Thursday, April 28, 2005

metamorfose

naquela manhã, Octávio acordou e viu que havia se transformado num telefone celular.

ficou, obviamente, desesperado. tentou falar com Mirtes, a sua esposa, que estava na casa de praia com as crianças, mas foi impossível. ela tinha o telefone ocupado o tempo todo. ligou para o trabalho e avisou que estava doente. “oh, meu Deus! o que será de mim?”, perguntou-se,
enquanto andava pela casa atrás de uma ficha para recarregar a bateria.

pela hora do almoço, encomendou uma “telepizza” e tentou planear o futuro naquela nova condição. pensando bem, havia algumas vantagens em ser um telefone celular. para já, estaria sempre contactável. poderia comunicar-se com todos, quando bem entendesse. como gostava de música e o seu toque era polifónico, seria um prazer trocar de melodia a cada nova chamada que recebesse. os chatos ele despacharia por «SMS». e com um pouco de sorte, ainda poderia navegar na internet nas horas vagas.

talvez a Mirtes não gostasse da história. mas com o tempo ela iria acostumar-se. e, ora bolas!, ela sempre quis que ele comprasse um celular de 3º geração.

passados alguns dias, Octávio já resolvia negócios, comprava e vendia acções, sempre pelo telefone. de vez em quando ligava para uma linha erótica, o que assustava as operadoras de sexo, devido o seu estranho interesse por unhas pintadas e dedos.

Mirtes continuava na casa de praia, sem desconfiar de nada. mas o tempo foi passando e a solidão do apartamento começou por deixar Octávio deprimido. foi quando a campainha tocou. Octávio abriu a porta e deu de caras com uma batedeira de bolo. era Magali, a vizinha do 4º andar que também havia sofrido uma metamoforse

Magali queria uma chávena dechá de açúcar emprestada, pois estava a bater um suflé de morangos. Octávio pediu para ela entrar. talvez pelo insólito da situação, acabou por surgir um clima entre os dois. além do mais, a Magali ficara linda com aquele arrojado design italiano. nem uma hora depois estavam na cama. com o Octávio a sublinhar o ambiente romântico a tocar, através de si mesmo, o tema do «Barco do Amor». e a Magali a mexer sensualmente com as suas pás nas teclas do Octávio.

de repente, a porta do quarto abriu-se. era Mirtes. raivosa, gritou: «eu sabia, meus grandes safados!» deu três tiros em cada um e depois matou-se. Magali ficou feita aos bocados na cama, com as suas pás ainda a mexerem-se sozinhas, apesar da sua morte cerebral.

mas Octávio fora atingido apenas de raspão. ligou imediatamente para a esquadra. e ficou a meditar na história que iria contar à policia.

ps: o nosso sempre presente camarada Vasco deixou um post a propor uma possível história que o Octávio poderia contar à polícia. se mais alguém quiser fazer o mesmo a coisa ficaria divertida. é um bom jogo de escrita criativa. e ninguém mais poderia reclamar que este blog é pouco interactivo.

Wednesday, April 27, 2005

doida demais

"...a culpa é dele, sou inocente. sempre fui assim, Senhor Polícia, maluca.

dei em doida ainda em miúda. ele, o Pacheco, sabia. é, não casou enganado. no primeiro dia em que saímos, disse-lhe: "Pacheco, cuidado comigo, que eu não sou boa da cabeça'. se não acreditou o problema é dele.

a minha mãe também era chanfrada. castrou o meu pai. é, cortou a pila dele e deu aos cães. o coitado até hoje faz xixi por uma palhinha de borracha. rá, rá, rá! e sabe o que ele tinha feito, Senhor Polícia? nada. é, a minha mãe olhou para ele e disse: "peste, marido inútil, não fazes nada. todas as minha amigas são cornudas e tu aí a fazer palavras cruzadas. não tenho assunto para contar. peste, vais pagar!" e cortou lhe a pila. mereceu.

os homens não valem nada. a prova é o Pacheco. matei e matava outra vez. o senhor diz que foram sete e sete facadas. Rá, rá, rá! por mim, dava mais umas vinta sou maluca, sempre fui. quando vi o desgraçado com aquela loira falsa, pensei: "dei em doida'. e dei mesmo.

o Pacheco era um descarado. uma loira falsa, imagine. se fosse verdadeira não fazia nada. o que eu não suporto é mulher que pinta o cabelo. uma vez disse ao Pacheco: "mulher que pinta o cabelo tem parte com o demo". ele deu de ombros. o Pacheco tinha essa mania, dava de ombros, onde é que eu estava com a cabeça quando casei com aquele imprestável? eu, que era tão bonita. olha para o meu corpo, Senhor Polícia, olha para os meu peitos. põe a mão neles. pode pôr a mão, não tenho mais homem, sou viúva. sto, está a ver? são durinhos. peitos duros, sempre tive, desde miúda. como é que uma mulher com os peitos duros foi casar com um homem tão feio?

o Senhor Polícia viu a cara dele? é, percebo, está difícil de ver, mas não tenho culpa, a faca é que era muito afiada. a culpa é dele, tinha a mania de afiar as facas. acho que ele sempre soube que teria este fim. afiava as facas como a dizer: "Celeste, mata me que eu vou sair com uma loira falsa". e saiu.

apanhei os dois na porta do cinema. o Pacheco nem gostava de cinema. aliás, o Pacheco não gostava de nada, homem sem piada estava ali, Senhor Polícia. eu falava: "Pacheco, vamos ver as marchas?' e ele dizia: 'ah, Celeste, não gosto, vai tu sozinha que eu fico aqui a afiar as facas'. que homem chato!

pois hoje, estava eu a sair do supermercado, quando vi o Pacheco e a loira falsa na porta do cinema. comiam pipocas. o Pacheco era um safado, sabia que não podia comer pipocas, aquilo é só manteiga, o médico já havia avisado que ele tinha o colesterol alto. fiquei tão nervosa que quase dei umas bolachas ali mesmo. mas depois pensei: "Celeste, tu és doida, dar bolachas é pouco, tens mais é que matar". e fui para casa.

os miúdos estavam a ver TV. pensei em matá-los também, adoro ver criança morta, quando eu era miúda morreu o filho da vizinha, fui ao velório e achei tão bonito o defuntinho... mas desisti de matá-los. criança para morrer grita muito e eu estava com uma dor de cabeça insuportável.

levei os miúdos para a casa da vizinha, a Dona Soraia, penso que ela é árabe, terrorista, é outra que não vale nada. e fui fazer o jantar do Pacheco. fiz sopa e pus vidro moído. eu sou assim, Senhor Polícia, cruel. Rá, rá, rá! aí o Pacheco chegou. servi a sopa e fiquei a olhar. comeu tudinho. nem desconfiou. homem burro. depois começou a passar mal. disse: 'Celeste, a minha úlcera estoirou!' e caiu no chão.

