Monday, June 27, 2005

o homem quieto

Era quieto. Ficara assim há tanto tempo que já ninguém lembrava da sua voz. Não que fosse mudo, o que de resto nem seria um desígnio assim tão atroz, mas não falava, só pensava e, por pensar, era diferente de nós.

Olhava o mundo como um voyer olha por uma janela. Com um interesse absurdo, uma reverencia completa até pelas coisas mais singelas. Como era quieto não incomodava, não era actor, era cenário. O seu silêncio era uma gaiola, ele, velho canário.

Talvez tenha sido exactamente isso: o seu silêncio. Provavelmente, já que não era bonito. O certo é que a mulher que falava pelos cotovelos apaixonara-se de súbito por ele. Aquilo foi uma grande surpresa, tendo em vista que ela era uma celebridade, dessas de cama e mesa. Numa época em que ninguém mantinha a boca fechada, ela contribuía com a fantochada com os seus cotovelos poliglotas, capazes de recitar poemas inteiros em cinco línguas vivas e sete mortas.

O romance era estranho. Ele quieto, ela inquieta. As diferenças de personalidades eram de tal tamanho que nem um louco acharia suposto que aquilo pudesse dar certo. Mas, como o destino é esperto, o namoro prosseguiu até o fim, culminando num casamento ao som de uma canção da Adriana Partimpim.

O pior foi depois, quando os cotovelos dela calaram. Foi assim de uma hora para outra, sem aviso prévio, sem nem um recado. Com os cotovelos mudos, ela rendeu-se a um triste recato. Perdeu o seu programa de TV, deixou de poder gravar CDs, e o pior, vejam vocês, começou a se drogar e a beber.

Tal situação só gerou mais barulho. A comunicação social não largava o casal, o que era normal, exigindo uma declaração qualquer. Mas ela, com os cotovelos calados não podia falar. E ele, por não estar habituado, não sabia como defender a mulher.

Foi aí, numa conferência de imprensa, que aconteceu o impensável. Pressionado pelos jornalistas, ele finalmente tomou uma atitude e exigiu silêncio. Primeiro ficaram todos em suspenso. “Silêncio?”, o que era aquilo? Os mais velhos ainda se lembravam vagamente da coisa. Claro está que o debate foi intenso. Todos falavam ao mesmo tempo e ninguém ouvia ninguém.

O ruído foi tanto que quebrou a barreira do som. E isso é que foi bom, o estrondo ecoou por todo o planeta, como um trovão enviado pela grande besta. O resultado é que ficaram todos surdos, com os tímpanos estoirados. Menos o nosso rapaz, que do alto do seu silêncio doirado, sobreviveu ao desastre, talvez por não passar a vida a ouvir e a dizer disparates.

Com todos surdos, logo também ficaram mudos. Sem comunicação, não tardou a começar o declínio de toda a civilização. Passadas algumas gerações, estavam como primatas. Regrediram ao macaco e até mais além. Fora os decendentes do homem quieto. Estes como aprenderam a ouvir, aprederam a falar também.

Reunidos numa tribo onde primava o bom senso, onde só era dito o essencial, passaram uns para os outros todos os conhecimentos. Só é pena que trouxessem nos genes a herança materna. Cedo ou tarde a história se repetiria, pois nenhuma coisa boa é eterna.

Mas isso ainda demora, e como brincadeira tem hora, só falta a moral dessa história que fala de um homem tão quieto e sábio como um touro: “acreditem, amigos, o silêncio é de ouro.”

