Monday, August 22, 2005

Suburbanos Corações (3º Capítulo)

Rômulo, desconfiado, ciumento, obrigara Virgínia a pedir a demissão. Mas o dono da padaria recusava-se a dispensá-la. Ele também havia caído de amores pela santaputa. A cada pedido de demissão seguia uma oferta de aumento o que tornou Virgínia em pouco tempo numa espécie de princesinha da panificação. Não era muito, mas era bom. Melhor só o que aconteceu com Stella, a sortuda. Arranjou um velho mal cheiroso e rico e partir de viagem de amor rumo a Bora-Bora. Enquanto isso, Rômulo amargurava-se ao lado de Virgínia, a lasciva, que continuava a recursar-se a fornicar com ele. Era um capricho infantile, ela sabia, mas pelo menos com Rômulo ela seria prua, casta, virgem, Virgínia.

Ícaro andou estranho por uns dias. Não comia, não bebia, não dormia, padecia de uma doença desconhecida. Nem Martha, nem a vizinha sabiam que ele estava apaixonado. E, solitário em seu quarto, sofria. Até que numa tarde, delirando num pesadelo febril, repetiu três vezes o nome de Stella, Stella, Stella! Foi como se uma faca penetrasse nas entranhas de Martha. Naquele instante o que ainda lhe restava de lucidez, e acreditem não era muita, esgotou-se de vez. Agora era só uma questão de tempo. Em breve iria agir. Antes que fosse tarde demais. Antes que os Cavaleiros do Apocalipse rasgassem o Céu e transformassem o mar em sangue. Antes que a pesada mão de Deus desabasse implacavelmente sobre os pecadores. E, principalmente, antes que essa vaca chamada Stella aparecesse e estragasse tudo.

Rômulo passou a seguir Virgínia na esperança de descobrir-se traído e poder sofrer então todas as dores daquela paixão. Mas, estranhamente, Virgínia não o traía. Ia directa da padaria para a casa, da casa directa para a padaria. Não retribuía os olhares ambiguous dos fregueses, alias, de uma hora para outra ela havia deixado de ser lasciva. Foi aí que ele suspeitou que o pior estava por vir. A fidelidade de Virgínia era um sinal de que algo de muito errado estava a acontecer. Ele aceitaria tudo, tudo, tudo, menos aquilo. Menos aquela fidelidade sofrida. Virgínia, ele tinha a certeza, estava a amar, estava a purificar-se pelo amor. Apenas uma dúvida impedia-o de ir agora mesmo estrangular a rapariga. Seria ele o objecto desse amor? Não, não, isso seria demais, isso ele não suportaria.

Ícaro era bastardo e não sabia. Nem imaginava que a sua santa mãezinha gostava de prevaricar na sacristia. O falecido marido dela sabia. E por isso batia-lhe. Seu lema era “uma tareia por dia é uma dieta sadia”. Um dia, morreu, feliz da vida. Ia finalmente livrar-se da bruxa. Mas nem morto teve a paz mericida. Um mês depois a bandida apareceu no cemitério grávida e depositou flores no seu túmulo. Passados uns tempos apareceu com o filho ao colo. E ele nada podia fazer, nem mesmo dar-lhe uma tareia. Daí que passou a revirar-se no túmulo, a rogar pragas contra o filho bastardo. A última praga era de morte. E Ícaro não sabia. Desde que se apaixonara por Stella passara a visitar o cemitério. Olhava para a cova do suposto pai e chorava as suas mágoas. Até que um dia, uma voz misteriosa vindo do nada sussurrou-lhe um conselho ao ouvido: “Vá Ícaro, jejue durante trinta dias e trinta noites e o seu amor irá conquistar!” Ícaro, crédulo e parvo, foi então para casa e seguiu à risca o conselho do além. Não pensou na hipótese de morrer de inanição. Era crédulo, era parvo. Enquanto isso uma certa alma penada finalmente descansou em paz. A vingança come-se fria. Mesmo depois da vida.

Naquela noite, Rômulo encontrou a resposta que tanto perseguira… (continua).

0 Comments:

Post a Comment

<< Home