Sunday, July 31, 2005

o trabalho faz o homem

O próximo texto foi escrito há alguns anos, quando resolvi dar uma parada com o trabalho e partir para uma reforma antecipada (que durou quase três anos).

De lá para cá, muita coisa mudou. E, veja só, estou a trabalhar outra vez. Muito, para ser sincero.

Não estou a reclamar da vida. Estou a adorar ser útil outra vez. Mesmo que não seja a pesquisar a cura da SIDA ou a apagar incêndios. Adiante. O que importta é que estou a fazer mais do que simplesmente a fiscalizar o tempo.

Tempo. Não tenho tido muito tempo livre ultimamente. O que faz com que esse blog sofra de uma certa lentidão na actualização.

Não acho que seja uma coisa assim tão terrível. O mundo está cheio de blogs hiperactualizados com todos os tipos de bobagens. Este, pelo menos, não está a contribuir todos os dias para a poluição da blogosfera.

Bem. Achava que deveria dar uma satisfação a todos vocês três que costumam vir aqui. A ideia é continuar a publicar sempre que der. E, pelo menos, uma vez por semana. Até a coisa ficar mais tranquila, o melhor é ir lendo os textos antigos. Duvido que já os tenha lido todos.

Uma coisa eu garanto: são textos tão maus como o que vem a seguir:


"Workaholics"

Dizem que o principal problema dos alcoólicos é não admitir a sua condição enquanto doentes. De resto, é o que se passa com os viciados em geral. Mas, de todos, há uma espécie de vício ou compulsão que considero pior que as outras, até porque é sobrevalorizada pela sociedade ocidental. E o vício no trabalho.

Falo disso com conhecimento de causa. Passei boa parte da minha vida a trabalhar como um condenado e a achar que isso não só era normal como o melhor que poderia fazer da minha existência e o meu grande contributo para a humanidade.

A geração dos trinta e tantos corre como um todo esse risco. Fomos criados num ambiente cada vez mais consumista e competitivo, num mundo incrivelmente instável e sem valores filosóficos/sociais (ah, como era boa a vida dos hippies!). Aprendemos, principalmente os homens, que devemos batalhar pelo nosso espaço à conta de muita labuta, ganhando o croissant nosso de cada dia com muito sangue, suor e lágrimas.

Hoje vejo o quanto me enganei achando que estava a fazer a coisa certa. Não estava. Estava a jogar no trabalho a maior parte da energia que tinha (e era muita) para não ter que me preocupar com variadas outras coisas que, achava, poderiam ou deveriam ser adiadas.

O certo é que é facílimo cair nessa armadilha. Diferente do viciado em coca que gasta todo o dinheiro na droga e é expulso de casa, o viciado em trabalho, via de regra, faz cada vez mais dinheiro e tem casas cada vez maiores.

O viciado comum desgraça-se mais cedo ou mais tarde. O viciado em trabalho é quase sempre um símbolo de sucesso, um super homem a imitar ou, pelo menos, reverenciar. O viciado comum destrói a família. O viciado em trabalho ou não compõe uma família ou é o patrono de uma família extremamente disfuncional onde há um défice frequente de afectos.

A questão da família é interessante. Passei anos a justificar não ter arranjado esposa, filhos e papagaio por não ter tempo a perder, por estar a trabalhar. Mentira. Na verdade, nunca quis ter família alguma, só não sabia disso.

O viciado em trabalho mente para os outros com o mesmo à vontade que mente para si mesmo. No fundo, matava-me a trabalhar com a satisfação de (não) saber que estava a matar a minha própria pessoa (pessoa essa que não estava dentro dos meus altos padrões de exigência, muito menos nos dos meus pares).

Tudo isso funcionou até que um dia a máquina quase pifou. O que, de resto, é um típico fenómeno de quem chega a meia idade. O nosso corpo e, principalmente, a nossa mente já não correspondem ao esforço exigido.

Vemos a nossa volta uma quantidade imensa de folgados que parecem mais felizes do que nós. Estamos cheios de projectos, mas também de saco cheio de tudo o que fazemos. Muitos entram em depressão. Alguns simplesmente morrem de um ataque de coração. Outros refugiam se no álcool ou na coca. Poucos (esse, graças a Deus, é o meu caso) pedem para o mundo parar porque querem descer.