Wednesday, June 22, 2005

sem coração

não tinha coração. nasceu sem. não que isso fosse um problema, uma crise no sistema, uma questão por aí além.

não tinha coração. e isso era até uma vantagem, sublime malandragem, tendo em vista que, quem tem coração, costuma ser bobo. e ele, que não era nenhum menino de coro, nasceu para se dar bem.

como não tinha coração, também não tinha sangue, como as santas, as baratas e as vamps. mas tinha um propósito na vida, seria o dono do mundo, ou não se chamaria Raimundo, o que, além de uma rima, era uma solução.

viveu sem escrúpulos, roubou doces aos miúdos, vendeu a mãe várias vezes, mas nunca entregou. seguia à risca o seu plano selvagem, para tudo tinha coragem, até que um dia, daqueles normais em que apetece dar banho ao cão ou visitar a tia, Raimundo encontrou Maria Rita (ou Rita Maria, nunca soube ao certo), doce menina dos olhos verdes e sorriso aberto.

Rita Maria (ou Maria Rita) tinha ido à cidade fazer uma promessa, pois sofria de uma terrível mazela: amava ao próximo como a si mesma. o problema é que o próximo era sempre o que estava mais perto, fosse branco, preto ou amarelo, sem nenhuma descriminação de idade, sexo ou credo.

Maria Rita, com tanto amor para dar, recebia muito pouco. sofria com aquele amor sem morada, sem nome, sem nexo, sem cara. daí ter feito uma promessa tão rara: se pudesse não amar um homem, fosse ele um politico, um mendigo ou artista, subiria o Everest de joelhos.

Raimundo, reparou em Rita Maria a fazer a promessa na igreja e apaixonou-se à primeira vista. para quem não tinha coração, aquilo era muito, um despautério, um absurdo. daí que Raimundo sentiu uma dor no peito. era um coração que ali nascia meio sem jeito e quanto mais ele mirava Maria Rita mais o órgão crescia, crescia, crescia.

Rita Maria, afinal, deu pelo Raimundo, o outrora dono do mundo, mas agora um simples mortal. como por um milagre, não se apaixonou. pelo contrário, sentiu escárnio, viu em Raimundo um pobre, um lixo, um chulo.

Raimundo, apaixonado, perdeu o rumo, perdeu o chão, perdeu tudo. passou a andar pelas ruas como um cão, a beber, a fazer poesias concretas em mau francês, típicas de um ébrio esteta que amava pela primeira vez.

Maria Rita sabia daquele amor impossível e ria-se do amante falhado, sem eira nem beira, vestido de trapos, que fazia vénias quando ela passava em direcção da padaria, da farmácia ou da missa.

em pouco tempo, o coração de Raimundo já estava do tamanho de uma bomba, daquelas de cartoon, tipo assim redonda, com um pavio aceso na ponta, prestes a rebentar. Rita Maria não só sabia da triste história como ainda alimentava a paródia, fazia olhinhos sempre que o encontrava, mas depois travava qualquer investida.

várias foram as vezes em que a sacripanta entrou na tasca para tripudiar do cretino, que chorava aos seus pés como um Deus menino, enquanto ela, indiferente, bebia uma Fanta.

depois de uns tempos e de uns ventos de monção, Raimundo não aguentou e a bomba do seu coração estoirou, voando pedaços de paixão para todos os lados, emporcalhando jardins, muros, telhados.

Raimundo morreu num instante, desprezado enquanto amante, mas misteriosamente feliz. como todos os apaixonados, mesmo os renegados, Raimundo teve, por um triz, a sorte madrasta de saber para que servia era um coração de verdade. e Maria Rita, na sua sublime maldade, aquela que amava a todos menos um, decidiu, um bocado na pressa, pagar sua promessa, rumando para o Nepal.

mal lá chegou, apaixonou-se por um monge budista, chamado Ming, meio santo, meio autista, que, diziam as más línguas, era um ex-amante do Sting.

o monge, com um certo azedume, desprezou solenemente a donzela. que morreu como uma cadela, congelada de joelhos bem pertinho do cume.

o monge, não sem uma suspeita alegria, no lugar onde Rita Maria jazia, tentou sem sucesso plantar um arvoredo. de Raimundo, o que queria ser dono do mundo, ninguém guardou memória. e essa é a moral da história: quem tem coração, tem medo.