foi quando eu saltei sobre a barriga dele e comecei a dançar o twist. sempre fui boa no twist. foi tão gostoso. não dançava há séculos. o Pacheco começou a vomitar sangue. o homenzinho virou um vulcão escarlate. eram tripas, pipocas, esparguete por todos os lados. Rá, rá rá! não queria morrer o safado. gritou: 'Celeste, és louca!' finalmente, percebeu, o trombudo.

foi aí que eu olhei bem nos olhos dele e vi a morte chegar. nos olhos do Pacheco. depois do twist. e não é que a morte é linda? e o Pacheco, que sempre foi feio, até parecia o Alain Delon. então, estava eu ali a dançar na barriga do desgraçado, naquela poça de sangue, quando ele começou a enrolar a lingua e a dizer: "Ceeeeeleeeeesteeee, euuuuu adooooooroooo teeee!' só não perdi a cabeça porque nunca tive. foi comer pipoca com a loira falsa e agora dizia que me adorava.

apanhei a faca e comecei o serviço. dei facadas a torto e a direito. Rá, rá, rá! foi divertido. aí ele morreu. de vez. mas não fossem vocês chegarem, aposto que foi a Soraia que chamou a policia, não foi?, sabia, não disse que ela não prestava?, não fossem vocês, continuava a matar o Pacheco, rá, rá, rá!, sou doida, Senhor Polícia, sempre fui, eu dizia para o Pacheco: 'cuidado com mulher que pinta o cabelo, olha que eu não sou boa da cabeça, vamos ver as marchas, não como manteiga', não quis me ouvir, a culpa é dele, sou inocente, põe a mão aqui nos meus peitos...."

Tuesday, April 26, 2005

vive le rio!

sou um daqueles tipos que perdem um namoro mas não perdem um passeio.

daqueles que acreditam que se Deus quisesse que tivessem raízes teriam nascido Pereira ou Silveira e não Athayde (que não é árvore de espécie alguma).

sempre tive a pancada de um dia dar uma volta ao mundo. tinha a pancada mas não tinha o dinheiro. daí que passei alguns anos a fingir que não tinha pancada alguma só para que me pagassem bem e pudesse um dia mandar tudo para o espaço e sair por aí sem lenço nem documento.

antes de mais nada um ponto importante: na verdade, dar uma volta ao mundo é uma coisa mais simples e mais barata do que muita gente imagina. sério. conhecer uma boa parte do planeta custa menos do que um carro de média gama usado (com a vantagem de não ter passar a vida a pagar gasolina, revisões, multas, estacionamentos etc...) ou seja, como em outras coisas na vida, é só uma questão de onde pomos o nosso foco, tudo tem um peso e um preço relativo.

como nem sei guiar, mal encontrei tempo na minha agenda existencial, decidi viver um período sabático de alguns meses, comprei um bilhete tipo «volta ao mundo», daqueles que pode fazer inúmeras viagens de avião desde que esteja sempre a ir geograficamente para frente (qualquer agência de turismo pode informar sobre a coisa) e pus-me com a mochila às costas a vagabundear pela Terra.

foram cinco meses a rodar por cinco continentes. não vou falar de uma só vez sobre todas as cidades que conheci. com o tempo, pretendo ir voltando ao assunto. e, para surpresa geral da nação, vou começar por falar da cidade mais improvável do mundo: o Rio de Janeiro.

para quem não sabe, sou carioca. na verdade, sou fluminense (não o time, fluminense é aquele que nasce no interior do estado do rio, que é o meu caso). mas um coisa que eu aprendi foi não menosprezar aquilo que é próximo em detrimento sobre aquilo que é mais exótico ou diferente.

se quisesse poderia escrever sobre as ilhas Fidji (onde, durante a tal viagem, estive quase uma semana). como aquilo lá é longe que se farta, ficava fácil tecer elogios e narrar histórias fantasiosas sobre o lugar. mas o certo é que as illhas Fidji são uma grande treta. qualquer praia do Alentejo dá de 100 a zero naquela pocilga. daí que vou ficar pelo meu encanto sobre rio de janeiro mesmo.

pouca gente se lembra, mas o Rio chegou a ser uma colónia francesa. em 10 de Novembro de 1555, o francês Nicolas Durand de Villegagnon, desembarcou em solo carioca e declarou fundada a França Antártica.

governou a terra como se fosse parte do império francês até ser expulso pelos índios e pelos portugueses alguns anos depois. tal passagem deixou poucas marcas na cara e alma do lugar. e só lembrei-me dele porque, na minha eleição das cidades mais bonitas do mundo, Rio e Paris terem chegado até a final.

pois, perdoem-me os parisienses, mas o Rio ganhou. para mim é mesmo a cidade mais bonita do mundo. ponto final, parágrafo.

não, não me venham falar de violência, pobreza e outros senões. o Rio realmente tem esses lados negativos. mas também tem o Pão de Açúcar, o Corcovado, a praia de Ipanema, o Leblon (que, reza a lenda, vem do nome do proprietário original daquela área de praia, o francês Charles Le Bron) e, mais isso e mais aquilo e está bem, está bem estou a ser um bocadinho óbvio.

mas o Rio é assim: óbvio, frontal (e «peital», e «bundal» e outros «al» dependendo das partes do corpo que mais gostar), escancarado como o sorriso banguela daquele vendedor de gelados que acaba de fugir pela areia da praia do Leblon sem devolver o meu troco. adiante.

o Rio não é Paris. não é bonito porque foi construído pelo homem. ele foi talhado pela natureza e atrapalhado pela raça humana. aliás, ver o pôr do Sol no Arpoador é só uma maneira de sermos lembrados de que não passamos de uns parasitas a emporcalhar o Jardim do Éden. e que Eva, afinal, é uma fogosa morena que trabalha como empregada doméstica e desfila no Sambódromo, com os fartos e siliconados seios de fora, como rainha do império persa uma vez por ano. ou será que a morena é um travesti? não importa. mais uma vez, adiante.

não, o Rio não é Paris. também temos lá alguns rios fedorentos mas nenhum corta a cidade pelo meio como o Sena. mas que não seja por isso, a Baía da Guanabara e a Lagoa Rodrigo de Freitas, que são dois lindos cartões postais, também fedem se formos lá cheirá-las de perto, com a vantagem que são fedores muito mais horríveis e variados que os do Sena.

não, mil vezes não, o Rio não é Paris. tem lá o Cristo Redentor mas não tem a Torre Eiffel. aliás, até já teve. sim, há uns 15 anos, a propósito de uma efeméride francesa qualquer, uma rede de lojas patrocinou a construção de um réplica perfeita da Torre Eiffel (com cerca de 20% do seu tamanho real) em pleno Aterro do Flamengo.

