Sunday, May 29, 2005

desalmado

“compra-se alma. paga-se bem.”

lia-se perfeitamente a frase num pequeno anúncio de jornal. Fausto achou a proposta interessante. como nunca foi crente ou poeta, sempre achou a própria alma algo de grande inutilidade. Fausto tinha uma alma como quem tem um par de meias vermelhas com bolinhas azuis, presente de alguma tia gorda e daltónica. guardava a alma na gaveta das cuecas e poucas vezes tivera motivos para a tirar de lá. mas agora havia um: dinheiro.

desde que a proposta fosse boa, Fausto iria trocar a alma por uns cobres. poderia não ser o acto mais católico do mundo, mas Fausto não era católico, nem budista, nem protestante. a transação foi simples. a maquia era boa. bastou uma assinatura e o número do contribuinte. em minutos, Fausto era um homem desalmado.

Fausto nem perguntou o que iriam fazer da sua alma. era um assunto para ele pouco importante. saiu da loja com o bolso cheio notas e um grande sorriso estampado no rosto.

desde então Fausto prosperou. aplicou o dinheiro na bolsa e ganhou. com o lucro comprou uma empresa falida e transformou-a num grande negócio. Meteu-se nos mais arriscados projectos sem nenhum medo, pois quem não tem alma não teme. tornou-se num empresário de sucesso. deu entrevistas a todos os jornais do país, ficou famoso e cada vez mais vaidoso consigo mesmo.

um belo dia, estava Fausto no seu apartamento de três andares em Nova Iorque, quando a Morte chegou.

- bom dia, vim buscar a sua alma.
- dona Morte, a senhora deve ter se enganado no apartamento. já não tenho alma há muito tempo.
- o senhor não se chama Fausto Matias de Sousa?
- sim, é o meu nome.
- então não há engano algum. vocês mortais são realmente muito chatos. é sempre a mesma coisa quando eu chego: “é muito cedo”, “agora não, vou casar amanhã”, “justo hoje que o Benfica foi campeão?” sinceramente, não há pachorra para as suas desculpas. por favor, entregue-me a sua alma sem grandes resistências. tenho hoje uma agenda cheia. dentro de vinte minutos haverá um atentado no metro, ali pelos lados do Harlem, e só isso vai ser o suficiente para ocupar-me a tarde inteira.
- caríssima morte, já disse que não tenho alma alguma. vendi-a faz mais de trinta anos. se duvida, olhe aqui o recibo.
- hum... tanto? pagaram-lhe bem. já vi gente que vendeu a alma por muito menos.
- era uma boa alma, quase sem uso. praticamente não a tirava de casa. só tinha ido com ela uma ou duas vezes à igreja e mesmo assim nem rezei, eram casamentos.
- bem, o recibo parece-me verdadeiro. peço desculpa pelo incómodo. deve ter havido um erro. desde que instalaram os novos computadores lá no inferno, aquilo tem-se tornado um inferno, se me permite a redundância.
- não há problema. mas, já agora, uma curiosidade. se veio buscar a minha alma é sinal de que alguém ainda a tem e esse alguém irá morrer hoje. é possível saber quem é essa triste figura?
- sim, sim. posso usar o seu telefone?
- claro. está logo ali naquela mesa, por debaixo do Picasso falso.

a morte arrastou a sua foice até o telefone. fez a chamada. enquanto isso, Fausto fumava um charuto cubano. o apartamento foi tomado por uma cortina de fumo, tresandando a charuto e a enxofre.

- ora bem, senhor Fausto, já descobri o equívoco. na verdade, a sua alma pertence hoje a um famoso cientista, que mora do outro lado do Central Park.
- e ele vai morrer de quê?
- vai escorregar no sabonete e bater com a cabeça na banheira. vai ser uma grande perda. o tipo estava prestes a descobrir uma vacina para uma epidemia que irá alastrar-se pelo mundo dentro de dois ou três anos e que irá matar toda a população do planeta.
- toda a população?
- sim. vai ser uma trabalheira. o mundo vai ficar reduzido às baratas e aos desalmados que, como não têm alma, não podem morrer.
- somos muitos?
- imensos. só em Nova lorque há mais de dois milhões.
- pena. estou a ver que os engarrafamentos vão continuar.
- bom, tenho de ir. passar bem.

