Friday, August 26, 2005

a gaveta do escritor

Na gaveta do escritor cabe tudo, cabem todos.
Na gaveta do escritor há rascunhos, há rabiscos, há ladrões.
Há fadas, há cabras, há poemas, espiões.
Amigo, a gaveta do escritor é, como diz o outro, um perigo.
É melhor não abri-la sem mandato do juiz, sem carta do ministro, sem autorização.
Da gaveta do escritor podem sair delírios, unicórnios, maldades.
Podem sair belas morenas, mas também dragões.
É na gaveta que o escritor esconde a verdade, seus medos, manias, mistérios, ansiedades.
É lá que está um futuro prémio Nobel, um manifesto surrealista e uma apólice de seguro vencida.
,é uma verdadeira Torre de Babel, lá falam-se línguas secretas, criadas pelos astecas, onde as frases começam com vírgulas e terminam com dois pontos:
O escritor mente quando diz que não tem uma gaveta. Por melhor que seja, há sempre um conto incompleto, um artigo esquecido, um romance de fundo.
A gaveta do escritor é um túmulo.
Ali jazem segredos, personagens, mundos.
Se procurar com jeitinho vai encontrar um labirinto de Borges, um Pessoa obscuro.
Há canetas sem tinta, papelinhos, envelopes.
Há cigarros mofados, clips entortados, piratas torturados, miúdos reguilas, filósofos velhotes.
Há agendas repletas, fitas cassettes, fotos antigas.
Há pó, há lixo, há vestígios do crime, há aspirinas.
Mas se quer mesmo abrir a gaveta, faça com uma certa precaução.
Passe na Papelaria Fernandes, compre um fato de abrir gavetas ou de assaltar estantes, vá então a duas ou três igrejas distantes. Peça um padre para fazer uma extrema-unção.
Depois espere que o escritor saia para encontrar a sua musa ou para tomar uns copos ou para pedir esmolas.
Entre no seu quarto não de pé mas sim de cócoras, tomando cuidado para não partir os cornos nem rasgar a blusa.
Aí então atire-se sobre a mesa, respire fundo e abra a gaveta.
Leia sem grandes critérios o que está lá escrito, marimbe-se para a falta de unidade literária, com o maralhau de estilos.
Dê gargalhadas com o que vão dizer os críticos.
Depois pense em plantar um árvore e ter um filho.
Foi o que fiz. E virei um livro.

1 Comments:

Blogger dislexico anonimo said...

É realmente bom, dai eu recordar.

6:36 AM

 

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