Wednesday, August 31, 2005

ego

“Quem é que tu pensas que és?”
Sempre que eu ouço essa pergunta tremo nas bases.
“Quem é que tu pensas que és?”
Nunca sei se a pergunta é à sério ou uma mera figura de retórica.
“Quem é que tu pensas que és?”
Na dúvida, minto. Digo que penso que sou o que não sou.
E depois passo a ser.
É por isso que já fui mergulhador nas Antilhas, mensageiro na Índia, piloto da Nasa.
Já fui serial killer em Detroit, pop star na Cochinchina, bombeiro, chulo, Bispo de Braga.
Já fui diplomata depois de uma crise matrimonial com uma dona de bar no Arkansas.
Fiz carreira, cheguei a cônsul na Jamaica.
Mas, um dia, numa discussão de trânsito, alguém me perguntou quem eu pensava que era e passei a ser investigador científico renomado.
Estava a pesquisar uma misteriosa virose que atacava uma minoria étnica, quando o meu irritadiço chefe me obrigou a dizer que eu era um palhaço.
Desde então segui a vida num circo, onde as crianças vinham rir das minhas piadas.
Viajei meio mundo, fui à Rússia, ao Ceilão, à ex-Jugoslávia. Casei com a mulher barbada e tive três filhos: um trapezista, um mágico e um anão.
Mais uns anos de trabalho e conseguiria dinheiro para comprar a minha própria tenda.
Até que um dia, o domador, numa inexplicável crise de ciúmes pelo leão, fez-me a pergunta fatídica: “Quem é que tu pensas que és?”
E então eu respondi que era apenas um publicitário com pouco menos de quarenta anos, cliente especial de uns dois ou três bancos, que adora filmes, livros, i-pods e coisas moderninhas, que não sabe se acredita em Deus, mas que tem a certeza que Deus acredita nele, que tem poucos amigos reais e muitos imaginários, que tem medo de chegar ao fim da vida sem ter feito nada que valha realmente a pena esquecer, que tem a mania de que é uma daquelas pessoas sensíveis que a gente encontra nos bares ou naquelas festas de casamento em que não conhecemos os noivos e que costuma dizer que o mundo é duro, injusto e cruel, enquanto pede mais um gin tónico com um ar superior, o tipo de gente que não dá para confiar, pois ao mais pequeno descuido apanha a sua alma, arranca-lhe os olhos, e aproveita-se dela para escrever um conto sem lhe pagar mil contos.
E, o pior, é que dessa vez tenho a impressão de que eu disse a verdade.

Sunday, August 28, 2005

narcisismo

Às vezes fico aflito.
Nada faz sentido.
Quanto mais cresço
menos o mundo cabe
no meu umbigo.

o copo meio cheio

Está para breve o lançamento do meu próximo livro (“Os Trintões”, Editora Palavra). A coisa deve ser no dia 23 de Setembro, numa festa dedicada aos anos 80 (se quiser ser convidado, basta postar um mail com nome e morada, se der arranjo um convite).

O livro, mais uma vez esclareço, falará sobre a vida dos homens de trinta-e-tantos (incluo-me nesse grupo). Mas o que é isso?

Ter trinta-e-muitos "não é pouco e não é muito, é o suficiente", disse-me uma vez um amigo. Estou a tentar compreender até hoje o que ele queria afirmar com isso.

Quando se é jovem, há sempre a desculpa de que ainda virá muita coisa pela frente. Por isso, podemos cometer todos os erros, passear alegremente no território da irresponsabilidade, promover a nossa incoerência, enfim, viver com um bocadinho mais de graça.

A velhice tem os seus pontos de contacto. Também ao velho é permitido mais liberdade. O velho pode sempre desdizer toda a sua vida, com a desculpa de que amadureceu. Quantos doces velhinhos não foram ao longo da vida tiranos irascíveis? E quantos velhos sábios não foram durante décadas soberbos idiotas?

Já nós, os de meia-idade, não temos safa alguma. Ou somos bons como somos ou somos péssimos em toda a linha.