Pensa que é fácil? Não é. Se tem mulher e filhos, está mais ou menos tramado. Dependendo de quem são, pode ser que prefiram receber o valor da sua apólice de seguro de vida a ter um pai/marido doidão. Mas, claro, também pode ser que sejam eles a justa tábua de salvação, oferecendo apoio, carinho e compreensão.

No meu caso, na ausência dessa base familiar, tive um pouco das duas coisas. Houve quem não se conformasse com a minha decisão de viver a minha, abrindo espaço para a diversão. Esses sentiram-se traídos, como se tivessem sido enganados, na prática pouco se importando se, como era cada vez mais óbvio, eu não passasse de urn doente terminal com pouco tempo de vida. Nesse grupo também se integram os parasitas em geral, aqueles que vivem do seu esforço e que vêem a vida negra quando percebem que a sua principal fonte de recursos está prestes a secar.

Também houve o contrário, pessoas que ficaram felizes por me ver a acreditar que a vida era mais do que um índice maluco de produtividade.

Mas, mais importante do que isso, ainda havia eu mesmo, o que eu sentia, a minha opinião finalmente era importante e a que deveria dar prioridade em ouvir.

É aquela velha história: nós não somos o que fazemos. Somos qualquer outra coisa (mais interessante e mais bonita) do que os actos e os objectos que produzimos.

Se tem dúvidas se é viciado em trabalho, pode ter a certeza: você é. Nem precisa ir ao analista. Nem precisa fazer aqueles testes que aparecem em livros de gestão. E outra coisa: você é infeliz. Não adianta dizer que não. Não adianta se disser que não. Não vale nada a sua foto a sorrir na capa da revista. É fugaz o prazer que sente ao ser nomeado o homem do ano, da década, do século. É um absurdo acreditar que urn BMW zero quilómetros, equipado com uma boazona amante espanhola, vai resolver as suas ansiedades reais, os seus medos reais, a sua solidão para lá de real.

Se acha que ser viciado em trabalho é uma boa coisa, parabéns. Ou melhor, os meus pêsames. Prometo que se não der praia no dia do seu funeral, dou uma passada por lá. Se não se incomodar, vou levar um pessoal divertido, uma viola e muita cerveja para animar o lugar. E que velório de viciado em trabalho costuma ser muito chato. Quem morre de trabalhar tem sempre poucos amigos, uma família sem viço nem brilho e uma tendência para, mesmo morto, estar no caixão a se arrepender e a chorar.

Ou como diria o meu Tio Olavo: «Se o trabalho fosse essa maravilha que andam para aí a dizer, os nobres, os ricos e os politicos seriam os primeiros a querer ficar com ele»..

Monday, July 25, 2005

invençoes

A história do marketing é a história das invenções.

Estudar como as coisas eram inventadas antes do aparecimento dos departamentos de desenvolvimento de produtos é aprender a verdadeira missão do marketing, que é a de encontrar coisas que sejam úteis, boas, desejadas pelas pessoas.

Há 100, 150, 200 anos, estas coisas eram criadas, descobertas, projectadas por gente comum, idealista e não por engenheiros e cientistas.

E é isso que encontramos narrado no “Livro das Invenções” (Editora Cia. das Letras), do brasileiro Marcelo Duarte. O livro traz histórias curtas sobre coisas do dia-a-dia, mostrando de onde vieram e quem foram os seus inventores.

No “Livro das Invenções” podemos ler, por exemplo, a origem do leite em pó:

"Ao pensar numa maneira de facilitar o transporte e o armazenamento de leite, o americano Gail Borden teve a ideia de desidratá-lo. Quando a sua descoberta foi patenteada, em 1856, a invenção não despertou interesse, até que veio a guerra civil dos Estados Unidos, e Borden ficou rico."