Fausto despediu-se da morte. foi para a varanda e pôs-se a olhar a cidade. estranha era a vida, pensou. pôs-se a reflectir no futuro atroz da humanidade. era trágico que só por uma questão de troca de uma alma morresse o tal cientista no seu lugar e, com ele, toda a esperança do mundo.

nesse exacto instante, Fausto avistou uma pequena barata ao pé de um jarro de plantas. olhou-a fixamente e percebeu que entre os dois havia coisas em comum. a mesma ausência de sentimentos e o mesmo destino: partilhar o planeta só porque eram representantes de duas espécies impuras.

Fausto foi tomado então por uma comoção. sentiu que precisava fazer algo. não podia aceitar o futuro que se avizinhava de maneira passiva. caminhou em direcção à barata e sem pestanejar tomou uma atitude que iria marcar todo o resto da sua eterna vida.

“Menos uma!”, gritou ao pisar a barata sem piedade.

Monday, May 23, 2005

o Prozac encarnado

Escrevo este texto na segunda-feira pela manhã. Ontem (Domingo) o Benfica sagrou-se campeão.

Falo com o Rui sobre o tema. Falo, quer dizer, tento falar. O Rui está afónico e ainda meio a dormir. Esteve a comemorar até às sete da manhã a vitória do seu glorioso clube.

Tento compreender o que ele me diz ao telefone. Não é fácil. A sua voz pastosa não ajuda, mas acho que ele diz-me ter dado várias voltas à rotunda do Marquês de Pombal em cuecas. E parece que não era o único. Algumas centenas de outros adeptos tiveram a mesma atitude (provavelmente, incentivados pela maneira como o Simão Sabrosa festejou o título).

Fico a pensar no assunto. O Rui é um rapaz sensato. Como é sensata a maioria dos portugueses. Não consigo imaginar em que outra situação o Rui sairia pela rua a gritar feito um guerreiro bárbaro, vestido como um índio brasileiro. Mas o Benfica provoca esse tipo de coisa nas pessoas. Nem é preciso álcool ou qualquer espécie de estupefaciente. Basta um golo. Bata uma taça. Basta um voo da águia. O Benfica é ele mesmo um droga perigosa.

Do benfiquista contente pode se esperar tudo. Pois o benfiquista feliz é um inimputável inconsequente. O governo vai aumentar os impostos? Ah, tudo bem, o Benfica é campeão. O patrão é do Sporting e resolveu fazer um downsizing na empresa, a começar pelos adeptos encarnados? Óptimo, óptimo, não estava mesmo com vontade de trabalhar esta semana, assim fica mais fácil comemorar a vitória do meu Benfica. A esposa fugiu de casa com o malabarista do circo chinês? Boa, boa, vamos aproveitar que a casa está vazia e fazer uma grande festa, pois o Benfica é campeeeeeeeeãooooo!

O Rui continua ao telefone a teorizar sobre os efeitos benéficos da glória do Benfica sobre a economia nacional. Segundo o seu ponto de vista, o país vai sair do défice a partir de agora. Isso porque os milhões de benfiquistas contentes vão entregar alegremente todas os seus pertences ao Estado. O benfiquista já tem a taça, não quer mais nada, não precisa de mais nada. O benfiquista só quer que o deixem em paz na sua doce loucura de campeão.

De certa maneira, o benfiquista se contenta com pouco. Um campeonato de onze em onze anos basta. O benfiquista não quer ser bicampeão, nem tri, nem tetra. Os que dizem que sim, estão a mentir. A alma do verdadeiro benfiquista revela-se justamente nas derrotas e não nas vitórias. O verdadeiro benfiquista é aquele teimoso que acha completamente inexistente os campeonatos ganhos pelos outros. No fundo, a década que separa o recente título do anterior não existiu. O verdadeiro benfiquista saltou directamente de 1994 para 2005. Não é à toa que o Rui disse que ontem à noite dançou a Macarena na porta do Estádio da Luz (para o benfiquista este ainda é o hit musical do ano).