Ter a idade suficiente quer dizer que não nos podemos desculpar de nada. O mundo inteiro está de olho na gente, não nos devemos esticar.

O pior é que a coisa chega de mansinho. Outro dia, ainda era um tipo que podia gozar com os meus próprios defeitos. Hoje, não, tenho de ter orgulho deles. É suposto, inclusive, promovê-los. Afinal, terei de conviver com eles até chegar o sublime período da senilidade.

Mas qual é o real significado da meia idade nos dias que correm?

É, por exemplo, ainda ter sonhos eróticos com a Rachel Welch. É ainda ter retido numa gaveta qualquer da memória o último episódio do "Verão Azul". É saber quem foi que matou a Odete Roitman. É ser capaz de solfejar uma música qualquer dos Bee Gees. É ter escondida no armário uma calça à boca-de-sino amarelo-ovo. É lembrar de um Paul Newman que ainda dava para as curvas. É recordar um tempo em que, quando se dizia que íamos ver "o último filme do Fellini", não estávamos a ser tão literais.

Quem tem trinta-e-tantos assistiu ainda miúdo ao desaparecimento dos ícones das eras anteriores. Viu morrer Chaplin, Elvis, Lennon e a moda da minissaia. Em contrapartida, viu nascer coisas maravilhosas como a televisão a cores, a videocassete, o telemóvel, o microndas, o silicone da Pamela Anderson e o bíquini fio dental.

Quem tem trintas-e-alguns é jovem de mais para morrer e velho de mais para o rock'n' roll (como se alguém hoje em dia ainda fizesse algum rock'n'roll que prestasse). Daqui para frente, sei que terei de conviver com uma cada vez mais protuberante barriga, terei de começar a dizer adeus aos meus cabelos e sonhar com a hipótese de que, já que fui um jovem feinho, pelo menos tornei-me um coroa interessante.

Os filhos dos meus amigos tratam-me por senhor. As filhas dos meus amigos tratam-me por tio. Sou apresentado em reuniões como doutor. Já não sou mais um rapaz, passei a ser um aglomerado de epítetos.

Mas também há coisas boas. Já posso fumar um charuto e beber um copo de whisky sem parecer um puto ridículo. Também posso reclamar da minha úlcera (como se eu tivesse úlcera) com alguma credibilidade. Posso utilizar no meu discurso expressões como "no meu tempo" e palavras como "alvíssaras", "homessa" e "outrora", que ninguém vai achar estranho. Enfim, como vê, há um sem-número de vantagens.

Com a idade que tenho não preciso preocupar-me mais em mudar o mundo, ser rebelde, acreditar na humanidade. Agora posso dedicar-me a coisas realmente palpáveis e relevantes como aprender a jogar golfe e preparar-me psicologicamente para a minha primeira lipoaspiração.

Sabe aquela velha história do copo de vinho meio vazio ou meio cheio? É isso: ter a idade suficiente é quando você olha para o copo e não saber o que ele quer dizer. Na dúvida, peça ao empregado que traga mais uma garrafa.

Ou como diria o meu Tio Olavo, quando perguntado se não pensava em fazer uma cirurgia plástica: "Por favor, deixem em paz as minhas rugas. Levei anos para consegui-las."

Friday, August 26, 2005

batota

a vida é um poker
que eu não sei jogar.
outro dia, rapaz,
saí com uma dama
que me disse, na cama,
que eu estava longe
de ser um ás.