Lá também encontramos a história da máquina de lavar louça:

"A americana Josephine Cochran levou dez anos para acabar com o seu sofrimento e o de tantas outras donas de casa. Ela inventou a máquina de lavar louça. Acontece que o marido da senhora Cochran não gostou nada da ideia e não lhe deu dinheiro para aperfeiçoar a sua invenção. Só depois que ele morreu é que Josephine conseguiu levantar o financiamento necessário para terminar o seu trabalho, em 1889. Ela construiu vários modelos, alguns para uso doméstico, outros para hotéis, sendo os maiores movidos por um motor a vapor. Os direitos foram adquiridos por uma fábrica de Chicago."

Outra história curiosa é a da toalha de papel:

"Ela foi um erro de fabricação dos irmãos Scott, inventores do papel higiénico.

Uma remessa da usina de papel estava defeituosa e o rolo matriz veio muito pesado e enrugado. Inadequado para papéis de casa de banho, o produto estava para voltar ao moinho quando um membro da família Scott sugeriu perfurar o papel grosso em folhas do tamanho das actuais toalhas de papel.

A tolha de papel descartável empacotada foi vendida inicialmente em 1907 para hotéis, restaurantes e estações de comboio. Havia certa resistência económica às toalhas de papel por parte das donas de casa: por que pagar por uma toalha que vai ser usada só uma vez, enquanto uma toalha de pano pode ser lavada e reutilizada muitas vezes? Como o preço das toalhas de papel foi caindo, as donas de casa começaram a gostar da ideia."

Há dezenas de outros casos como este. E o mais impressionante é que via de regra o que provocou o aparecimento da maioria das coisas que conhecemos hoje foi o acidente, o inesperado, o tiro que saiu pela culatra, o não planeado.

Mas nem só de boas coisas vive o mundo. Também encontramos no Livro das Invenções o outro lado da moeda, ou seja, inventos malucos que fracassaram por não servirem para nada.

Foi o caso da retrete para carro:

"Em 1972, o americano Cliff Conway ficou preso num congestionamento e começou a imaginar uma maneira de aliviar a sua bexiga. Depois de 13 anos e 25 mil dólares, ele lançou o Car Toilet. A urina entra por um funil que, por meio de um tubo, vai até uma bolsa fechada a vácuo."

Outro invento de igual estirpe é a cueca à prova de bala:

"Desenvolvida pelo Instituto de Pesquisa de Aço de Moscovo calções de nylon recebem sete placas de aço, que pesam quase dez quilos. Elas protegem a parte de baixo do estômago e as coxas. Podem desviar a bala de uma pistola disparada a apenas cinco metros."

Ou seja, de inventor e de louco todos nós temos um pouco.

Ou como diria o meu Tio Olavo: "Numa sociedade em que as pessoas têm quase tudo o que querem sexualmente, é muito difícil motivá-las a perder tempo a inventar frigoríficos."

silly season

Já na faculdade, aprendi que o facto e a notícia não são sinónimos, nem sempre andam juntos e às vezes recusam-se até mesmo a jantar na mesma mesa.

Às vezes as notícias são muito mais interessantes que os factos. Às vezes as notícias são tão confiáveis como uma freira contrabandista de uísque. E às vezes os factos e as notícias, esses eternos desafectos, fazem as pazes e vão juntos de férias, deixando jornalistas e cronistas com a batata quente de escrever a partir do nada.

Você já deve ter ouvido falar da chamada silly season, período nefasto que acontece regularmente no Verão, onde até atropelamento de papagaio vira manchete. Ao longo dos anos fui coleccionando algumas notícias típicas das silly seasons. São histórias reais que nunca teriam espaço nos jornais não fossem ter ocorrido em épocas de absoluta falta de assunto.

Uma delas aconteceu há alguns anos. Li-a num jornal respeitável (logo não tenho que duvidar da sua veracidade) e vou tentar descrevê-la com rigor.

Um casal decidiu passar a sua lua-de-mel numa longa viagem de transatlântico. Eram jovens e românticos, haviam sonhado com longos beijos ao entardecer, a ouvir o ruídos das ondas e a atirar migalhas de pão aos golfinhos.

Estavam tão embevecidos com o projecto e tão, como direi, empenhados em conhecerem-se biblicamente no conforto da sua caríssima cabina, que entraram navio adentro sem nem olhar para o lado.