Mesmo que o próximo título seja só em 2016, podemos todos ficar tranquilos. Os benfiquistas não vão nos deixar mais abater. Cada campeonato ganho pelo Benfica é como um antidepressivo a nível nacional com efeito prolongado. Deve ser por isso que o Rui não pára de rir mesmo estando a chorar de felicidade.

Ou como diria o meu Tio Olavo: “O Benfica é o Prozac encarnado.”

Tuesday, May 17, 2005

o lado positivo

os cientistas descobriram que o cromossoma Y (aquele que permite a existência do sexo masculino) tem lá uma coisa qualquer que tende a provocar a sua perpetuação através dos tempos.

ou seja, que é praticamente impossível a erradicação dos homens da nossa espécie. não deixa de ser uma boa notícia (embora as velhas feministas que queimam sutiãs talvez não achem lá muita piada).

o certo é que a natureza é hábil e se determinou que os rapazes estão aqui para ficar é por algum bom motivo. o Brad Pitt é uma hipótese, mas não quero me alongar no assunto.

a propósito disso, fui perguntar ao meu Tio Olavo quais eram para ele as diferenças entre os homens e as mulheres. ele respondeu-me o seguinte:

Tio Olavo, o que é que se deve dar para um homem que tem tudo?
uma mulher para ensiná-lo como funciona.

por que é que as pilhas são melhores que os homens?
é que as pilhas têm sempre um lado positivo.

por que é que os homens querem casar com virgens?
é que eles não suportam comparações.

como é que se chama um homem interessante em Portugal?
turista.

por que é que Deus criou os homens?
porque os vibradores não cortam a relva.

por que é que apenas 10% dos homens vão para o céu?
porque se todos fossem seria o inferno.

o que é que as mulheres mais odeiam ouvir quando estão a ter sexo de boa qualidade?
“querida, cheguei”.

por que é que alguns homens na cama são como comida de microondas?
são 30 segundos e já está.

quando é que um homem perde 90% da sua inteligência?
quando fica viúvo.

e quando é que perde os 10% restantes?
quando morre o cão.

Monday, May 16, 2005

o yuppie louco

há horas em que dá vontade de mandar tudo para aquele lugar, chutar o balde, virar a mesa.

há momentos em que temos gana de quebrar o pau da barraca, colocar lenha na fogueira, subir pelas paredes.

há instantes em que o melhor é dar a volta ao texto, arrumar os pontos nos «is», arrancar a camisa de força ou tirar o pai da forca.

há dias em que Deus só abençoa quem cedo madruga e nós levantamo-nos tarde e saímos da cama pelo lado esquerdo. aí, meu amigo, não tem jeito.

em dias assim, questionamos tudo, pensamos muito, concluimos nada. tentamos calcular a quadratura do círculo, dar nó em pingo d'água, achar chifre em cabeça de vaca, pêlo em ovo e reiventar a roda. mas, como é óbvio, noves fora, nada.

foi num dia assim, há pouco mais de dez anos, que escrevi um pequeno conto (?) prospectivo em que me imaginava trintão e tendo um crise existencial qualquer. nem calculava o quanto a ficção poderia se misturar com a realidade.

e é esse conto que transcrevo a seguir. primeiro porque o mais provável é que você nunca o tenha lido, logo terá uma boa oportunidade para continuar sem o ler. segundo porque acho que ele se enquadra perfeitamente no espírito deste blog e gostaria de compartilhá-lo com os meus dois ou três assíduos leitores. o conto (?) é mais ou menos assim:

«eu tenho tudo.
eu tenho tudo, vejam vocês.
tenho mulher, dinheiro, saúde.
celular? tenho três.
carro, diploma, cartão do Sporting.
ano passado tive um jacto, mas passei adiante
pois, hoje em dia, o que interessa é não ter nada
de interessante.
não moro numa casa, vivo num estúdio.
tenho um loft no Soho e uma vizinha chamada
Socorro.
tenho um cão, uma catatua que canta boleros,
um mastim assassino e uma chinchila.
nunca mostro os documentos.
quem é não precisa provar.
tenho trinta, mas aparento menos,
muita água francesa é o meu elemento.
comprei dois laptops e fiz milhões:
de euros, de inimigos, de escudos.
não gosto da pobreza, o meu negócio é a beleza.
de pobre basta o meu karma, o meu porteiro, o meu berço.
já tentei vários suicídios, alguns bem sucedidos.
também tenho as paranóias da moda.
sonho com o dia do juízo final,
o meu loft a arder e a catatua em chamas a cantar «Besame Mucho».
nesse dia enforco o mastim e dou para o cão comer.
a chinchila uso como casaco.
apanho o primeiro voo para Bali.
hospedo-me num Holliday Inn para manter as aparêndas.
alugo um carro desportivo de um ano indefinido
e vou para uma praia qualquer em que se assaltem as pessoas.
ataco um ou dois turistas, com os meus próprios dentes arranco-lhes as orelhas
vermelhas.
depois mergulho na água e começo a cantar uma música do Lloyd Cole.
e antes que o sol se ponha e que o mundo exploda,
mergulho e conto até cento e cinquenta e cinco.
e, por instantes, não vou ter nada na cabeça e no bolso.
vou ser só um pobre yuppie louco.
e, pela primeira vez na vida,
quando o oxigénio acabar e eu vencer
os meus primários instintos de sobrevivência,
quando o meu corpo começar a contorcer-se à procura de luz
quando pela minha boca entrar
a água, o sal e todo o poder da mãe Terra,
quando eu começar a grunhir e ganir
e a chamar pela minha vizinha
Socorro,
eu serei por um milionésimo de segundo,
acredite amigo, eu serei feliz.
nem que seja por uma unha,
por um casco,
por um triz.»

Thursday, May 12, 2005

Pigmalião

nalgumas versões, Pigmalião era o Rei de Chipre. noutras era um simples escultor. numas ele tinha uma aversão suspeita em relação às mulheres. há ainda algumas que dizem que, muito pelo contrário, Pigmalião era um homem obcecado pelas linhas do corpo feminino. em todas, Pigmalião decidiu esculpir a mulher perfeita. e assim ele fez.

pronta a estátua, Pigmaliâo apaixona-se perdidamente por ela. dá-lhe o nome de Galateia. beija-a. abraça-a. deseja profundamente ir para a cama com ela. mas, claro, não pode. por mais que seja tão perfeita que até parece ser feita de carne (e que carne!) e osso, Pigmalião sabe que ela é feita de pedra. e como nenhum homem é de ferro, ele pede para Afrodite (a deusa do amor) transformar Galateia numa mulher de verdade. e assim é feito. e Pigmalião casa com a sua obra e são felizes para sempre.

o mito de Pigmalião é um dos mais interessantes à luz do nossos dias. ele está presente um pouco por todo lado nas mais diversas formas. quem vai a um ginásio esculpir o próprio corpo está a ser um pouco pigmalião. tudo o que tem a ver com o universo da moda, das roupas aos acessórios, acaba por ser uma ferramenta pigmaliónica. querer ser melhor, mais bonito, mais charmoso aos olhos de si mesmo e dos outros é a nossa sina, o nosso fado, o nosso drama. somos todos Pigmaliões de nós mesmos.

penso nisso depois de assistir a «Por Amor à Arte», do americano Neil LaBute. a peça mostra a história de um rapaz feio, desajeitado, sem piada, que encontra uma linda e hiper-activa rapariga que estuda arte. apaixonado, o rapaz deixa que ela mude as suas roupas, o seu penteado, a sua maneira de falar e até mesmo o nariz. ele então torna-se numa pessoa admirada, charmosa, cheia de auto estima. torna-se na verdade numa outra pessoa.

tudo corre bem, até ao dia em que a rapariga apresenta o seu projecto de fim de curso. e, na apresentação, descobrimos que o projecto dela era o próprio rapaz. a tese que ela defende é que a arte não passa de uma intervenção humana em materiais à procura da beleza e da perfeição. logo o novo rapaz era uma obra sua.

ela, como uma escultora, moldou cada detalhe do corpo do namorado, cada pormenor da sua personalidade e da sua alma. resta dizer que ela nunca esteve apaixonada por ele. muito pelo contrário. como uma verdadeira artista, olhava para o rapaz como um pintor olha para uma tela vazia, como um escritor olha para o papel em branco.

depois da revelação, senti por todo o teatro um cheiro de incómodo, um ar de consternação. os casais, principalmente os casais, não conseguiam disfarçar que o assunto seria debatido mais tarde ao jantar.