Saturday, June 18, 2005

cabeça

Miguel não tinha mesmo jeito. ele era um despistado.

sempre foi. esquecia coisas nos sítios, trocava os nomes das pessoas, apanhava autocarros errados. no dia do casamento entrou numa igreja que não era a sua. já estava a caminho do altar quando reparou que aquela rapariga de branco que lá estava era um bocado diferente da Laurinha, a sua noiva. a Laurinha era morena e aquela era loira. “ou será que a Laurinha é loira e eu nunca reparei?”, pensou. na dúvida, quase casou com aquela mesma.

mas um dia o Miguel exagerou. perdeu a cabeça. em todos os sentidos. a princípio ninguém notou. era tão despistado que mais cabeça, menos cabeça não fazia lá grande diferença. o primeiro a dar pelo facto foi o seu chefe. chamou-o à sua sala.

- Miguel, Miguel... que se passa contigo? estive a reparar que andas com a cabeça perdida.
- como assim, drº Sousa?
- Miguel, não tenta disfarçar. há dias que estás sem cabeça para o trabalho.
- oh! meu Deus! o doutor tem razão! onde será que está a minha cabeça?
- eu é que sei? ah, Miguel! não tens mesmo jeito...

o problema é que Miguel não sabia onde estava com a cabeca. procurou-a por todo o escritório, mas nada. tentava recordar-se onde a havia visto pela última vez. na quarta-feira, sim tinha sido na quarta pela manhã. tinha feito a barba e lembrava-se perfeitamente de ter visto a sua cara no espelho. e, se havia cara, havia cabeça. mas depois disto, tudo ficava um pouco confuso. foi para casa.

- Laurinha!
- o que foi, Miguel?
- viste a minha cabeça por aí?
- a tua cabeça?
- é devo a ter deixado por aí e agora não encontro.
- já olhaste no quarto das crianças? se calhar apanharam a tua cabeça para brincar e deixaram na lá naquela confusão. ou a Dona Rosa, anteontem, quando fez a limpeza, a deitou fora.
- será? a Dona Rosa não ia fazer isso. afinal era uma cabeça. a minha cabeça. ela não ia deitar fora uma coisa que tinha utilidade?
- utilidade? a tua cabeça? ah, Miguel, não tens mesmo jeito...

Laurinha deu de ombros e foi fazer o jantar. na verdade, até achou que ele ficava melhor assim. pelo menos não tinha mais que beijá-lo todas as manhãs e arranhar o rosto com aquela barba malfeita. mas o Miguel não se conformava. aquilo era mesmo uma dor de cabeça. ou não? “dor de cabeça sem cabeça?”, Miguel já não sabia o que pensar. o Dr. Sousa acabou por concordar que desde que o Miguel cumprisse os horários e fosse simpático com os clientes, tanto lhe fazia. o Dr. Sousa achava-se um homem moderno, sem preconceitos. não ia mandar embora um funcionário tão antigo só porque ele havia perdido a cabeça.

o tempo foi passando. até que noutro dia o Miguel estava a remexer num armário à procura do BI, “aonde foi o que o meti?”, e encontrou a cabeça atrás de uma pilha de cuecas. a Dona Rosa jurou que não foi ela, mas aquela também era um pouco despistada. bom, mas o importante é que a cabeça estava lá. um bocadinho arranhada e a faltar uns dentes, mas ainda assim era uma boa cabeça.