o resultado até que ficou bonito e virou um ponto de visitação obrigatório. pena que durou pouco. para tristeza dos cariocas, passados algumas semanas desmontaram a torre. houve até protestos. a torre combinava com o visual da paisagem, na opinião de muitos ficava melhor ali do que na França.

e, já agora, se era para desmontar que fossem os franceses a fazer isso com a deles. ou então que tentassem montar um Pão de Açúcar em Montmatre, que os cariocas não são ciumentos. são é esfomeados por coisas grandes e bonitas. por misturas estilísticas e arquitectónicas. por uma salada de cimento, vidros e palmeiras como a orla da zona sul faz questão de sublinhar.

não fosse por tudo isso (e por muito mais) o Rio não seria, como diz a música, a verdadeira cidade maravilhosa. Paris até pode ser a cidade luz. bom para eles. mas o Rio não quer ficar com um epíteto que mais parece o elogio a uma árvore de natal.

o Rio não quer ser Paris. os cariocas não querem ser parisienses. e uma coisa os cariocas aprenderam com os índios e não com os franceses: tomar banho todos os dias. pode não parecer, mas num calor de 40 graus é uma coisa que faz lá a sua diferença.

ou como diria o meu Tio Olavo: «em Roma, como os romanos. no Rio, prefiro uma mulatinha”.

Friday, April 22, 2005

a língua viva

adoro o Brasil. mas adoro o Brasil que sabe rir-se de si mesmo e que não quer ser a Suíça (perdoem-me os suíços, mas o Brasil é um país um bocadinho mais divertido).

certa vez, uma leitora brasileira declarou-se irritada pelo facto das minhas crónicas utilizar expressões portuguesas. na sua (pouco) modesta opinião, é um delito grave um brasileiro adaptar a sua linguagem à do país onde vive. esta leitora acusa-me de ser puxa-saco (lambe-botas) dos portugueses só porque escrevo coisas como "tipo", "se calhar", "casa de banho", evito os gerúndios e fico feliz quando acerto na localização dos pronomes e na declinação dos verbos.

tendo em vista que regularmente recebo críticas de leitores lusos que acham o meu português uma lástima (o que, de resto, não está longe da verdade), sinto-me num território de ninguém. aparentemente consigo desagradar aos membros mais radicais das duas facções que reivindicam o espólio de Camões e de Machado de Assis.

desde muito cedo aprendi que a língua é viva. talvez os meus professores fossem anarquistas e quisessem destruir tanto o Brasil como Portugal através da fala e da escrita.

cresci a acreditar que as vírgulas não foram feitas para envergonhar ninguém, que os acentos são apenas sinais gráficos a tentar simular a linguagem oral e pior do que escrever errado é ser analfabeto de pai e mãe. diga-se, de passagem, que é o que eu sou.

os meus pais mal sabem assinar o próprio nome. o que não os impediu de me pagar os estudos e de me ensinar a tratar da minha vida em vez de ficar a controlar a língua dos outros.

quando era miúdo sonhava em ser astronauta ou futebolista, nunca imaginei que pudesse ganhar a minha vida a escrever. Deus, que escreve certo por linhas tortas (até ele!), castigou-me transformando-me num inepto num sem-número de coisas. inábil no futebol e a viver longe da NASA, acabei com um lápis na mão. fiz escola de jornalismo e empreguei-me numa agência de publicidade a redigir reclames.

de certa maneira, passei os últimos 25 anos da minha vida a tentar aprender a escrever. como todos os farsantes, de vez em quando, acredito na minha própria mentira.

passo longos períodos a pensar que Fernando Pessoa e Carlos Drummond de Andrade são meus pares, que são meus companheiros, só porque tive a sorte de nascer num país lusófono. ainda bem que há sempre um purista de plantão, a lembrar-me que pela maneira como escrevo deveria mais era trabalhar na estiva.

uma vez, Caetano Veloso (que, como todos os bons poetas modernos, costuma tratar a língua aos pontapés, criando neologismos indecifráveis e metáforas malditas) escreveu que se você tem uma boa ideia o melhor é fazer uma canção, pois está mais do que provado que só é possível filosofar em alemão. Caetano é génio e errado eu sou.

às vezes penso em escrever as minhas crónicas em javanês. é provável que então ninguém mais repare nos meus pobres raciocínios e nos meus erros de sintaxe. a não ser, é claro, não estou bem certo, que a blogosfera também seja possível de se aceder em Java.

ou como diria o meu Tio Olavo: "o universo é uma bela obra. o ser humano trata-se apenas de um pequeno erro na revisão."

Tuesday, April 19, 2005

amor na multidão

eles se encontraram no tempo em que o mundo estava cheio.

lembra se? naquela época havia gente por todos os lados. cada um era para o outro um verdadeiro emplastro. o mundo parecia, às vezes, uma imensa Tóquio. e Tóquio havia afundado com o peso dos japoneses.

com o mundo tão cheio, não havia privacidade. em cada canto da cidade, em cada casa, em cada quarto havia sempre vinte, trinta, quarenta pessoas a disputar uns parcos centímetros. o mundo estava cheio e eles não podiam estar a sós, nem só com o seu amor. foi num elevador.

nas pequenas colunas do tecto, Aretha Franklin cantava “I Say a Little Pray For You”. talvez tenha sido aquele leve toque no braço ou a maneira dela respirar, o facto é que ele, se houvesse espaço, teria caído para o lado no exacto instante que se apaixonou.

com ela não foi diferente. muitos homens já haviam passado pela sua vida mas não como aquele. e, de repente, era como se não houvesse mais ninguém na sua frente. saíram do elevador e foram para o lounge do hotel. ao fundo, sob a luz de um lustre cor de mel, "Garota de Ipanema" era literalmente executada por uma pianista derrotada pela vida. não deixava de ser irónico uma música tão ensolarada ser tocada por pessoa tão sombria. Mas, voltemos a história principal: ele lhe fez um sinal.

ela respondeu levantando ligeiramente a pestana. e, isso é que foi bacana, dali teriam, se possível fosse, ido directamente para a cama. mas o mundo estava cheio, lembra se? o sexo era difícil. só os mais desinibidos conseguiam fazer de conta que não estavam ali a serem vistos, durante o acto, por completos desconhecidos e meia dúzia de tarados.

há muito que já não havia portas. todos viviam como em vidros de compota, agarrados uns nos outros e, como é óbvio, sozinhos como ninguém. mas a vontade era tanta que eles se amaram mesmo assim, sob o olhar de reprovação de cinco freiras que rezavam e diziam amén.

depois do sexo, dormiram, de pé como era o costume. e sonharam com pradarias virgens, onde corriam cavalos selvagens. com nuvens fofinhas onde se podiam deitar. com praias desertas onde podiam rolar pela areia como nos filmes americanos antigos, daqueles que passam na televisão nas madrugadas de certos domingos.

mas a verdade é que não, tudo aquilo eram apenas sonhos. quando acordaram já trinta pessoas reclamavam para que eles fossem um pouco mais para o lado pois queriam passar. ela ainda pensou que ele iria agarrar na sua mão e tentar fugir dali, correndo contra a multidão. ele, um espirito prático, despediu-se em silêncio, deixando-se levar pela corrente. ela, como uma demente, chorou desesperada enquanto ele sumia a meio daquele turbilhão de gente.

e pensou, horas depois, resignada, que certa estava a sua avó que sempre que podia dizia "minha filha, antes só do que mal acompanhada".