Passaram um dia dentro do quarto, provavelmente a jogar cartas ou à trívia, essas coisas singelas que os casalinhos costumam fazer durante as núpcias. O barco já estava em alto mar quando finalmente resolveram dar o ar da sua graça e fazer um passeio pelo deck. Foi então que descobriram um pequeno detalhe.

O navio havia sido alugado pela associação gay “Simpatia é Quase Amor”. E por isso, fora o casal, todos os outros 200 passageiros eram gays. E gays alegres a sério, daqueles que decidiram aproveitar o facto de estarem longe da nossa sociedade repressora para colocar as asas (e não só) de fora.

No bar do navio, em vez de um pianista a tocar o tema de Casablanca, o que havia era um concurso da melhor imitação da Diana Ross. A piscina estava invadida por dezenas de matulões trajados apenas de fio dental a darem gritinhos histéricos cada vez que caíam na água. A quantidade de travestis no deck era tão grande que o recinto havia recebido a simpática alcunha de silycon Valley.

O casal fechou-se na cabina.

- Meu Deus, parece que estamos num baile de Carnaval na casa do Elton John. Viste aquele bigodudo vestido de oncinha? Foi impressão minha ou ele mandou-te um beijo, João?

- Não vi nada, Ana. Estás a ficar maluca. Já disse para te deixares de coisas e relaxar. Bolas, é a nossa lua-de-mel.

- Relaxar? Como é que eu vou relaxar? Três tipos vieram perguntar-me aonde é que fiz o tratamento, pois os meus seios pareciam quase de verdade. Quase de verdade?! E aquele clone da Barbra Streisand que puxou o meu cabelo para ver se era peruca! João, a culpa é tua.

- Minha?! Mas a viagem foi presente do teu padrinho. Além do mais eu queria ter ido de avião para Miami. Mas vieste tu com aquela história de que não era romântico, que querias uma viagem inesquecível, pois bem, conseguiste.

- Tu deverias ter percebido o que se passava assim que chegámos.

- Se não tivesses exigido que eu subisse as escadas do navio contigo ao colo, talvez tivesse reparado nalguma coisa. Ana, estou com dor nas costas até agora. Eram mais de 40 degraus e tu não és exactamente um passarinho.

- Estás a chamar-me gorda?! Só faltava esta. Vou já para a casa da minha mãe.

- Ana, estamos no meio do Atlantico. Como é que vais para a casa da tua mãe? A nado?

- O navio deve ter um daqueles barquinhos de salvamento que a gente vê nos filmes. Vou remando e pronto.

- Com o teu peso o barquinho ainda afunda.

- Cafajeste!

- Gorda!

Ana acabou por desistir do plano de remar de volta para casa ("Aindo dou cabo das minhas unhas!") Quando a fome apertou acabaram por ter de sair da cabina e ir ao restaurante.

- João, estou com medo. Acho que já repararam que eu sou mulher. Estás a ver aqueles cinco tipos ali vestidos de cabedal e correntes de metal? Não param de cochichar e olhar para a nossa mesa. Devem estar a planear atirar-me ao mar.

- Ana, cala-te e come ou sou eu que ainda te atiro ao mar.

- Se continuares a tratar-me assim eu vou falar com o capitão do navio e pedir o divórcio.

- O que é que o capitão tem a ver com isto.

- Ele não é a autoridade máxima do navio? Deve ter o poder de declarar o nosso divórcio.

- Acho meio dificil. Além do mais, se reparares bem, o capitão é um dos rapazes vestidos de cabedal e correntes daquela mesa.

Ana saiu a correr e a chorar. Trancou o João fora do quarto e o pobre teve de dormir os três dias seguintes debaixo de uma mesa do bar. Nunca mais se viram. Segundo consta, Ana processou a agência de viagens pela ruína do seu casamento e graves danos emocionais. Perdeu. O juiz, um senhor respeitável no dia-a-dia, era nas horas vagas o presidente da “Simpatia é Quase Amor”.

João foi viver para Miami. E, segundo consta, a última vez que foi visto estava a passear de mãos dadas com um bigodudo vestido de oncinha.

Acredite, tudo isso é verdade. Ou melhor, quase.