percebe se porquê. que relação não tem um pouco de Pigmallão? quem é que não tenta mudar o outro? e, admitindo que também aconteça entre amigos, parece me óbvio que as relações amorosas são o campo mais fértil para tal fenómeno. daí ser tão difícil para quem já tenha os seus trinta-e-tantos começar um novo romance fixo ou assumir um compromisso perene com alguém.

quem tem trinta-e-tantos já tem um jeito, uma maneira de ser e de estar. está bem pouco aberto a grandes modificações que venham de fora para dentro. já tem hábitos, manias, tiques e atitudes. já tem um jeito de ser e de viver. e acha que já não tem defeitos, só feitio. o que não impede de querer intervir nos outros. de ser um espécie de Pigmalião de pacotilha.

imagino, então, um Pigmalião moderno e suburbano.

Ananias, um obtuso e baixinho funcionário público de uma repartição com funções obscuras, é casado há vinte anos com Celeste, uma simpática e gorda cabeleireira. Ananias nutre uma paixão impossível pela Nicole Kidman. e todas as (poucas) vezes que faz sexo com Celeste imagina que na verdade está na cama com a doce e loira actriz australiana.

uma tarde, Ananias chega em casa e descobre que Celeste havia se transformado na Nicole Kidman. enfim, as suas preces à Afrodite haviam sido atendidas. Celeste estava de avental e rolinhos na cabeça, mas mesmo assim tinha o corpo e a cara da sua amada Nicole. Ananias aperta a nos braços, atira a na cama e faz amor até de manhã cedo.

o tempo trouxe alguns problemas. com tanto sexo, Ananias começou a definhar, a dormir no trabalho, a chegar atrasado na repartição. só não foi suspenso porque o chefe queria descobrir qual era o segredo da transformação da Celeste. o chefe sonhava em um dia chegar em casa e ver que a sua esposa, a dona Cidinha, tinha se transformado no Kirk Douglas.

para a Celeste, a vida também não corria nada fácil. tinha perdido todas as amigas, enciumadas com a sua beleza e temendo que os maridos se encontrassem com ela. além do mais, Celeste estava farta de tanto sexo. aquilo era a todas as horas, todos os dias. tinha saudades do tempo em que a função só ocorria na terceira quarta feira de cada mês (excluindo Fevereiro e Agosto que eram meses sabáticos).

até que uma tarde, Celeste chegou em casa vinda do supermercado. Ananias estava deitado nu no sofá. Celeste quase caiu para trás com o que viu. começou a chorar. foi directo para o quarto, fez as malas e fugiu para a casa da mãe, quase sem dizer uma palavra. Ananias ainda tentou argumentar mas foi em vão. Celeste estava decidida. não havia casado para viver daquele jeito com aquele homem. muito ela já tinha suportado. mas agora era preciso dar um basta naquela vergonha, naquele horror. Ananias tinha exagerado, ido longe demais.

era que, sem pedir permissão, Ananias havia se transformado no Tom Cruise. E, como todos sabiam, Celeste só gostava de homens feios.

ou como diria o meu Tio Olavo: “quem ama o feio deveria procurar um oculista. “

Tuesday, May 10, 2005

os homens preferem as loiras

está bem, está bem, as anedotas de loiras são sempre politicamente incorrectas.

demonstram um tipo de sexismo desprezível, ajudam a estigmatizar um grupo de pessoas que não deveria ter as suas capacidades reduzidas à cor dos seus cabelos e, last but not least, são injustas com relação a todas as loiras que são inteligentes.

na verdade, algumas das mulheres com as melhores cabeças que conheci eram loiras. já trabalhei com várias, tive algumas como chefe, já fui patrão de outras. nunca percebi que pelo facto de serem loiras eram filhas de um Deus menor. dito isto, fica claro que não concordo de maneira alguma com as piadas de loiras.

mas o problema é que adoro-as. as loiras e as piadas (também não acho moralmente aceitável comer tarte de chocolate branco com cobertura de chocolate negro quente em cima de um trapézio, servido pela Vera Fischer nua. isso não quer dizer que não topasse essa sobremesa se alguém me oferecesse).