Monday, April 18, 2005

um ano a mais

ou mais um ano?

todos os dias 18 de abril, falo com os meus botões (que são excelentes interlocutores, concordam sempre comigo, pois como sabemos, quem cala, consente) e faço essa pergunta.

a ordem dos factores, altera substancialmente o produto. a questão passa por optar entre uma soma (pessoas, sentimentos, expectativas, sonhos e ilusões) ou um alinhar burocrático de dias, semanas e meses.

a palavra aniversário (sim estou a falar do meu, que é hoje, obrigado pelos parabéns, o primeiro pedaço do bolo vai para si) vem do latim e significa "aquilo que volta todos os anos".

anniversarius vem de annus (ano) e vertere (voltar), ou seja, aquilo que se faz ou que volta todos os anos.

o que faz-me voltar a um tema recorrente: o tempo e a sua relatividade emocional.

e se você soubesse que teria apenas mais um ano de vida? ou seis meses? ou uma semana? ou dez anos?

como vê, não importa o valor da cifra, o que assusta é saber um tempo exacto de vida.

tempo exacto de vida. mas serei um pouco inexacto (para manter a coerência): o meu último ano passou rápido. passou mais depressa do que poderia imaginar. não sei o que você fez e viveu nesse tempo. eu fiz o possível para não estar parado.

aliás, a vida não passa de um exercício dinâmico de fisica: o nosso destino (aquele que traçamos) é uma equação inconstante cheia de variáveis como o tempo, a velocidade e a temperatura dos nossos humores. é por isso que nem sempre ir mais rápido significa chegar mais longe.

mais longe. toda gente quer ir mais longe, a maioria sem sair do lugar. essa é a grande contradição dos que conseguiram ultrapassar mais ou menos ilesos a barreira dos trinta (faço 39, mas com um corpinho de 37 e meio). olho para o lado e o que mais vejo é isso: insatisfeitos encartados, crises existênciais encomendadas por catálogo, mágoas, depressões e revoltas compradas num pronto-a-vestir.

vamos falar a verdade, nessa altura do campeonato (depois dos 30) sabemos perfeitamente que pouco ou nada vai mudar na humanidade se conseguirmos a difícil tarefa de mudarmos a nós mesmos.

o universo está-se perfeitamente nas tintas para as nossas mazelas interiores. o máximo dos máximos que podemos fazer para melhorar o mundo em geral e a sociedade como um todo é parar de fumar e beber um pouco menos. pode não parecer muito, mas iremos provocar menos cancros involuntários em quem convive connosco, além de não sermos inconvenientes na festa de fim de ano da empresa. quanto ao resto, aconselho a seguir a técnica das nossas mães, quando somos miúdos e começamos a chorar de birra: engula o choro ou ainda apanha (no caso, da vida) para ver o que é chorar com gosto.

o jeito é seguir em frente. connosco ou sem nosco o planeta teima em girar e a vida tende a seguir. podemos ir juntos mais leves ou ficar para trás por causa do peso dos fardos do passado que insistimos em carregar.

daí que me lembro de um poema que circula por aí desde o tempo em que não havia internet e a divulgação de textos esotéricos em geral e de orações de santos obscuros em específico era feita através do correio.

o texto foi um dia atribuído erradamente ao escritor argentino Jorge Luis Borges. muito anos depois, o equívoco foi mais ou menos desfeito. mas até hoje há quem pense que o poema é de Borges. eu sei que não é mas preferia que fosse. o texto é o seguinte:

"Se pudesse viver novamente a minha vida,
na próxima trataria de cometer mais erros.
Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.
Seria mais tolo ainda do que tenho sido,
na verdade, bem poucas coisas levaria a sério.
Seria menos higiénico.
Correria mais riscos,
viajaria mais,
contemplaria mais entardeceres,
subiria mais montanhas,
nadaria mais rios.
Iria a lugares onde nunca fui,
comeria mais sorvete e menos lentilhas,
teria mais problemas reais e menos problemas imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente
cada minuto da sua vida;
claro que tive momentos de alegria.
Mas, se pudesse voltar a viver,
trataria de ter somente bons momentos.
Porque, se não sabem, disso é feita a vida,
só de momentos,não perca o de agora.
Eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem um termómetro,
uma bolsa de água quente, um guarda chuva e um pára quedas;
se voltasse a viver, viajaria mais leve.
Se eu pudesse voltar a viver,
começaria a andar descalço no começo da primavera
e continuaria assim até o fim do outono.
Daria mais voltas na minha rua.
Contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças.
Se tivesse outra vez uma vida pela frente.»

ou como diria o meu Tio Olavo: «não adianta reclamar. viver faz mal à saúde, envelhece, cria rugas, dá reumatismo, ataca os rins, o fígado e o coração. mas a única cura possível (a morte) ainda carece de mais testes para ser recomendada pelos médicos.»

Thursday, April 14, 2005

uma questão de tempo

«És um senhor tão bonito
quanto a cara do meu filho
Tempo Tempo Tempo Tempo
vou te fazer um pedido
Tempo Tempo Tempo Tempo
Compositor de destinos
tambor de todos os ritmos
Tempo Tempo Tempo
Tempo entro num acordo contigo
Tempo Tempo Tempo
Por seres tão inventivo
e pareceres contínuo
Tempo Tempo Tempo Tempo
és um dos deuses mais lindos
Tempo Tempo Tempo Tempo
Que sejas ainda mais vivo
no som do meu estribilho » (...) *

mais cedo ou mais tarde, você pára para pensar no tempo. não no tempo metereológico das conversas de elevador, do tipo está bom, está mau, vai chover, faz calor. estou a falar do tempo/tempo, do tempo/dia, do tempo/hora, do tempo/mês.

mais cedo ou mais tarde, é só uma (voilá) questão de tempo, as cronologias da vida e das coisas passam a ser uma questão relevante. o tempo perdido, o tempo passado, o tempo ganho. ficando bem daro que, tempo que é tempo, passa sempre voando.

há quem queira ser «um homem do seu tempo». nunca percebi claramente o que é que quer dizer essa expressão. creio que tem vagamente a ver com a vontade de ser contemporâneo, como se fosse possível ser do passado ou do füturo. toda gente é do tempo que há, não do tempo que quer. estamos todos acorrentados aos ponteiros do relógio, amarrados às folhas do calendário.