a gaveta do escritor

Na gaveta do escritor cabe tudo, cabem todos.
Na gaveta do escritor há rascunhos, há rabiscos, há ladrões.
Há fadas, há cabras, há poemas, espiões.
Amigo, a gaveta do escritor é, como diz o outro, um perigo.
É melhor não abri-la sem mandato do juiz, sem carta do ministro, sem autorização.
Da gaveta do escritor podem sair delírios, unicórnios, maldades.
Podem sair belas morenas, mas também dragões.
É na gaveta que o escritor esconde a verdade, seus medos, manias, mistérios, ansiedades.
É lá que está um futuro prémio Nobel, um manifesto surrealista e uma apólice de seguro vencida.
,é uma verdadeira Torre de Babel, lá falam-se línguas secretas, criadas pelos astecas, onde as frases começam com vírgulas e terminam com dois pontos:
O escritor mente quando diz que não tem uma gaveta. Por melhor que seja, há sempre um conto incompleto, um artigo esquecido, um romance de fundo.
A gaveta do escritor é um túmulo.
Ali jazem segredos, personagens, mundos.
Se procurar com jeitinho vai encontrar um labirinto de Borges, um Pessoa obscuro.
Há canetas sem tinta, papelinhos, envelopes.
Há cigarros mofados, clips entortados, piratas torturados, miúdos reguilas, filósofos velhotes.
Há agendas repletas, fitas cassettes, fotos antigas.
Há pó, há lixo, há vestígios do crime, há aspirinas.
Mas se quer mesmo abrir a gaveta, faça com uma certa precaução.
Passe na Papelaria Fernandes, compre um fato de abrir gavetas ou de assaltar estantes, vá então a duas ou três igrejas distantes. Peça um padre para fazer uma extrema-unção.
Depois espere que o escritor saia para encontrar a sua musa ou para tomar uns copos ou para pedir esmolas.
Entre no seu quarto não de pé mas sim de cócoras, tomando cuidado para não partir os cornos nem rasgar a blusa.
Aí então atire-se sobre a mesa, respire fundo e abra a gaveta.
Leia sem grandes critérios o que está lá escrito, marimbe-se para a falta de unidade literária, com o maralhau de estilos.
Dê gargalhadas com o que vão dizer os críticos.
Depois pense em plantar um árvore e ter um filho.
Foi o que fiz. E virei um livro.

Tuesday, August 23, 2005

Suburbanos Corações (comentários)

Então é assim: essa pequena novela aqui publicada já tem barbas. Trata-se na verdade do primeiro texto de ficção que escrevi, tinha lá eu uns 16 anos, o que explica alguma coisa.

Na época, lia muito Nelson Rodrigues e Dalton Trevisan, dois autores malditos no Brasil. De um e de outro roubei o exagero e o ambiente perverso. Acho que escrevi da minha maneira, ainda mais que, adolescente, não tinha lá muita habilidade em copiar literalmente os outros.

Fora o que é delirante (quase tudo), o resto é verdade. O meu pai tinha uma padaria e realmente por lá passou uma balconista meio putinha e que seduzia com alguma frequencia os fregueses. Rômulo, o homem bom, é o reflexo de um tio já falecido e que caiu nas garras da tal balconista.

O texto original, bem próximo do actual, ficou anos numa gaveta, coisa que fazemos (graças à Deus) com os nossos textos imberbes. Mas, há cerca de dez anos, faltava-me um conto para completar o meu livro “A Balada do Yuppie Louco”. Lembrei então da coisa, reli e vi que não era assim tão mau (pelo menos em comparação aos outros textos que sou capaz de cometer ainda hoje). Daí que fiz alguns ligeiros cortes e adaptei a história, originalmente passada no subúrbio do Rio de Janeiro, para a periferia de Lisboa. Não fez lá grande diferença.

E essa foi a versão aqui publicada. Pela primeira vez, graças às novas tecnologias, na forma de um folhetim, que era a minha ideia original há 23 anos.

Ou como diria o meu Tio Olavo: “Os textos deste blog seguem uma regra: ou são bons ou são originais. O problema é que o que é original não é bom. E o que é bom não é original.”

Suburbanos Corações (Final)

Martha, pela última vez, pronuncia-se “Marfa”, agiu rapidamente, enquanto a vizinha dava um saltinho aos Olivais. Ícaro, de tão fraco, 28 dias sem comer, nem esboçou uma reacção. Ao contrario, delirante, parecia concordar com aquilo tudo, assumindo de vez a sua condição de anjo caído. Ficara ainda mais lindo magro e indefeso. Martha quase teve uma síncope quando o viu nu, desmaiado na casa de banho. Emocionada, meio mãe, meio amante, pregou Ícaro numa cruz. Depois enfiou-lhe na cabeça uma coroa de espinhos e ficou a ver embevecida os fios de sangue a escorrer-lhe pela testa.