Ou como diria o meu Tio Olavo: "Mais vale uma boa história na mão do que dois factos a voar."

Sunday, July 10, 2005

achismos de verão

em vez de estar aqui com o nariz enfiado no computador, o que você deveria era estar na praia.

se calhar você é um dos meus três ou quatro leitores que moram no Brasil. aí a coisa até se explica, mas não se justifica. há sempre um cineminha para se ir ou um cobertor de orelha para se agradar.

porém, aqui na Tugalândia, quanto mais Julho avança menos neurónios resistem à vontade de descansar. não vou maçá-lo com grandes raciocínios (de resto, os meus raciocínios nunca foram grandes).

prefiro dar espaço para o meu Tio Olavo, que enviou-me uma catadupa de achismos que têm a intenção de distrair a sua atenção neste início de Verão. por exemplo:

"eu acho que nada vem do nada"

"eu acho que ela herdou essa beleza natural do pai, ele é cirurgião plástico."

"eu acho que os tempos mudaram. hoje em dia, há muitos príncipes encantados que andam por aí atrás de outros príncipes encantados"

"eu acho que certas mulheres gostam tanto, tanto dos seus maridos que, para não gastá-los, usam os das suas amigas."

"eu acho que quero um homem que seja gentil e compreensivo. será que é pedir de mais de um milionário?"

"eu acho que nunca se deve confiar numa mulher que diz a sua verdadeira idade. se ela diz isso, é capaz de dizer qualquer coisa."

"eu acho que uma mulher inteligente é aquela que sabe como recusar um beijo sem se privar dele."

"eu acho que no dia em que me conhecer de verdade vou sair correndo."

"eu acho que a fé move montanhas. mas não se esqueça de ficar empurrando enquanto reza.”

"eu acho que quero viver até à minha morte."

"eu acho que não se deve emprestar nem livros nem mulheres aos amigos. os livros nunca são devolvidos. as mulheres sempre."

nem Freud explica

Laura olha pela janela do comboio e pergunta-me o que há para além do rio. Respondo convicto: «O resto do país». E rio-me por dentro com a minha piada de gosto duvidoso. Laura não ri da piada. Aliás, Laura não ri nunca. Faz parte do seu show manter um eterno ar enigmático, como se estivesse sempre a acabar de ouvir uma grande verdade metafísica. Era esse inclusive um dos seus grandes problemas: ela levava-se muito a sério e, consequentemente, a todos que conhecia.

Ainda me lembro da noite em que derrubei uma banana flambada acesa no seu vestido verde musgo em meio ao copo d’água de um casamento de um casal razoavelmente desconhecido. Por algum motivo, Laura não só não achou graça na coisa como ainda ficou uns dias sem falar comigo. 863 dias para ser mais exacto.

Falta pouco para chegarmos a Lisboa. Laura tem o semblante carregado, pergunta-se o que deu errado. Se pelo menos ela verbalizasse a questão, eu poderia responder: «Nada, nada, nada». Ou «tudo, tudo, tudo» (a verdade, às vezes, depende do freguês).

Encontramo-nos a primeira vez há muitos anos. Laura, por aquela altura, lembrava muito a jovem Nastassja Kinsky. Hoje em dia, é difícil saber. Há uma década que não vejo uma foto actualizada da bela Nastassja. Se calhar Laura agora se parece com uma tia distante daquela actriz. Mas, sim, ainda é bonita.

Laura não casou nem teve filhos, atrapalhada que estava com os homens e com a vida (não necessariamente nessa ordem). Houve um tempo em que acreditou que estava apaixonada por mim, mas era um equívoco (eu, não a paixão). Mas isso era coisa do passado. Como quase todos os equívocos eram agora coisas do passado.

Com quase quarenta anos, Laura já não tinha tempo, nem libido, para se equivocar com os homens. Laura agora tinha certezas: nenhum gajo presta, todas as mulheres são vítimas e o homem nunca pisou na Lua.

Laura espeta-me com um olhar de reprovação. Pensa no tempo que perdeu comigo e tem vontade de bater-me. Eu penso no tempo que perdi comigo e concluo que mereço apanhar até cair e me afogar numa poça do meu próprio sangue.