estava a pensar no tempo quando outro dia lembrei-me que faz tempo um monte de coisas. faz tempo que o mundo tinha medo da guerra fria, da bomba atómica e dos russos. faz tempo que para se ver um umbigo quase que era preciso casar.

faz tempo que os momentos mais bonitos das nossas vidas ficavam registados em polaroids e em filmes de super8. faz tempo que telefonar era caro, difícil e bonito, em que um «alô» poderia provocar um luminoso sorriso ou um vale de lágrimas. faz tempo que havia raparigas virgens, homens honestos e um monte de políticos sinceros (não, pensando bem, isso já é uma raridade faz tempo).

faz tempo em que um dos grandes enigmas da humanidade era saber se a luz do frigorífico continuava acesa depois que fechávamos a porta. faz tempo que o termo conflito de gerações era utilizado para falar das desavenças entre velhos e jovens e não sobre incompatibilidades entre versões de programas de computadores.

faz tempo que «O Último Tango» era um ícone da revolução (desculpe-me a redundância) dos tempos e ainda chocava aos espíritos mais simples, o que era possível ser feito num apartamento vazio com uma tablete de manteiga (e, já agora, não de margarina light, pois naquele tempo toda a gente era mais magra, indusive eu, você e o Marlon Brando). faz tempo que o tempo não pára.

«Disparo contra o sol Sou forte, sou por acaso
Minha metralhadora cheia de mágoas
Eu sou um cara
Cansado de correr na direcção contrária
Sem podium de chegada
Ou beijo de namorada
Eu sou mais um cara
Mas se você achar
Que eu estou derrotado
Saiba que ainda estão rolando os dados
Porque o tempo não pára
Dias sim, dias não
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão
De caridade de quem me detesta
A tua piscina está cheia de ratos
Sua idéias não correspondem aos factos
O tempo não pára
Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não pára» (...) **

Santo Agostinho dedicou boa parte da sua obra a pensar nas relações entre Deus, o Homem e o Tempo. por volta do ano 399, ele dizia: «o que é, pois, o Tempo? (...) Se ninguém me perguntar, eu sei; se o quiser explicar já não sei».

Agostinho (que, até decidir-se pela fé e tornar-se santo, de santo não tinha nada) também pensou e escreveu muito sobre o pecado e (para usar uma analogia um bocadinho simplista mas não menos correcta) sobre o que veio antes, se o ovo ou a galinha. explico: uma parte da lógica agostiniana gira em tomo da liberdade de Adão antes e depois do pecado original.

a questão é, antes da maçã, Adão «podia não pecar»; depois, a Adão restou «não poder não pecar». o tempo é que marca a linha divisória, é o momento do pecado original que não deixa hipóteses a Adão, pois o tempo não volta.

deixemos por momentos a metafisica. vamos ficar pela fisica que se estuda no colégio. como a nossa professora tentou nos ensinar (embora estivéssemos mais interessados nos seios salientes da Magali, a nossa colega de carteira) toda acção provoca uma reacção. somos consequência inexorável do que fizemos, estamos a preparar neste momento o que vamos ser amanhã. como vê, pouco podemos fazer pelo passado, mas ainda é possível remediar o futuro.

não chore todos os seus pecados (alguns deles foram, de certeza, algumas das melhores coisas da sua existência), mas tente fazer qualquer coisa hoje que possa ser motivo de auto-orgulho daqui a dez, vinte, trinta anos. não se contente em ter uma vida. tente ter uma biografia. enquanto ainda dá tempo para tanto.

há uma parábola judaica sobre o tempo que ilustra bem o que digo. um rei queria ser o homem mais sábio da terra. ordenou então aos seus homens que reunissem todos os livros do mundo e os condensassem para que ele os pudesse ler sem perdas de tempo.

levaram 30 anos para reunir os livros e mais 10 para produzir um resumo em 500 volumes. o rei entretanto achou que era muito, que não tinha tempo para aquela maçada e mandou resumir mais. passaram mais cinco anos e homens conseguiram encaixar tudo em 10 volumes. mesmo assim o rei, impaciente, vociferou que não tinha mais tempo para perder com aquilo, que um só livro era a medida ideal.

cinco anos passaram e finalmente o conjunto de sábios responsáveis pela empreitada chegou a um volume de 300 páginas com todos os conhecimentos da humanidade. mas o trabalho foi inútil. o rei então já estava velho e mortalmente enfermo. e, o pior, na espera de todo o saber do mundo, havia esquecido de aprender a ler.

ou como diria o meu Tio Olavo: «nós matamos o tempo, mas é ele que nos enterra».

«Não serei o poeta de um mundo caduco.
Também não cantarei o mundo futuro.
Estou preso à vida e olho meus companheiros.
Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças.
Entre eles, considere a enorme realidade.
O presente é tão grande, de mãos dados.
Não serei o cantor de uma mulher, de uma história.
Não direi suspiros ao anoitecer, a paisagem vista na janela.
Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida.
Não fugirei para ilhas nem serei raptado por serafins.
O tempo é a minha matéria,
o tempo presente, os homens presentes, a vida presente.» ***


Poemas de: * Caetano Veloso / ** Cazuza / *** Carlos Drummond de Andrade

Wednesday, April 13, 2005

la vie en close

«nunca cometo o mesmo erro
duas vezes
já cometo duas três
quatro cinco seis
até esse erro aprender
que só o erro tem vez»*

mania de acertar. mania de fazer a coisa certa. o ser humano é o único animal à procura da perfeição, logo o único que tem que admitir a possibilidade de ser feio, sujo, mau e imperfeito.

pergunte para a lagarta se ela pensa ser horrorosa. ela vai dizer que não. entretanto, no entanto, contudo, cedo ou tarde, ela vai ter razão, ela vai tornar-se numa borboleta. somos, pois, uma libélula ao contrário. e os trinta-e-tantos é a fase em que estamos dentro de um casulo obscuro. para lá entramos jovens e sapecas e de lá sairemos enrugados, grisalhos ou carecas.

mania de fazer a coisa certa. mania de acertar. toda gente quer ser reconhecida pelos seus acertos. ninguém pede para colocar na lápide: «aqui jaz uma pessoa cheia de defeitos». mas se olharmos bem para trás, veremos que são os imperfeitos, os errados, os tortos, os esquerdos que ocupam, estes sim, os lugares de honra da história.

mania de acertar. mania de fazer a coisa certa. passo a citar. «nunca ficamos adultos, só ficamos bobos maiores» (Luís Fernando Veríssimo); «é melhor morrer de vodka do que de tédio» (Maiakoviski); «quem não é belo aos 20, nem forte aos 30, nem rico aos 40, nem sábio ao 50, nunca será nem belo, nem forte, nem rico, nem sábio» (George Hebert). chamo também a Bíblia para me apoiar: «não há lembrança durável do sábio e nem do insensato, pois nos anos vindouros tudo será esquecido: o sábio morre como o insensato» (Eclesiastes 2, 16).