Miguel jurou que a partir daí iria tomar um pouco mais de cuidado com as suas coisas. Laurinha deu de ombros e foi fazer o almoço. o problema é que a cabeça já não encaixava mais no pescoço do Miguel. causava incómodos, pendia para o lado, às vezes saltava para fora e caía no chão. quando isso acontecia no cinema era uma chatice. toca a procurar a cabeça e a estorvar as pessoas. até que há duas semanas o Miguel pôs a cabeça ao contrário e sentiu-se confortável.

deixou-a assim. Laurinha, como sempre achou natural, deu de ombros e foi fazer o pequeno almoço. mas nada mais foi o mesmo. Miguel passou a chegar em casa mais tarde, passou a beber, atendia telefonemas misteriosos de madrugada. Laurinha desconfiou que algo estava errado. ontem, ela teve a certeza. foi guardar o casaco do Miguel e encontrou um longo fio de cabelo louro. e ela, afinal, era morena. desesperou-se. fez as malas, apanhou as crianças e foi chorar para a casa da mãe.

- o que foi, minha filha?
- uma desgraça, mãe, uma desgraça! eu descobri, eu tenho a certeza! oh, meu Deus, como eu fui cega! o Miguel está de cabeça virada!
- sim, filha, eu já vi, e daí?
- o Miguel está de cabeça virada por outra mulher!

Tuesday, June 14, 2005

o novo homem

quando acordou, ele não se sentia um homem novo, ele era um novo homem.

literalmente.

é verdade que todos os homens são iguais, mas aquele, por destino, magia ou milagre, ficara diferente. não tinha mais os defeitos banais da raça, nem tão pouco as suas reduzidas qualidades, sequer era gente como a gente.

não era um homem de trazer por casa, nem um daqueles que as mulheres do interior mandam comprar na cidade. ele era distinto por dentro e por fora. emanava plena felicidade, mas como brincadeira tem hora, o novo homem, que já não era nenhum menino, exigia respeito e atenção. logo, logo, para passar a sua mensagem, apareceu na televisão.

surpreendendo todos, o novo homem não queria poder, dinheiro ou ouro. não queria ser rei, presidente, nem papa tão pouco. ele dizia que não queria nada. e, como é óbvio, ninguém acreditava.

por mais que, por detrás dos seus três lindos olhos, só existisse sinceridade, o mundo só via maldade, pois o mundo é sempre torpe e vesgo, o mundo só reconhece aquilo que vê no espelho. o novo homem virou então uma moda sem igual. e ele que era um ingénuo nem percebeu como estava a ser usado, nem mesmo quando a sua imagem apareceu numa embalagem de cereal.

a Madonna fez uma música em sua homenagem, que resultou num clip onde ela fazia sexo com quatro gaivotas, três doninhas e um texugo selvagem. em pouco tempo, em todos os supermercados do planeta, as prateleiras estavam cheias com os produtos do novo homem: o iogurte que fazia crescer cabelos, o sabonete com três cheiros, a pasta de dentes para banguelas, a carne das vacas que nadavam e tinham guelras, o peito dos frangos que cantavam tango em vez de fazerem cocorocó.

o novo homem a tudo assistia sem perceber o que se passava na realidade. o novo homem nascera para pregar a honestidade, para defender tudo o que tinha um bom valor, esquecendo que não era o primeiro a sofrer nas mãos dos vendilhões do templo do senhor.

foi então que o presidente dos Estados Unidos da América declarou guerra. mandou prender o novo homem para fazer uns exames, antes que os vírus supostamente presentes no seu sangue contaminassem o planeta.

o novo homem, que apesar de tudo continuava sem eira nem beira, foi uma presa fácil. ninguém lhe quis dar abrigo, pois em relação ao presidente dos Estados Unidos o melhor é ser amigo. o novo homem, depois de abatido, foi dissecado ao milímetro. não encontraram, claro, nada de errado. mas o equívoco até deu jeito. morto e enterrado, o novo homem deixou de ser um problema, deixou de, só pela sua existência, ser uma pedra incómoda no sistema.

de uma forma ou de outra, o novo homem não tinha futuro. passada a novidade, os seus produtos já não vendiam mais. a sua mensagem de amor e de paz era muito quadrada. e a Madonna, que não era boba nem nada, já estava noutra, compondo um rock bacana em parceria com a banana profeta, a fruta que nascera dizendo ser a encarnação de um deus asteca, que previa o apocalipse para o fim do ano.

coisa que ninguém levou a sério. o que explica o grande mistério de o mundo ter entrado, naquele 31 Dezembro, alegremente pelo cano.