fui falar com o Tio Olavo sobre o assunto. o velho, exímio conhecedor do universo feminino em geral (e das loiras em específico), deu-me as seguintes lições:

Tio Olavo, porque as loiras não fazem gelo?
porque elas esquecem sempre da receita.

como é que sabemos que um fax foi enviado por uma loira?
o fax vem com selo.

como é que uma loira tenta matar um passarinho?
retira-o da gaiola e atira-o pela janela.

porque as loiras levam uma semana para comer um iogurte?
porque vem escrito na embalagem: comer em uma semana.

porque o cérebro de uma loira fica do tamanho de uma ervilha quando ela morre?
porque incha.

o que uma loira vai fazer numa loja dos 300?
pesquisa de preços.

como fazer uma loira rir de uma piada numa quarta-feira?
fácil: basta contar a anedota num sábado.

o que é uma loira com o cabelo pintado de ruivo?
Inteligência artificial.

como se sente um neurónio de uma loira?
profundamente só.

o que um homem deve fazer para se casar com uma loira?
basta ele dizer que ela está grávida. no que ela irá perguntar: "tem a certeza de que é meu?"

porque uma loira fica feliz quando consegue montar um quebra-cabeça em dois anos?
porque na caixa dizia: dos 8 aos 80 anos.

sabe quando uma loira tem dois neurónios?
quando está grávida. de gémeos.

como é que se derruba uma loira que está dependurada numa árvore só com uma mão?
basta acenar para ela.

como é que seria uma lanterna se fosse inventada por uma loira?
funcionaria à base de energia solar.

qual é a diferença entre uma loira burra e uma inteligente?
na escola, a loira burra copia o que o professor escreve no quadro negro e depois apaga o texto do caderno quando o professor apaga o quadro. a loira inteligente nem copia, pois sabe que depois terá de apagar.

porque as piadas de loiras são tão curtas?
para que as morenas possam entender.

Monday, May 09, 2005

Anónimo

o Cidadão Anónimo por acaso tinha um nome e uma morada e um BI. era anónimo, mas era feliz.

nunca tinha aparecido na TV, nem respondido aos inquéritos dos jornais sobre a incrível moda dos gelados de banana, nem mandado SMS para os concursos vários que dão bilhetes para festivais de rock de Verão ou elegem a rapariga mais bacana do quarteirão.

o Cidadão Anónimo, além de ser anónimo e feliz, cultivava o saudável hábito da alienação. não lia jornais, nem revistas, nem livros. não que fosse analfabeto, pelo contrário, havia aprendido a ler muito cedo, apenas não queria se chatear com o que quer que fosse, nem com as notícias sobre golfinhos enfermos nem com os comentários de políticos torpes.

não tinha mulher, nem filhos, tinha um cão, teve um gato, queria ter um papagaio e isso já era o bastante, tendo em vista que o basta não precisar ser necessariamente muito, nem pouco, nem grande, nem louco.

o Cidadão Anónimo não dava nas vistas, mais que um personagem, ele fazia parte do cenário, objecto perdido, sem brilho, nem mácula, como uma espécie de candelabro barato no castelo do Conde Drácula.

até que o Cidadão fez uma grande besteira ou cometeu um acto genial ou, se calhar, mais do que banal, mas que caiu no gosto dos media, catapultando o Anónimo para o reconhecimento geral, tornando-o no novo ídolo dos reformados, dos miúdos rebeldes, dos betos, dos queques e até de algumas tias.

famoso da noite para o dia, o Cidadão Anónimo deixou cair a sua máscara. afinal, tinha ideias sobre tudo, tinha a sua estranha visão do mundo e propostas concretas para salvar a humanidade ou para ajudar quem tinha problema de estrias.

na boleia da fama, fez um filme e gravou um CD. participou em anúncios, deu entrevistas na rádio, posou para fotografias ao lado de belas modelos, simulou dois ou três romances com algumas loiras de plantão, até que casou com um morena e foi de lua de mel para o Ceilão.

na volta, deparou-se com um dilema: na sua ausência, tendo em vista as necessidades da assistência, outro anónimo havia sido promovido e era o famoso da hora. o Anónimo ficou uma fera, saudoso da exclusividade de outrora e raivoso, pois o outro nem assim tão anónimo era, tendo participado, quando jovem, de uma cena bera qualquer e por isso ter tido a fotografia publicada num jomal ali para os lados de Alenquer.