Eu tenho esse problema com as mulheres. Sempre acho que a culpa é minha. Mesmo que, na maior parte das vezes, apenas tenha reagido ao facto delas terem decidido ficar comigo.

Entreguei-me sempre fácil e docilmente para só algum tempo depois pedir o meu corpo de volta, alegando que precisava dele para trabalhar e fazer outras coisas (e olha que o corpo nem é lá grande coisa, embora já tenha acabado de pagar o leasing). Elas porém, sem nenhuma excepção, sentiram-se sempre traídas e abandonadas por um pulha. Não é bem assim.

O caso da Laura, por exemplo. O sonho dela era casar com um fulano igual ao Fernando (que é casado com a Lígia, nossa amiga comum). Ela queria alguém tão atencioso quanto o Fernando; tão educado quanto o Fernando; tão simpático quanto o Fernando; tão Fernando quanto o Fernando. O problema é que eu não sou o Fernando (fora o próprio Fernando, ninguém é). Levei vários meses e muito verbo para convencer Laura disso. Até hoje ela acha que foi má vontade minha, que com um pouco de esforço eu chegava lá. Não chegava. Até porque não queria realmente ir a lado algum.

«O que as mulheres querem?», perguntava-se Freud, entre uma e outra dose de ópio. As mulheres querem formatar os seus homens. Mas a vida não é bem assim. Ou elas apanham os tipos na mais tenra idade, quando ainda são meio bananas, ou podem esquecer da tarefa.

Depois dos trinta-e-meios os homens congelam o carácter. No máximo, pioram-no (melhorar, nem pensar). Daí que dificilmente um solteirão de trinta-e-tantos, daqueles que nunca deram o nó na vida (que nem mesmo dividiram o apartamento tempo o suficiente com uma rapariga a ponto dela pendurar as suas cuequinhas para secar na torneira do duche) traia a classe e pare numa igreja ou notário para contrair o sagrado matrimónio.

É, amiga, é triste mas é verdade: os trintões solteirões são a raça mais difícil de laçar (mais que um rinoceronte embebido em Red Bull). Eles têm autonomia financeira, a vida encaminhada, têm manias domésticas, hábitos imutáveis e se já não se reproduziram, não pensam mais no assunto. Tentar repaginar um trintão é o mesmo que tentar tapar o buraco da parede de uma represa com o dedo. Mais cedo ou mais tarde a coisa estoira e você vai na enxurrada.

Laura ouve tudo isso e mal consegue controlar a sua ira. Machista é o melhor elogio que me faz. Não sei se já percebeu, mas em matéria de homens as mulheres são meio autistas. Se somos sinceros, não nos ouvem e ameaçam fuzilar-nos. Se mentimos, mais cedo ou mais tarde descobrem e fuzilam-nos a mesma.

Para minha sorte, o comboio chega na estação. Laura levanta-se cinematograficamente e prepara-se par ir embora. Mas antes pergunta-me o que haveria para além daquela despedida. Respondo convicto: «O resto das nossas vidas».

Laura, mais uma vez, não ri de uma piada minha.

Sunday, July 03, 2005

Teresinha

No início era apenas uma crise de meia idade, daquelas que não parecem que vão ter grandes consequências.

João estava farto daquilo tudo. Do pessoal do escritório, dos vizinhos, dos parentes, da ex-mulher, enfim, de todos. Levara, durante trinta e cinco anos, uma vida pacata e com altos índices morais e cívicos.

Não fumava, não bebia, nunca tinha entrado num casino, nem feito coisas um bocadinho menos banais como praticar sexo tântrico num trapézio com uma anã albina lambuzada em mousse de chocolate Boca Doce. O gesto menos próprio que uma vez cometera foi ter tirado toda a roupa e mostrado a pila para o padre durante um baptizado. Mas nessa época, tinha três anos e ninguém se assustou.

João estava farto. De tantas coisas que não sabia mais bem do quê. Daí que ter entrado naquele estúdio de tatuagens não tivesse sido um acto baseado em grandes reflexões. Na verdade, ele tinha ido ao Bairro Alto apenas para visitar uma tia velha e carcomida. Não saíra de casa a pensar em fazer nada que mudasse a sua insípida existência. Mas agora estava ali a tatuar o nome «Teresinha» no braço esquerdo e de uma maneira bem visível.