Monday, June 13, 2005

Meridional

o seu nome é Meridional. e tem um enorme sorriso no rosto como a dividir os pólos da sua cara.

Meridional é negro mas ninguém percebe. acham que é mulato, compram gato por lebre. ele é lobbista de um hotel da Baixa. fica pelos cantos do lobby o tempo todo a dizer "bom dia". mete conversa com franceses, chineses, ingleses, faz se de turista. quem olha diz que acabou de chegar, quando, na verdade, nunca foi nem nunca há de voltar.

o gerente põe-no louco, quer que invente histórias para daqui a pouco. é que está a chegar um lote novo de coreanos e Meridional tem de ser rápido. para deixar claro, Meridional não é vigarista. apenas é pago para falar com turistas. houve um tempo em que não tinha hotel fixo, era lobbista free lancer, alugado à hora, ao tempo, ao tanque.

depois do bom dia, Meridional conta sempre histórias de malas perdidas, de voos calmíssimos e filhos distantes. os viajantes ficam tranquilos ao ouvir tal falar, e pensam: “há alguém parecido comigo nesse mundo que está a acabar...” Meridional então simula um ataque de tosse, pede desculpas e parte para outra.

mas hoje Meridional está assustado. é que história para coreanos ele nunca teve. a sua especialidade são histórias para texanos e malteses. o gerente assobia, Meridional desconfia e treme. os coroanos entram pelo lobby adentro. entre a cruz e a calderinha, Meridional não hesita, improvisa. e aos primeiros olhos puxados que esbarra, Meridional abre a boca, solta a fala.

e conta uma história sobre uma viagem ao Evereste, no dorso de um lhama. fala de uma seita exótica e de um longo período de jejum, que durou meses. e de como encontrou a chama chama divina primeiro que todos os homens. e de como o seu corpo foi elevado ao ar até onde a vista não alcança, tendo quase sido ceifado por um misterioso avião da Lufthansa.

fala de como depois caiu em cima de um pântano e de como passou a vaguear pelo mundo à procura da sua tribo. fala tudo isso em pouco mais de um segundo e já ia estender a mão com um ar de até mais ver quando é surpreendido com a imagem do coreano a ajoelhar-se no chão. e todos os coreanos em volta, ao entenderem o sinal, erguem os braços aos céus a agradecer a dádiva recebida.

e então o mais velho dos coreanos, pelo menos duzentos anos em cada perna, debruça-se sobre o ombro de Meridional e sopra-lhe no ouvido: «Mestre...»

desde então, Meridional nunca mais deu notícias, o que é incrível.

consta que o gerente teve um destino terrível.

Thursday, June 09, 2005

como vencer na vida sem fazer força

o meu Tio Olavo mandou-me alguns conselhos que pediu para serem partilhados com todos os sete leitores desta página.

eles (os conselhos) são uma espécie de manual de fácil leitura sobre como ter sucesso na vida sem fazer lá grande coisa. então é assim:

1. “um homem que tem um milhão de contos sente-se tão bem como se fosse rico”.

2. “se A é o sucesso, então A é igual a X mais Y mais Z. o trabalho é X; Y é o lazer; e Z é manter a boca fechada”.

3. “regra nº 1: nunca perca dinheiro. regra nº 2: nunca esqueça a regra nº1”.

4. “a parte mais sensível do ser humano é o bolso”.

5. “é raro alguém querer ouvir aquilo que não quer ouvir”.

6. “para fazer fortuna, não é preciso ter talento; basta não ter correcção”.

7. “o trabalho é honesto; mas há muitas outras ocupações muito menos honestas e muito mais lucrativas”.