Stella foi vista pela última vez a dançar rumba com um octagenário num baile suspeito na Casa do Alentejo. A vizinha, em vista dos acontecimentos, fundou a sua própria seita, ganhou imenso dinheiro e vive hoje num apartamento de três pisos nas Amoreiras. Martha, presa num manicómio, tornou-se numa espécie de pitonisa e está sempre a prever o fim do mundo para daqui a pouco.

E quanto a Ícaro, surpreendendo todas as expectativas, no terceiro dia não ressuscitou.

Fim.

Suburbanos Corações (4º Capítulo)

Naquela noite Rômulo encontrou a resposta que tanto perseguira. Virgínia finalmente não foi para casa quando saiu da paadaria. Seguiu para um terreno abandonado num sítio distante. Rômulo fez uma espera atrás de um poste, a fumar um SG Ventil atrás do outro. E viu chegar aquele homem maravilhoso, com um sorriso maravilhoso, um cabelo maravilhoso e uma cara de alegria. Virgínia, a santaputa, nunca tinha estado tão bela e tão lasciva. Irradiava toda a paixão que sentia. E então Rômulo sofreu como nunca: Virgínia abraçou o homem maravilhoso, beijou a face dele sete vezes, baixou a cuequinha e entregou-se. Rômulo viu quando a saia de Virgínia subiu até a cintura, quando os seus pés começaram a levitar, quando trincou os dentes na língua daquele homem maravilhoso e quando começou a ganir, a gemer, a emitir ruídos de prazer. Rômulo chorou uma única lágrima de felicidade. “Acabou”, pensou, “acabou”. Ele era um pária, um desgraçado, um corno apaixonado. E percebeu pela primeira vez que não era um homem bom. Que podia odiar; ter raiva, matar. Os seus olhos brilhavam no escuro. Era o ódio, era o amor, era o fim.

O fim foi rápido e quase indolor. O homem maravilhoso nada viu, nada sentiu pois estava a ter um orgasmo quando o Citroen 2 CV 1975 o esmagou contra o muro. Rômulo também teve uma morte instantânea. E Virgínia ficou literalmente dividida entre os seus dois amores: parte do seu corpo dilacerado misturou-se como numa almôndega à carne e ao sangue do homem maravilhoso. A outra parte, com o impacto do carro, voou, rodopiou no ar e desabou sobre o 2 CV. Ao rebentar no pára-brisa, os seus lábios cor de sangue foram decepados e exibiam agora um beijo escarlate na relva. Era belo. Era erótico. Era o ultimo momento de lasciva da santaputa. E nem a polícia conseguiu descobrir se a cor dos lábios que brilhavam vermelhos no chão era do seu sangue ou do seu baton.

Martha, pela última vez, pronuncia-se “Marfa”, agiu rapidamente… (continua)

Monday, August 22, 2005

Suburbanos Corações (3º Capítulo)

Rômulo, desconfiado, ciumento, obrigara Virgínia a pedir a demissão. Mas o dono da padaria recusava-se a dispensá-la. Ele também havia caído de amores pela santaputa. A cada pedido de demissão seguia uma oferta de aumento o que tornou Virgínia em pouco tempo numa espécie de princesinha da panificação. Não era muito, mas era bom. Melhor só o que aconteceu com Stella, a sortuda. Arranjou um velho mal cheiroso e rico e partir de viagem de amor rumo a Bora-Bora. Enquanto isso, Rômulo amargurava-se ao lado de Virgínia, a lasciva, que continuava a recursar-se a fornicar com ele. Era um capricho infantile, ela sabia, mas pelo menos com Rômulo ela seria prua, casta, virgem, Virgínia.