João não conhecia nenhuma Teresinha. Mais: não conhecia nenhuma mulher que pudesse tratar no diminutivo. Nem mesmo a ex-esposa algum dia fora alvo de tal intimidade. Enquanto o casamento durou, raros foram os risos e parcos os prazeres. Leonor (esse era o nome dela) era uma mulher hirta, com hábitos espartanos, uma voz gélida e uma estranha atracção por fotografias de pés a preto e branco.

Ao chegar no escritório, Drº Palhares, o seu chefe, foi o primeiro a reparar. Teve intenções de chamar João ao gabinete e exigir explicações. Aquela era uma empresa séria, tradicional, fundada nos bons tempos de Salazar, quando o mundo ainda era decente e fazia algum sentido.

Mas, em vez disso, Drº Palhares trancou-se na sua sala e começou a chorar baixinho. Fagundes, o director de recursos humanos, mal viu a tatuagem do João, percebeu que algo de terrível estava prestes a acontecer, que aquele era o último dia de uma era tranquila, rotineira e profundamente aborrecida.

Ninguém falou nada, ninguém pensou sequer em tocar no assunto. Mas, passadas algumas semanas, todos no escritório exibiam vistosas tatuagens.

O Manel da expedição trazia no braço uma «Marta» em vermelho. O Meirelhes da contabilidade desfilava uma suspeita «Daniela» no pescoço. Até mesmo a dona Mercedes, conhecida na empresa por vender bolos para ajudar nas obras da igreja, apareceu com um garboso «Jucão» no pulso esquerdo. Razão de alguns constragimentos, tendo em vista tratar-se do mesmo «Jucão» que o Drº Palhares mandara gravar no peito.

Com a família não foi muito diferente. O pai do João, um general reformado, desaprovou publicamente a tatuagem mas intimamente recordou com extrema felicidade uma certa Teresa que havia conhecido nos anos 70, numa ida para vistoriar as tropas do Elefante Branco.

A mãe recolheu-se ao silêncio, mas começou a tricotar umas roupinhas já a pensar nos futuros netos. O irmão mais velho abraçou o João longamente e foi-se embora emocionado, não sem antes exclamar várias vezes: “Meu grande garanhão!”

João estava sozinho em casa a ver «Os Malucos do Riso» quando a campainha tocou. Abriu a porta e surpreendeu-se a ver que era Leonor. Desde a separação, há já quatro anos, nunca mais tinha posto os olhos nela.

Nas últimas vezes que se encontraram, Leonor fizera questão de extravasar o que sentia por ele, deixando de o tratar pelo nome e chamando-o às vezes de palhaço, outras de pateta e, o mais comum, de palerma (Leonor sempre tivera uma fixação por ofensas começadas pela letra «p»).

Agora ela estava ali, no meio da sala, vestida com um longo casaco de vison vermelho que, sem dizer uma palavra, fez questão de despir, revelando o seu hirto corpo nu. Ainda muda, Leonor arrancou com a boca o pijama do João. Lambeu-lhe os pés com sofreguidão antes de atirá-lo contra a parede e iniciar uma sessão de sexo que durou algumas horas e centenas de páginas do Kama Sutra. Depois deitaram-se exaustos no tapete da sala e fumaram uns cigarros.

- A vaca.
- O que, Leonor?
- A vaca. Quero que termines tudo com ela senão ainda cometo uma loucura.
- Mas que vaca, Leonor?
- Não te faças de desentendido, meu grande pulha. Já contratei dois brasileiros. Ou a Teresinha sai do país em dois dias com as próprias pernas ou terá de fazer isso em cadeiras de rodas.

Então Leonor agarrou o João pelo pescoço, algemou-o e começou a chicotea-lo enquanto gritava:

- Fala a verdade. Eu sou muito mais mulher do que ela, não sou?

João ainda pensou argumentar, mas aproveitou-se de que Leonor o tinha amordaçado para apenas assentir com a cabeça várias vezes.