"quem me dera
até para a flor no vaso
um dia chega
a primavera»" *

estações. outro dia estava a contar: já vivi 38 verões. dos primeiros 13 lembro pouco mais do que estar no banco de trás do carro do meu pai, de temer me afogar cada vez que íamos a banhos, de achar que cada pequena parte de mar em que punha os pés não era só um bocado do todo, mas sim todo o oceano.

passei então cinco verões em fase de transição. entre o miúdo e o rapaz, sobrou pouco mais que o sorriso Colgate desta ou daquela rapariga. esses anos foram apagados da memória, como apagamos, por acaso, uma cassete de um filme B que gravamos na televisão.

coisas para recordar que valham realmente a pena, só começaram a partir dos 18. o que significa a partir aí dos 20 verões propriamente ditos. fale a verdade, é bem poucochinho. e mesmo assim, se em metade dos dias não fez sol ou passei trabalhando, restam então 10 verões contabilísticos.

desses 10, dois foram desperdiçados em paixões equivocadas. um numa má opção de viagem. três em companhias chatas. um por um motivo qualquer que não vem ao caso. sendo assim sobram três. e o que se pode esperar de alguém que só viveu três verões bem vívidos e vividos (como um acento faz toda a diferença)?

é por isso que este ano, mal comece o Verão (e há dias nesta Primavera aqui em Lisboa que parece até que isso já aconteceu) vou a praia com meu baldinho de água, minhas pás de plástico e meu bonézinho.

sentarei na areia e construirei castelos, desenharei peixes e sereias. e pouco irei ligar se me disserem que um senhor da minha idade não deveria estar a fazer isso. sim, sou velho, mas somente no inverno. no Verão, terei apenas três. como de resto, toda a gente deveria ter.

ou como diria o meu Tio Olavo: «descobri o segredo da eterna juventude. minto a respeito da minha idade».

«o papel é curto.
viver é comprido.
oculto ou ambíguo,
tudo o que digo tem ultrasentido

se rio de mim,
me levam a sério.
ironia estéril?
vai nesse interim,
meu inframistério.»*

* todos os poemas desta crónica foram extraídos do livro «La vie en dose», do poeta brasileiro Paulo Leminski

Tuesday, April 12, 2005

o País das Palavras

Inconstitucional era um rei triste. disputava com o seu irmão Paralelepípedo o trono do País das Palavras.

era uma refrega sangrenta. com um incontável número de línguas mortas em combate. houve mesmo palavras que de tão estropiadas caíram em desuso. e crescia cada vez mais, naquele empobrecido país, a quantidade de blasfémias e termos chulos.

Inconstitucional preocupava-se. Paralelepípedo perdera a última batalha mas não a guerra. Paralelepípedo era duro como uma pedra. e, junto com a sua amante, chamada Quimera, dona de sonhos dignos de uma alforreca, tramava o seu regresso ao poder com um plano de guerrilhas, executado por um grupo de mercenários chamado Gírias.

segundo rumores, o Reino dos Números ajudava-o de maneira camuflada, infiltrando zeros, disfarçados de “ós”, em palavras dúbias como Orangotangos e Quiprocós.

os números desejavam destruir o País das Palavras. eram invejosos. sempre foram ricos, somavam e multiplicavam cifras ao infinito, mas sabiam que as palavras quando queriam eram muito mais simpáticas. os números odiavam principalmente o Exército das Poesias, pois sabiam que era o mais poderoso. e que as Poesias usavam armas ardilosas, eram dificeis de atacar, ao colocar as palavras foram do habitual contexto. para ter uma ideia, uma vez os números atacaram a simplória palavra «cesto», sem saber que fazia parte de um poema de um desconhecido escritor bissexto. quando perceberam já era tarde, o «cesto» afinal representava o próprio universo, num sentido, é claro, pouco concreto. não foram poucos os pares e os ímpares que no ataque desapareceram, como que engolidos por buracos negros.

com tantos problemas, Inconstitucional sentia que algo estava errado. qual seria o futuro do seu país? como não poderia deixar de ser, ele era um rei letrado. mas o que aprendera do passado já de nada servia. os tempos eram outros. recordava-se amargurado de antigos aliados. suspirava de saudades por Aristóteles e Platão. os gregos, esses sim, é que eram bons. mas o que fazer num tempo em que dominavam os fundamentalistas do Calão, uma estranha religião, um tempo em que nada mais era estupendo, glorioso, magnífico, no máximo era giro, era fixe. e o pior, Inconstitucional já não tinha mais sequer adjectivos bons para expressar o tamanho da sua tristeza. se ainda mantinha a realeza era porque os adjuntos, adverbiais e nominais, ajudavam. mas eram cada vez maiores os problemas de conjugação.

Inconstitucional estava diante do espelho a reflectir, metaforicamente falando, sobre a situação, quando o palácio foi invadido por uma horda de ícones chineses, liderados por um indecifrável anagrama alemão. Inconstitucional quis resistir mas tinha sido abandonado por todos. só lhe restava a fidelidade da sua secreta amada Esperanto, mas que era obviamente uma língua inútil. desesperado, ainda tentou escrever uma carta de suicida mas faltaram-lhe as palavras. e assim morreu Inconstitucional.

ao lado do seu corpo foi encontrado apenas um papel com o seu nome, umas aspas e um ponto final.

glossário para brasileiros: alforreca (animal aquático invertebrado, o mesmo que medusa); calão (gíria); giro (maneiro); fixe (legal).

Monday, April 11, 2005

a filosofia da coceira

ok, eu já disse isso aqui de outro jeito, mas volto a afirmar que, de todas as características da alma humana ,a que mais me encanta é a estupidez.

sim, porque a inteligência tem limites. a imbecilidade, não.

o imbecil está em todos os lados, diria mesmo que está dentro de toda gente.

quem é que nunca fez algo de estúpido na vida? quem nunca traiu, quem nunca errou, quem nunca trairá, quem nunca errará? quem quiser atirar a primeira pedra, se faz favor, dê um passinho a frente.

todos os sábios têm sempre dentro de si um idiota, louco para sair para fora.

o grande escritor Nelson Rodrigues dizia: "cuidado com os idiotas, eles vão herdar o reino dos céus."

fui perguntar ao meu Tio Olavo o que pensa do assunto. ele deu-me as seguintes respostas:

Tio Olavo, acha a humanidade tola como um todo?
se existisse apenas um tolo no planeta, ele teria prosperado.

mas há quem não seja idiota.
costumo dizer que toda gente é estúpida. o segredo do sucesso é apenas ser um bocadinho menos que os outros.

dá para quantificar os imbecis que há no mundo?
milhões, biliões, zilhões... mesmo os sábios, os filósofos, os intelectuais, a maioria deles é como os espelhos: reflectem sem pensar.