Ícaro andou estranho por uns dias. Não comia, não bebia, não dormia, padecia de uma doença desconhecida. Nem Martha, nem a vizinha sabiam que ele estava apaixonado. E, solitário em seu quarto, sofria. Até que numa tarde, delirando num pesadelo febril, repetiu três vezes o nome de Stella, Stella, Stella! Foi como se uma faca penetrasse nas entranhas de Martha. Naquele instante o que ainda lhe restava de lucidez, e acreditem não era muita, esgotou-se de vez. Agora era só uma questão de tempo. Em breve iria agir. Antes que fosse tarde demais. Antes que os Cavaleiros do Apocalipse rasgassem o Céu e transformassem o mar em sangue. Antes que a pesada mão de Deus desabasse implacavelmente sobre os pecadores. E, principalmente, antes que essa vaca chamada Stella aparecesse e estragasse tudo.

Rômulo passou a seguir Virgínia na esperança de descobrir-se traído e poder sofrer então todas as dores daquela paixão. Mas, estranhamente, Virgínia não o traía. Ia directa da padaria para a casa, da casa directa para a padaria. Não retribuía os olhares ambiguous dos fregueses, alias, de uma hora para outra ela havia deixado de ser lasciva. Foi aí que ele suspeitou que o pior estava por vir. A fidelidade de Virgínia era um sinal de que algo de muito errado estava a acontecer. Ele aceitaria tudo, tudo, tudo, menos aquilo. Menos aquela fidelidade sofrida. Virgínia, ele tinha a certeza, estava a amar, estava a purificar-se pelo amor. Apenas uma dúvida impedia-o de ir agora mesmo estrangular a rapariga. Seria ele o objecto desse amor? Não, não, isso seria demais, isso ele não suportaria.

Ícaro era bastardo e não sabia. Nem imaginava que a sua santa mãezinha gostava de prevaricar na sacristia. O falecido marido dela sabia. E por isso batia-lhe. Seu lema era “uma tareia por dia é uma dieta sadia”. Um dia, morreu, feliz da vida. Ia finalmente livrar-se da bruxa. Mas nem morto teve a paz mericida. Um mês depois a bandida apareceu no cemitério grávida e depositou flores no seu túmulo. Passados uns tempos apareceu com o filho ao colo. E ele nada podia fazer, nem mesmo dar-lhe uma tareia. Daí que passou a revirar-se no túmulo, a rogar pragas contra o filho bastardo. A última praga era de morte. E Ícaro não sabia. Desde que se apaixonara por Stella passara a visitar o cemitério. Olhava para a cova do suposto pai e chorava as suas mágoas. Até que um dia, uma voz misteriosa vindo do nada sussurrou-lhe um conselho ao ouvido: “Vá Ícaro, jejue durante trinta dias e trinta noites e o seu amor irá conquistar!” Ícaro, crédulo e parvo, foi então para casa e seguiu à risca o conselho do além. Não pensou na hipótese de morrer de inanição. Era crédulo, era parvo. Enquanto isso uma certa alma penada finalmente descansou em paz. A vingança come-se fria. Mesmo depois da vida.

Naquela noite, Rômulo encontrou a resposta que tanto perseguira… (continua).

Friday, August 12, 2005

Suburbanos Corações (2º Capítulo)

Rômulo nem percebeu que Martha de tudo sabia. Não importava. Nada importava. Nem o emprego na função pública, nem o travão avariado do Citroen 2 CV 1975, nem a mãe entrevada num hospital da Régua. Bastava fechar os olhos para ver Virgínia, a santaputa, a lasciva, maravilhosa como sempre, a embrulhar pães saloios no balcão da padaria. Foi quando Rômulo começou a passar os dias trancado na casa de banho, a fazer poesias que rimavam amor com dor. A barba cresceu rapidamente a tapar a erotica cicatriz de Scarface. Estranho: estava no seu rosto e no seu coração, mas ninguém suspeitou. Ele nunca fora um homem bom. A cicatriz era a marca da besta, uma cratera de maldade. E nem mesmo Virgínia desconfiou.

Martha não demorou a transformar-se. De rainha do lar passou a esposa ausente. Nada naquela casa era como antes. Debaixo de uma aparente ordem, os objectos, os sofás, os jarros de flores, as pequenas estatuetas, revoltavam-se, revolviam-se. Sofriam ao perceberem a futura tragédia e ao lembrarem-se dos poucos momentos de contentamente que tinham vivido com aquele casal. Não tiveram sorte na vida, não sabiam o que era uma família feliz, imaginavam crianças a correr pela casa, cães, gatos, papagaios, tudo menos aquele casal condenado à desgraça. Desgraça esta que seria também deles, objectos estáticos, objectos estúpidos. O primeiro a não resistir foi o galo de Barcelos que, num gesto tresloucado, se atirou de cima do fogão, espatifando-se em mil pedaços após um lindo salto mortal.