na briga entre os dois, o público dividiu-se. uma parte preferia a boçalidade de um enquanto outra parte preferia a imbecilidade do outro. a disputa durou algumas semanas, tendo sido resolvida no dia em que, em plena televisão, o povo ter podido participar de uma mega-eleição.

o resultado foi um empate, o que não era nenhum disparate, tendo em vista que entre os dois venha o diabo e escolha. o que foi feito em seguida. Satanás, chamado para dar o seu voto de minerva, preferiu o anónimo de segunda. declarou o seu voto enquanto príncipe das trevas, soltando fogo e vomitando pus. claro está que o resultado era roubado, pois nos bastidores o vencedor já havia vendido a sua alma por pouco mais que três tostões e um lugar numerado no novo Estádio da Luz.

caído em desgraça, o Cidadão Anónimo voltou para a sua vidinha sem graça. hoje anda por ai, no papel de mais um ilustre desconhecido da praça. parece um tipo comum, mas só por fora. por dentro remói um plano de vingança. E, mais cedo ou mais tarde, cometerá um desatino, provocará uma guerra. se você ainda tem alguma, pode perder a esperança.

pode não ser hoje, pode não ser amanhã, mas o Cidadão Anónimo vai se manifestar. votando no partido errado, crucificando um cristo ou simplesmente desrespeitando as leis de trânsito. e aí, amigo, vai ser o fim do mundo em cuecas. pois o Cidadão Anónimo pode até ser invisível, mas tem a marca da besta eternamente tatuada na testa.

glossário para brasileiros: BI (carteira de identidade); reformados (aposentados); betos e queques (mauricinhos); tias (dondocas); Estádio da Luz (Estádio do Benfica).

Wednesday, May 04, 2005

duas vidas

duas vidas... duas vidas... quantas vidas uma pessoa pode ter?

a coisa não me saí da cabeça desde que tropecei numa entrevista do cantor Manu Chao. ele dizia que teria, se pudesse, várias vida ao mesmo tempo. uma vida na França, outra no Senegal, outra em Cuba, e assim por diante. em todas as vidas ele seria o mesmo, só que aproveitando todos os factos do dia-a-dia de maneira diferente.

a ideia é boa, não importa se impossível de realizar. eu, como imigrante que sou, sei bem o que é isso. há quase 15 anos deixei para trás uma vida no Brasil para vir viver outra em Portugal.

mesmo por lá já havia passado cinco anos a andar de um lado para outro, de um estado para outro, nunca fincando raízes em parte alguma, trabalhando seis meses aqui para passear seis meses acolá. era uma vida episódica, como numa daquelas novelas intermináveis, tipo soap opera americana, onde estão sempre a mudar os cenários, os personagens, as tramas secundárias, mantendo apenas no ar o (eu) personagem principal.

independente do quão divertido foi esse período, o meu psicanalista bem sabe as sequelas que deixou. por pouco não fiquei baralhado das ideias a ponto de não saber exactamente quem eu era ou o que sou. adiante.

não ter várias vidas para viver implica fazer opções. não dá para ser juiz de linha e futebolista ao mesmo tempo. não dá para ser padre de dia e cantor num bordel à noite. não dá para ser o dono de circo e o inventor da fórmula mágica que faz crescer os anões.

a maior parte das pessoas não pensa muito no assunto. elas vivem o que têm de viver e pronto. porém, sou do time dos inconformados, faço parte do coro dos descontentes. procuro pensar sempre na vida que tenho e naquela que poderia ter. quando não estou feliz com o que vejo, mudo o ponto de vista, olho por outras janelas, troco o que tem que ser. como acho que você também poderia fazer.

aproveito-me da ideia do Manu Chao para me imaginar um dia chegando numa estação de comboios no Rio de Janeiro e esbarrando na plataforma comigo mesmo. eu e eu somos os mesmos, sendo que muito diferentes. um nunca saiu do Brasil, o outro veio. um viveu o que o outro sonhou, reciprocamente. passamos pelo que o destino nos reservou, sentindo a eterna dúvida daquilo que poderia ter sido se lá atrás a opção de ficar ou partir tivesse sido outra. olhamos bem nos olhos um do outro e abraçamo-nos. daí seguimos para um bar para colocar a conversa em dia. sabendo que esse breve encontro é apenas o reflexo de uma longa e eterna despedida.