a culpa das pessoas serem tão estúpidas está relacionada com o sistema escolar?
uma coisa não tem nada a ver com a outra. nunca deixei que o período que passei na escola interferisse na minha educação.

vê alguma solução para isso?
claro que não. em terra de cego, quem tem olho nunca é visto.

por essa ordem de ideias, começo a acreditar que sou também um idiota.
bem, é sempre bom acreditar em alguma coisa.

não tem medo de estar a cometer um erro de abordagem?
não creio. que eu me lembre, só uma vez achei que errei, mas estava errado.

há quem irá ficar chateado com as suas opiniões.
não quero que as pessoas concordem comigo. isso poupa-me o trabalho de ter que gostar delas.

o senhor está a ser demasiado frontal.
meu filho, se eu tivesse duas caras, acha que eu estaria a usar esta?

de qualquer maneira, o senhor não está a ser muito diferente de ninguém. os seus raciocínios estão a ser um pouco rasos.
pode ser, adoro ser uma pessoa profundamente superficial. aliás, a minha filosofia de vida é muito simples: encha o que está vazio, esvazie o que está cheio. e coce sempre que sentir coceira.

Friday, April 08, 2005

mások okosabbak

"ááegyesek kétszer követiek el ugyanazt a hibát. mások okosabbak: új hibákat találnak, amiket elkövethetnek". (Edson Athayde)

não sei o que é que diz a frase acima. não sei que língua é. achei na internet, pesquisando o meu nome. apareceu no cabeçalho de um site, cujo domínio também é para mim completamente obscuro. primeiro achei que era polonês. sei lá eu porquê. mas também pode ser javanês ou qualquer outro idioma que termine em "ês", "usso" ou "trusco".

se alguém souber traduzir, por favor me informe. gostaria de saber afinal o que foi que eu disse que mereça ser traduzido e transformado em tantos “k”s “a”s e “e”s.

mas até que ficou bonitinho assim.

bom fim de semana e mások okosabbak para todos vocês.

Wednesday, April 06, 2005

guerra dos sexos

os cientistas descobriram que o cromossoma Y (aquele que permite a existência do sexo masculino) tem lá uma coisa qualquer que tende a provocar a sua perpetuação através dos tempos.

ou seja, é praticamente impossível a erradicação dos homens da nossa espécie. não deixa de ser uma boa notícia (embora as velhas feministas que queimam sutiãs talvez não achem lá muita piada).

o certo é que se a natureza (que sempre é muito hábil) determinou que os rapazes estão aqui para durar é por algum bom motivo. a existência do Brad Pitt é uma hipótese, mas não quero me alongar no assunto.

fui perguntar ao meu Tio Olavo quais eram para ele as verdadeiras diferenças entre os homens e as mulheres. ele respondeu-me assim:

Tio, o que se deve dar para um homem que tem tudo?
uma mulher para ensiná-lo como funciona.

por que é que as mulheres dizem que pilhas são melhores que os homens?
é que as pilhas têm sempre um lado positivo.

por que é que os homens querem casar com virgens?
é que eles não suportam críticas e comparações.

como é que se chama um homem interessante em Portugal?
turista.

por que é que Deus criou os homens?
porque os vibradores não cortam a relva.

por que é que apenas 10% dos homens vão para o céu?
porque se todos fossem seria o inferno.

o que é que as mulheres mais odeiam ouvir quando estão a ter sexo de boa qualidade?
«querida, cheguei!».

por que é que alguns homens na cama são como comida de microondas?
são 30 segundos e já está.

quando é que um homem perde 90% da sua inteligência?
quando fica viúvo.

e quando é que perde os 10% restantes?
quando morre o cão.

Monday, April 04, 2005

cinema mudo

antes de tudo, nada. ou melhor um pouco menos que nada. alguma coisa, portanto, sobre o próximo texto e outros que já vieram ou virão.

tenho uma especial pancada pela prosa poética. mais do que um efeito, é um defeito de quem escreve como eu.

acho bacana brincar com as palavras e contar histórias que vivem muito mais pelo seu aspecto sonoro do que pelo seu conteúdo propriamente dito.

tenho um prazer inenarrável de narrar as coisas mais banais do mundo, alinhando cada palavra como se fosse mais um fio de uma manta. acho que faço tricô, não acho, longe de mim, que faço literatura.

o caso a seguir é exemplar. conto mais uma vez o encontro/desencontro de dois amantes. é um tema recorrente. não me lembro de ter escrito uma história de amor com final realmente feliz. talvez porque não saiba escrever sobre o que não vivi.

aproveito também para fazer um glossário breve para que os leitores brasileiros não fiquem muito por fora: eléctrico (bonde); autocarro (ônibus); Charlot (Carlitos); Baixa (centro da cidade); Terreiro do Paço (Cinelândia/Praça da Sé); Carris (empresa pública de ônibus); peões (pedestres).

espero que curtam. e por enquanto é só, pessoal.


cinema mudo

se ele não entrar naquele eléctrico, ele que é tão racional, tão terra-a-terra, tão céptico, nunca vai ver, na outra esquina, a rapariga que vende flores embrulhadas em jornais.

ela, tão magra, mirrada, pequenina, fugira de um filme do Chaplin e jurara nunca mais voltar. a rapariga vive em câmara lenta, sempre com um solo de piano a sublinhar os seus gestos. passa a vida a olhar os carros que passam, as pessoas que passam, à espera do seu grande amor, de um homem que lhe dê valor, mesmo sabendo que ela é muda como nos filmes do passado, daquelas que falam com os olhos, acreditando por todos os poros, num ardor temerário, que o amor não é um filme falado, muito pelo contrário, que o amor é gesto e silêncio, é um momento sublime suspenso no vento.

se ele não entrar naquele eléctrico, não vai, numa obra do tal acaso, esse sujeito tão imprevisível e tão parvo, apaixonar-se pela rapariga das flores. não vai descer quatro paragens antes da sua, voltando correndo e suando para o Terreiro do Paço, com o coração aos saltos, esbarrando em homens altos que circulam pela Baixa com propósitos desconhecidos, talvez a caminho dos empregos ou apenas a fugir de medo, o que é normal entre aqueles que não sabem o próprio destino.

se ele não entrar naquele eléctrico, não terá motivo para, enquanto corre debaixo da chuva fina, repassar toda a vida. não lembrará do primeiro beijo, nem da última noite de desejo, nem o vazio da manhã seguinte, o cheiro de cigarro no quarto, aquela dor no peito, espécie poética de infarto, típica de quem está sentado na beira da cama, ao lado de uma qualquer fulana, perto de quem acaba de fazer amor mas longe de alguém que posse chamar de amor.

