e era menos
não fosse tanto
e era quase

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aquário de água limpa
olavo limpa
olavo lava
aquário de água clara
olavo aclara
olavo eleva
na água do aquário
olavo é adão
olavo é eva
na água do aquário
peixa pisca
olavo paga
na água do aquário
olavo risca
o tempo apaga
sombras do pomar
cores no cocar
susto no lugar
do aquário para o mar


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o pauloleminski
é um cachorro louco
que deve ser morto
a pau a pedra
a fogo a pique
senão é bem capaz
o filhodaputa
de fazer chover
em nosso piquenique


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sossegue coração
ainda não é agora
a confusão prossegue
sonhos afora

calma calma
logo mais a gente goza
perto do osso
a carne é mais gostosa


Quando descobri Leminski e a lógica do hai-kai, vi que a minha praia andava por ali. Das poucas vezes que tenter cometer poesia, sempre foi inspirado na coisa.

Os dois poemas que pode ler abaixo são pequenas provas disso. Mas há uma melhor (na verdade, pior) que tem a ver com uma história.

Um dia, houve um concurso de poesia moderna na minha faculdade. Quis participar mas, morto de vergonha, assinei o poema com um nome falso. De qualquer forma, o texto nada mais era do que uma gozação com a turma de pseudointelectuais que andava pelo campus a vomitar poesia de péssima qualidade e muita pretensão. O certo é que o poema ganhou o concurso eu tive que fingir que não tinha nada com aquilo. O poema chamava-se “Nadar” e era assim:

nada?
a danada?
não nada nada.
nada, nada?
nada, nada.
danada.

sincero

desfeito
o grande mistério.
descobri,
afinal,
que eu não sou
um homem sério.

duro de matar

o meu coração
é um bruce willis
cheio de fracturas
e múltiplas
cicatrizes