ou como diria o meu Tio Olavo: «o destino é apenas o acaso com uma certa mania de grandeza»

Tuesday, May 03, 2005

o endireita

ele era um endireita, gostaria de endireitar o mundo, o tudo, o todo. gostaria mas não conseguia.

já que não era engenheiro, adpeto da magia, possuidor de dons sobrenaturais, dedicava-se a consertar colunas vertebrais. deixava recto como um biscoito quem chegava no seu consultório feito num oito. por força do seu amor ao oficio, acostumara-se a sentir-se como um palhaço de circo, daqueles que arrancam sorrisos até de quem está cheio de dor.

cada cliente era um número, uma cena, um sistema. cada coluna, um palco, um picadeiro, um teorema. em seus sonhos secretos, imaginava-se capaz de transformar a gorda com a marreca numa ginasta romena hirta e bela. o reformado reumático, após uma massagem, saltava da maca como um nadador-salvador de um colorido parque aquático. a grávida problemática, dona de um ar pesado e doente, tornava-se uma lasciva dançarina do ventre, daquelas que seduzem serpentes.

um certo dia, o Presidente do Mundo caiu duma escada durante uma gala e magoou a espinha. ficou preso numa cama dum quarto sem janelas, onde o Sol não entrava, nenhum pássaro voava e nem uma flor era amarela. o Presidente, então, perdeu o contacto com o mundo. o que acontecia fora do quarto passou a ser apenas as folhas de um relatório diário lido num tom monocórdico por um mordomo com um sotaque húngaro que, por acaso, era anão. e o Presidente, que já havia dado a volta ao planeta a bordo de um balão, contentava-se em dizer que sim ou que não, sem poder levantar-se do seu leito nem que fosse para beijar a mão de uma doce princesa ou abraçar um amigo do peito.

e ele, que antes era um governante alegre, sábio e justo, passou a tratar o planeta com desprezo e escárnio. tornou-se um déspota rezingão que cuspia por cada narina um trovão, fazendo do mundo um lugar obscuro. o mordomo anão era uma boa pessoa e gostava do presidente, apesar de ser tratado sempre com extrema desfeita. e, uma vez, visitando uma tia na Hungria, soube da fama do endireita. contratou os seus serviços na esperança dele curar o Presidente do Mundo e com isso acabar com aquele triste absurdo.

o endireita vestiu a sua roupa de missa e foi até a casa do Presidente tratar da tarefa. assustou-se como que viu. no lugar do antigo senhor do planeta, líder sereno e impávido, encontrou um homem pequeno, contorcido e inválido.

o trabalho não foi fácil. o endireita passou sete dias e sete noites a tentar endireitar o enfermo. não comeu, não bebeu, não dormiu. atirou-se numa luta sem fim contra a coisa mais torta que um dia viu. gritou, blasfemou e até sussurrou algo que pareceu vagamente um puta-que-o-pariu.

foi quando o presidente finalmente reagiu. num movimento brusco, levantou se da cama e deu três pulinhos. depois rodopiou pelo quarto como se o mordomo anão tivesse um violino e tocasse uma valsa. e, sem sequer pestanejar, deu um salto mortal e fez o pino. o endireita de tão cansado só conseguiu esboçar um sorriso. caiu morto para o lado e deu o seu último suspiro, com a certeza de ter feito o certo, o justo, o recto.

endireitara o homem mais poderoso do mundo. e quem sabe com isso o futuro de todos. nem viu quando o Presidente, num estabanado movimento, tropeçou no anão, caindo de cara no penico, morrendo afogado no próprio excremento.

o mordomo, ao contemplar a cena final, pensou em chorar, não sem antes formular a moral desse conto triste e porco: "afinal, é verdade, mundo que nasce torto, morre torto".

glossário para brasileiros: endireita (espécie de quiroprático; pessoa que tenta resolver os problemas de coluna vertebral das outras através do uso das mãos); marreca (corcunda); fazer o pino (plantar bananeira)