8. “só o lucro não dá prejuízo”.

9. “há muitas maneiras inteligentes de se ganhar dinheiro, mas só há uma de o gastar: menos do que se ganha”.

10. “sabedoria é saber o que fazer; virtude é fazer”.

11. “sempre digo que ganho mais do que preciso e menos do que mereço”.

12. “o sucesso faz o fracasso de muitos homens”.

13. “as intenções são filhas póstumas dos grandes gestos”.

14. “nenhum cliente pode ser pior que cliente nenhum”.

15. “bom o suficiente nunca é”.

16. “há quem ganhe apenas o necessário para endividar-se”.

17. “o dinheiro não muda o homem: ele apenas o desmascara”.

18. “eu tenho dinheiro, o suficiente para o resto da minha vida, a não ser que eu compre qualquer coisa”.

19. “um contrato verbal não vale o papel em que está escrito”.

20. “todas as herdeiras são lindas”.

Wednesday, June 08, 2005

destinos

Lígia Pereira de Sousa, 75 anos, solteira, prima em terceiro grau da Condessa de Ourique, moradora de um T5 no Restelo. vive na companhia de Tareco, gato, cinco anos, rafeiro, sem parentes conhecidos, um presente de Octávio Francisco Magalhães de Almeida e Sousa, 43 anos, "bon vivant" e sobrinho querido.

Lígia tem a mania da limpeza e costuma banhar o Tareco uma vez por dia. neste momento, Ligia está a pôr o Tareco, todo molhado do seu último duche, a secar dentro de um forno de microondas. Tareco ainda protesta mas Lígia não se incomoda. fecha a porta do microondas. Liga-o no máximo.

enquanto isto, no Algarve, Paulo Monsanto de Carvalho, quatro anos, mais conhecido como Baby, está a construir um castelo de areia na Praia do Gigi. É neste preciso momento que, Tomás Cardoso de Oliveira, sete anos, sardento, caixa-d'óculos e mau carácter, prepara-se para chutar o castelo de Baby. Tomás não sabe, mas Baby jamais irá esquecer o dia em que o seu castelo foi destruído. o trauma por ver uma obra sua deitada, literalmente, abaixo transformará Baby num homem eternamente ressentido, incapaz de acabar um curso, formar uma família, fazer uma carreira e que acabará por entregar-se ao álcool.

passados 30 anos deste fatídico dia, Baby encontrará casualmente Tomás, executivo bem sucedido, presidente de uma empresa importadora de bananas africanas, numa rua escura, ali pelos lados de Alfama. não me pergunte o porquê mas Baby estará armado com uma pistola de alto calibre. Baby reconhecerá as sardas e os óculos de Tomás imediatamente. Tomás mal terá tempo de pedir perdão. em segundos, estará no chão como o castelo que neste exacto momento ele chuta.

enquanto isto, Alfredo Redondinho Costa, 33 anos, publicitário e “serial killer”, devora o seu pequeno almoço num café ao pé do Marquês de Pombal. o sonho de Alfredo era ser um artista plástico reconhecido internacionalmente. porém, devido ao intenso ritmo do seu trabalho, a criar anúncios para vender lixívia de uma marca branca de supermercado ou hambúrgueres de uma conhecida rede de “fast food”, feitos a partir de restos de carne de porco, cavalo e papel jornal, nunca encontra tempo para dedicar-se à arte.

para compensar essa frustação, Alfredo costuma assassinar desconhecidos. executa-os usando com uma certa violência um taco de basebol. depois esfola as suas peles, arranca os seus cabelos e com esse material constrói uma instalação na porão da sua casa. Alfredo tem o hábito de escolher as suas vítimas pela manhã no café onde está neste momento.

e é por isso que ele concentra a sua atenção em Vanessa Pires Moutinho, 27 anos, mulata brasileira de compleição física avantajada, nascida Sebastião Pires Moutinho, objecto de uma cirurgia de mudança de sexo na Suécia. Vanessa repara nos olhares de Alfredo e corresponde. passados alguns minutos trocam os telefones.

