Sunday, August 28, 2005

o copo meio cheio

Está para breve o lançamento do meu próximo livro (“Os Trintões”, Editora Palavra). A coisa deve ser no dia 23 de Setembro, numa festa dedicada aos anos 80 (se quiser ser convidado, basta postar um mail com nome e morada, se der arranjo um convite).

O livro, mais uma vez esclareço, falará sobre a vida dos homens de trinta-e-tantos (incluo-me nesse grupo). Mas o que é isso?

Ter trinta-e-muitos "não é pouco e não é muito, é o suficiente", disse-me uma vez um amigo. Estou a tentar compreender até hoje o que ele queria afirmar com isso.

Quando se é jovem, há sempre a desculpa de que ainda virá muita coisa pela frente. Por isso, podemos cometer todos os erros, passear alegremente no território da irresponsabilidade, promover a nossa incoerência, enfim, viver com um bocadinho mais de graça.

A velhice tem os seus pontos de contacto. Também ao velho é permitido mais liberdade. O velho pode sempre desdizer toda a sua vida, com a desculpa de que amadureceu. Quantos doces velhinhos não foram ao longo da vida tiranos irascíveis? E quantos velhos sábios não foram durante décadas soberbos idiotas?

Já nós, os de meia-idade, não temos safa alguma. Ou somos bons como somos ou somos péssimos em toda a linha.

Ter a idade suficiente quer dizer que não nos podemos desculpar de nada. O mundo inteiro está de olho na gente, não nos devemos esticar.

O pior é que a coisa chega de mansinho. Outro dia, ainda era um tipo que podia gozar com os meus próprios defeitos. Hoje, não, tenho de ter orgulho deles. É suposto, inclusive, promovê-los. Afinal, terei de conviver com eles até chegar o sublime período da senilidade.

Mas qual é o real significado da meia idade nos dias que correm?

É, por exemplo, ainda ter sonhos eróticos com a Rachel Welch. É ainda ter retido numa gaveta qualquer da memória o último episódio do "Verão Azul". É saber quem foi que matou a Odete Roitman. É ser capaz de solfejar uma música qualquer dos Bee Gees. É ter escondida no armário uma calça à boca-de-sino amarelo-ovo. É lembrar de um Paul Newman que ainda dava para as curvas. É recordar um tempo em que, quando se dizia que íamos ver "o último filme do Fellini", não estávamos a ser tão literais.

Quem tem trinta-e-tantos assistiu ainda miúdo ao desaparecimento dos ícones das eras anteriores. Viu morrer Chaplin, Elvis, Lennon e a moda da minissaia. Em contrapartida, viu nascer coisas maravilhosas como a televisão a cores, a videocassete, o telemóvel, o microndas, o silicone da Pamela Anderson e o bíquini fio dental.

Quem tem trintas-e-alguns é jovem de mais para morrer e velho de mais para o rock'n' roll (como se alguém hoje em dia ainda fizesse algum rock'n'roll que prestasse). Daqui para frente, sei que terei de conviver com uma cada vez mais protuberante barriga, terei de começar a dizer adeus aos meus cabelos e sonhar com a hipótese de que, já que fui um jovem feinho, pelo menos tornei-me um coroa interessante.

Os filhos dos meus amigos tratam-me por senhor. As filhas dos meus amigos tratam-me por tio. Sou apresentado em reuniões como doutor. Já não sou mais um rapaz, passei a ser um aglomerado de epítetos.

Mas também há coisas boas. Já posso fumar um charuto e beber um copo de whisky sem parecer um puto ridículo. Também posso reclamar da minha úlcera (como se eu tivesse úlcera) com alguma credibilidade. Posso utilizar no meu discurso expressões como "no meu tempo" e palavras como "alvíssaras", "homessa" e "outrora", que ninguém vai achar estranho. Enfim, como vê, há um sem-número de vantagens.

Com a idade que tenho não preciso preocupar-me mais em mudar o mundo, ser rebelde, acreditar na humanidade. Agora posso dedicar-me a coisas realmente palpáveis e relevantes como aprender a jogar golfe e preparar-me psicologicamente para a minha primeira lipoaspiração.

Sabe aquela velha história do copo de vinho meio vazio ou meio cheio? É isso: ter a idade suficiente é quando você olha para o copo e não saber o que ele quer dizer. Na dúvida, peça ao empregado que traga mais uma garrafa.

Ou como diria o meu Tio Olavo, quando perguntado se não pensava em fazer uma cirurgia plástica: "Por favor, deixem em paz as minhas rugas. Levei anos para consegui-las."

4 Comments:

Blogger estreladomar said...

Caro Edson. Tio Olavo. Edson.
Adoraria participar no lançamento do seu "Os Trintões". Se der, gostaria. Que bom rever aqueles textos a que na altura achei tanta graça. Quando acabou a fase trintões tive imensa pena. Mesmo. Aliás, para quando um regresso ao DNA? Agora que se fixou na santaterrinha, porque não?
No seu mail deixarei o contacto,para se der.
Cumprimentos estreladomar

11:39 AM

 
Blogger edson said...

cara (ou caro, sei lá) estrela do mar,

ok. deixa lá o contacto. boa, já lá vai ter pelo menos uma pessoa!

abs,

edson

12:36 AM

 
Blogger Azenhas said...

Bom... mais um a dizer que gostava de ir na festa, mas não era pelas bebidas, pois a idade de trintão já não permite loucuras. Era mesmo pela música e pelo livro.

Se sobrar um convite para dois, mande-me que vou na companhia da gata mais linda do planeta e arredores. A minha.

Obrigado.

Envio nome e morada para o mail.

9:39 AM

 
Anonymous Anonymous said...

adorava estar presente .. .estava a trabalhar em marketing, mas quero ir para a publicidade e muito por causa do que vi e do que li nos seus livros ! mroliveira@netcabo.pt

9:41 AM

 

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