Virgínia pasou a morar com Stella. Dividiam o quarto, os sapatos, os homens e os vestidos. Eram felizes com aquela vida foleira, eram iguais. De início, Rômulo não gostou da proximidade entre as duas, prefiria que Virgínia fosse viver num quarto e sala na Baixa. Mas, quando Virgínia queria, tudo dele conseguia. E assim passaram-se os meses. E assim cresceu o amor dele por ela. E assim acabou o amor dela por ele. Se não fosse o dinheiro que ele dava para o aluguer; se não fosse ele ficar cada vez mais parecido com o pai que ela nunca teve; não fossem os mimos, os brincos, as flores que todos os dias ele trazia, com os olhos felizes, a boca tremula de excitação; se não fosse ela uma puta lasciva que precisava de alguém que fizesse poemas em sua homenagem a rimar amor com dor; se não fosse tudo isso, ela há muito que já o tinha abandonado e caído nos braços daquele homem maravilhoso que ela conhecera no karaoke das sextas e que costumava a cantar o “My Way” em falsete.

Martha já não saía da casa da vizinha. Virara crente de uma obscura seita dissedente da Igreja Universal Reino de Deus. Passava os dias com o crucifixo na mão, pronta a exorcizar qualquer pessoa que lhe aparecesse pela frente. A vizinha também era da seita e deixava Martha dormir na sua casa em troca de pequenos services. E nem percebia o real motivo de Martha querer ficar ali alojada: Ícaro, o filho bastardo, que desfilava em cuecas pela sala com o seu lindo corpo de surfista. Martha estremecia de alto a baixo cada vez que o via. Sentia calores percorrer o seu corpo, enquanto minhocas passeavam pela sua cabeça. Ícaro era lindo, era um anjo, era Deus. E Martha não podia mais viver sem ele. Não tinha mais marido, não tinha mais ninguém. Por Ícaro ela faria tudo. “Tudo”, repetia em pensamento, com uma estranha feição homicida.

(continua...)

Sunday, August 07, 2005

Suburbanos Corações (1º Capítulo)

Os seus olhos brilhavam no escuro. Faiscavam raivas enquanto os dentes remoíam velhos pesadelos. Rômulo era um homem bom, todos sabiam. Um homem bom, ele tinha a certeza. “Bombom”, como lhe dizia a santaputa ao enfiar a língua na sua orelha. Mas agora nada de bom vinha à sua cabeça. Os seus olhos brilhavam no escuro. Era o ódio. Era o fim.

O começo não for a belo. A lasciva de Virgínia impedia qualquer tipo de ilusão romântica. Aquilo era antes de tudo uma paixão suja, um amor roto, um desejo estúpido, impossível de resistir. Virgínia, a santaputa, nem era bonita, com os cabelos baços e uma falha, “Ah, aquela falha!”, nos dentes da frente.

Martha, pronunica-se “Marfa”, bem que desconfiou. E se antes nunca tivera motivos para suspeitar de Rômulo, começou a passar as noites em claro, a rolar na cama, a imaginar em delirio, enquanto se masturbava, com que tipo de putinha andava ele a se esfregar por aí. Não tinha coragem de interrogá-lo. Rômulo era um homem bom, todos diziam, não ficava bem à própria esposa acusá-lo de adúltero. E, no entanto, ele traía-o, ela sabia, ela tinha a certeza. Martha não era parva, apenas fanha.