Alfredo fica empolgado com a possibilidade de acrescentar um tom de pele mais escura à sua já imensa obra prima. não sabe que Sebastião, digo, Vanessa, antes de se tomar dançarina de um bar de strippers da 24 de Julho, era porteiro de uma boate em Recife. dona de uma força descomunal, será simples para Vanessa empalar, via anal, o psicopata com o seu próprio taco de basebol. surpreendentemente, Alfredo morrerá com dor, mas morrerá feliz.

enquanto isto, Pedro Saldanha Soares, 38 anos, filósofo formado numa universidade francesa, caminha pelo centro da cidade. está a reflectir sobre a sua tese de doutoramento baseada no conceito da não existência do destino. Pedro defende que o homem, através do raciocínio dialéctico e da argumentação entrópica, pode controlar todos os passos da sua vida.

Pedro acredita que o destino não passa de uma invenção das almas ingénuas, uma herança abstracta da origem tribal da humanidade. ele está a pensar niso enquanto atravessa a rua sem perceber que um autocarro da linha Chelas-Rossio vem na sua direcção. Joaquim da Silva, 44 anos, ex-interno da Casa Pia, motorista, ainda tenta travar o autocarro mas é tarde demais.

enquanto isto, Tareco arranha o vidro do microondas e dá a sua miada final.

Wednesday, June 01, 2005

o Poema Feliz

O Poema Feliz era de amor que, é claro, rimava com a palavra flor.

como todos os poemas felizes, era estúpido, envergonhado, deserdado pelo próprio autor. durante anos viveu escondido num caderno mas, como nenhum segredo é eterno, um dia foi descoberto por um literato que tirou o Poema Feliz da sua aldeia e o levou para a cidade, com o objectivo confesso de exibi-lo numa grande feira.

o Poema Feliz não era inteligente, diria mesmo que, apesar do grande coração, tinha pouca cabeça. confrontado com a súbita fama, reagiu de estranha maneira. em pouco tempo podia ser visto acompanhado de críticos, artistas, intelectuais, políticos e rameiras. comprou roupas de marca, passou todas as marcas, acreditou poder ser modelo, sem perceber que o que hoje é belo amanhã é feio.

na boleia da fama, frequentava os bares da moda, dava entrevistas, aparecia na televisão, sem perceber que os seus novos amigos de borga, não eram amigos, não eram felizes, eram a sua perdição. o Poema Feliz, que fora um ingénuo, passou a beber demais, a fumar demais, a cheirar coca. estava sempre trémulo pelo Bairro Alto à procura de drogas.

aos poucos o seu estilo mudou. Esqueceu-se que era um poema. soberbo, imaginava-se prosa. e nem reparou quando a flor da sua poesia murchou. então, porque já não tinha piada, porque já não era um poema, porque já não era feliz, foi abandonado por todos a troco de nada, a troco de um novo poema que abusava da letra “x” e, isso que era de mais, praticamente não tinha vogais.
daí para a prostituição foi um pulo. vendeu as suas rimas para um trovador caolho e chulo. as metáforas, perdeu nas Docas de Alcântara numa rusga onde uma navalha cortou do seu corpo a palavra esperança.

o Poema agora era uma triste figura, dormia na rua a pensar, nas noites sem Lua, em praticar um haikai. foi quando o Lar do Poema Abandonado o recolheu e ofereceu-lhe tratamento. passado um tempo, o Poema era outro. recuperado, hoje vive numa vila ao sul do Tejo. mas o Poema sabe que Feliz nunca mais. perdera aquele seu ar de criança, que alguns chamavam pateta, mas que era apenas a opção de um esteta, inábil com as palavras mas cheio de amor.

e quanto à sua flor, definitivamente morreu, nunca mais germinou.