se ele não entrar naquele eléctrico, não vai, dali a pouco, trocar olhares de louco com a rapariga das flores. e ela não vai por um instante tão curto acreditar que o seu sonho absurdo finalmente se realizou. ela não vai seguir o movimento do eléctrico com a cabeça, esquecendo que está a atender uma freguesa que pedira três rosas, dois lírios e um cravo, um ramalhete que servirá de desagravo no encontro com uma paixão antiga, do tempo em que ainda era tão menina que nem tinha todos os dentes.

se ele não entrar naquele eléctrico, não poderá olhar pela janela, nem a rapariga das flores terá vontade de se levantar e correr atrás daqueles olhos febris, que circulam pela cidade num veículo amarelo da Carris, nem ficará afinal sentada, assistindo a tudo desesperada. ela não irá agarrar, transtornada, numa qualquer flor, nem irá ferir a sua mão nos espinhos, nem sangrará na calçada.

se ele não entrar naquele eléctrico, não terá motivos para sentir-se o melhor dos homens quando, depois de correr toda a rua Augusta, avistar do outro lado da praça a rapariga que vende flores e que saiu de um filme raro da cinemateca. nem, por isso, irá saltar distraído para a frente de um autocarro da linha Benfica-Marateca que perdera os travões. não irá ser atropelado e morrer. não irá ficar estendido na rua, motivo de pena e escárnio de anónimos peões.

nem terá o corpo coberto pelos jornais do dia enquanto não chega a polícia. nem irá emocionar-se, apesar de morto que está, quando a rapariga depositar sobre o seu peito todas as flores que teria que vender naquele dia. nem vai chorar, nem vai sorrir quando ela se afastar e decidir regressar para a sua velha fita. onde ao lado do Charlot vai tentar, sem conseguir, esquecer que um dia o seu grande amor encontrou.

se ele não entrar naquele eléctrico, nada disso vai acontecer. e a sua vida seguirá, sem graça, patética e vulgar, até morrer de velho, de gripe, de sarna ou de nada.

mas, graças a Deus, ele entrou.

Friday, April 01, 2005

"aqui há putas!"

ou "os dez mandamentos da publicidade"

para início de conversa, quero avisar que gosto de publicidade. ou melhor, de boa publicidade.

e que tenho pouca paciência para com quem decide colocar nos ombros da publicidade a responsabilidade de todas as mazelas do mundo.

mas, como em todas as actividades, a publicidade tem coisas boas e coisas más. não adianta fingir que os publicitários são todos uns poços de virtudes. e interessa-me discutir (desde que seja de maneira inteligente) os aspectos negativos dessa actividade.

foi com esse espírito aberto à crítica que li um interessante texto publicado num muito antigo livro, chamado "Análise Transacional da Propaganda", do publicitário brasileiro Roberto Menna Barreto.

propaganda no Brasil é um sinónino total da palavra publicidade. e é sobre a publicidade que Roberto faz os seguintes comentários:

«em que estão baseados, moralmente, nossos antigos valores e virtudes? na tradição judaico-cristã. é nesse pano de fundo que moralmente procuramos viver, e é mais ou menos em direcção a seus preceitos que procuramos educar os nossos filhos. alguém discorda?deixem-me colocar aqui um check-list: os Dez Mandamentos:

1) amar a Deus sobre todas as coisas;
2) não pronunciar o seu santo nome em vão;
3) guardar os domingos e dias de festas;
4) honrar pai e mãe;
5) não matar;
6) não pecar contra a castidade;
7) não furtar;
8) não levantar falso testemunho;
9) não desejar a mulher do próximo;
10) não cobiçar as coisas alheias.

são preceitos que podem sofrer, aqui e ali, alguma nova interpretação actualizadora, mas são, concretamente, os pilares da moralidade no mundo ocidental.

(.. )é lógico que a idolatria publicitária não diz: "mate! roube! desonre pai e mãe!", etc. a idolatria publicitária está em mãos de "abençoadas almas astutas". tudo é proposto marotamente, com pitadas de humor, malícia, permissão e criatividade. analisemos, por exemplo, à luz desses apelos tentadores, mandamento por mandamento:

1) nada de amar a Deus sobre todas as coisas. deve-se amar, sobre todas as coisas, ao bezerro de ouro: o produto. e também o seus sucedâneos irresistíveis: o sucesso, a riqueza. (...)
2) deus e seu santo nome são excelentes testemunhos, aqui e ali, para inumeráveis campanhas. e também os seus símbolos: padres a contabilizar lucros numa máquina de calcular; freirinhas sensuais; monges meio safados a beber o seu licor preferido; mulheres no confessionário a dizer "pequei", que invariavelmente arrastam para a farra o próprio confessor (...)
3) guardar os domingos e festas implica não só abster-se de trabalhar como, antes de tudo, em considerar tais dias santos. que diferença existe, para a idolatria publicitária, entre os dias santos e, digamos, os feriados? o mais santo dos dias da cristandade (o natal) é evento para uma saturnal pagã de vendas e saldos. (...)
4) pai e mãe são supostamente "honrados" no Dia do Pai e no Dia da Mãe. uma avalanche de sentimentalismo mercenário. (...)
5) É uma excepção. (...) a publicidade exprime interesses de uma sociedade que quer o indivíduo em contínuo esforço de trabalhar e comprar. nunca localizei na publicidade comercial, por "mais audaciosa", qualquer permissão para matar. (ao contrário, é claro, da propaganda de guerra.)
6) No comments. só há convites para pecar contra a castidade.
7) o lucro a qualquer preço, o "levar vantagem" sem especificar como é a permissão para qualquer falcatrua que passe despercebida.
8) no comments.
9) no comments.
10) no comments. mesmo!

os Dez Mandamentos são muito mais entendidos, e promovidos, por essas abençoadas almas astutas, na forma optimista que aparece num anúncio de lançamento imobiliário, de página inteira, publicado no Jornal do Brasil de 25 de Janeiro de 1979:

1) não trabalharás;
2) honrarás a paz;
3) não te aborrecerás;
4) deitarás e rolarás;
5) cochilarás à sombra;
6) bronzearás o teu corpo;
7) curtirás as ondas;
8) lucrarás nos negócios;
9) zelarás pelo teu dinheiro;
10) viverás feliz para sempre.

não me digam que estou a catar à unha casos isolados. essa é a moralidade promovida pela publicidade, e ponto.»

e ponto: é esse o pensamento do Roberto Menna Barreto. infelizmente, também é o meu.

a publicidade não foi feita para salvar o mundo. foi feita para extrair o máximo de lucro dele. podemos fazer isso de maneira mais ou menos honesta. mas, temos de assumir, não somos o Pai Natal.

diria mesmo que a mais antiga profissão do mundo tem alguma coisa a ver com a nossa. um dia, foi fundado o primeiro prostíbulo. nesse mesmo dia, alguém fez um cartaz a dizer "aqui há putas!" e colou na porta. eis o primeiro publicitário.

ou como diria o meu Tio Olavo: "Deus está em todas as coisas, até mesmo na publicidade. mas é o Diabo que negoceia a comissão."