A tia não tardou a expulsá-la de casa aos gritpo de “Prostituta!”. E, na verdade, Virgínia, a lasciva, sequer tinha dado para Rômulo. Para ele, não. Armava-se em casta. Rômulo fingia que acreditava. Todo o bairro já tinha fornicado com ela. Até miúdos de 12 anos frequentavam a sua cama, sempre nas horas em que a velha tia saía para visitar doentes desconhecidos em hospitais da periferia. Um dia, a tia chegou mais cedo, morrera o tuberculoso do Cacém, e apanhou Virgínia a beijar Rômulo, “onde já se viu, um homem casado!”, ali no meio da rua, no meio da chuva. Distribuiu guarda-chuvadas nas cabeças do casalinho immoral, sempre a gritar com a sua voz esguarniçada “Prostituta! Prostituta! Prostituta!”

Martha, pronuncia-se “Marfa”, eu já disse!, soube de tudo pela vizinha. Desesperada, fechou os olhos para não ouvir. Não adiantou. “E agora, o que será da minha vida?”, murmurou baixinho, com os olhos rasos d'água e uma imensa dor na bexiga. Nesse instante entrou na sala o filho bastardo da vizinha. Para Martha foi como uma visão. Era um anjo, era um santo, era a salvação. Um cheiro de cânfora invadiu o ar. Martha calou o seu choro. “Deus existe!” exclamou contrita enquanto mijava solenemente na alcatifa.

(continua...)

Thursday, August 04, 2005

umbigologia

O umbigo. Sim, o umbigo é um dos maiores mistérios da humanidade.

O que é que Deus queria dizer quando criou o umbigo? Ou melhor, eu sei qual foi a intenção Dele quando se tratou do umbigo da Claudia Schiffer. O que não percebo é qual é o significado do meu.

Há algo de metafórico e de metafísico no umbigo de toda a gente. E é uma pena que a cultura ocidental não dê o valor devido ao conhecimento profundo do umbigo.

Em vez deste ritual ridículo que é o apertar das mãos, as pessoas ao apresentarem-se deveriam mostrar o umbigo. Muitos equívocos seriam evitados com isso. Porque cada pessoa tem um umbigo absolutamente único, como tem uma única alma, um único carácter, um único jeito.

Na verdade, o ser humano só confia no outro depois de ver o umbigo. Aquela história de sexo é pura invenção. As pessoas despem-se é para ver o umbigo do parceiro. Depois de darem uma olhadela, e já que estão mesmo nuas, é que partem para a desgraça.

Tanto é assim que há quem faça de conta que não tem umbigo. Que esqueça do prazer que é mexer no próprio umbigo publicamente. De deixar-se ficar numa esplanada, a coçar alegremente o umbigo, enquanto bebe uma bica e lê o jornal .

O umbigo lembra ao homem que um dia ele esteve ligado verdadeiramente a alguém. Daí que todos nós vivamos à procura de refazer essa ligação. O umbigo é prova que somos seres solitários. É a marca incontornável de que somos eternamente incompletos, pedaços de alguma coisa maior que já não existe.

Para quem não sabe, a palavra religião, vem do latim religare, ou seja, voltar a ligar, sentir-se ligado outra vez. Assim como o ser humano deseja religar-se a uma força divina (supondo que um dia já fomos nós e Deus uma coisa só), no fundo o que queremos é refazer o nosso cordão umbilical com outra pessoa. Casamos para isso. Temos filhos para isso. Fazemos amizades para isso.

Ao longo da história, o homem tem-se debatido com a dificíl questão do que fazer com o umbigo enquanto conceito. Galileu e Copérnico, por exemplo, sofreram o diabo por se meterem com esta questão. Porque até então a Terra era o umbigo do universo. Um umbigo meio sujo, claro, mas sempre um umbigo.

Aliás, enquanto espécie, estamos sempre preocupados com o nosso próprio umbigo. Mas disfarçamos isso e fingimos interesse com o que se passa nos outros planetas. Mandamos sondas para o espaço à procura de vida inteligente só para ter a certeza de que não há mais nada, estamos aqui sozinhos, e, portanto, podemos deixar o planeta desarrumado à vontade, pois não irá haver visitas.

Mas tudo isto, claro, pode ser um exagero da minha parte.

Aliás, só estava a falar com o meu umbigo.

E, por acaso, ele está a fazer uma cara de quem não concorda lá muito comigo.