Thursday, March 31, 2005

short curt

diálogo num notário

- bom dia. gostaria de dar um nome ao meu filho.
- pois não. e qual vai ser?
- sei lá, não pensei muito no assunto. que nomes o senhor tem?
- eu só tenho um: Adalberto. mas é meu. sinto muito, não posso emprestar.
- compreendo. tenho uma tia que se chamava Magali e emprestou o nome para uma vizinha que precisava dele para ir a uma festa. nunca mais o viu.
- emprestar o nome é um perigo. e como chamam a sua tia desde então?
- chamamos de Garibaldo, que é um nome que o nosso bisavô italiano deixou em testamento.
- Garibaldo até é um bom nome. rima com «caldo» e com «saldo», o que dá um certo jeito. mas voltando ao seu filho, como é que o vai chamar?
- o senhor tem alguma sugestão?
- hum, deixa-me ver...
- é isso! muito obrigado! é isso!
- isso o quê?
- Hum Deixa-me Ver da Silva! grande nome! pode registar.

Wednesday, March 30, 2005

as aparências enganam

pois é, meus caros, vou ser pai.

é que mais ou menos no final de maio, estará nas livrarias o meu quinto filho, digo, livro. vai se chamar "Os Trintões" e é a minha cara.

os textos são uma colectânea das melhores (na opinião de quem?) crónicas publicadas no Dna, do tempo em que eu lá escrevia sobre a vida dos homens de-trinta-e-tantos, mais alguns inéditos, mais alguns textos que publiquei dispersamente ao longo do anos, mas que achei serem pertinentes na composição dessa grande salada de frutas.

o livro vai ser meio auto-ajuda, meio autobiográfico, meio ficção desvairada, meio sim, meio não. meio muito pelo contrário.

vai sair pela Editora Palavra e já está a entrar na gráfica.

entretanto, segue abaixo um dos textos de abertura do livro para que você possa ter uma ideia da coisa toda. Trata-se de um texto publicado há quase três anos, mas que ainda não perdeu o seu prazo de validade. então vamos ao trailer da obra. e vá guardando já algumas moedas para comprar o livro inteiro.


as aparências enganam

o ecran ainda está a negro. ouvimos as primeiras batidas de uma bateria electrónica. a música é o antigo hit dos Simple Minds, "Don’t You Forget About Me". quando Jim Kerr, o chatíssimo vocalista da banda começa a gritar (ou a ganir, nunca percebi muito bem) a imagem aparece em fade. e aí começa o filme. aliás, na verdade, começa o filme da minha vida.

estou num ginásio, a correr numa passadeira como um rato num laboratório. corro de frente para um espelho a admirar as minhas belas formas. sim, sou tipo muito bem parecido, uma incrível mistura de Tom Cruise e António Banderas. a minha imagem é a do próprio sucesso: 36 anos, executivo bem sucedido, profissional multi-premiado.

ao meu lado, a frente e atrás, dezenas de gajas boas e gajos bons levantam pesos, suam um suor perfumado a lavanda, exibindo os seus corpos perfeitos para a câmara. enquanto corro, ouço no meu iPod alguns pop-rocks dos anos 80 e penso: se a minha vida fosse um filme, as imagens da primeira sequência, enquanto aparecessem os créditos com o nome dos actores, seriam exactamente assim. é nessa hora que eu piso no atacador do meu Nike preto, tropeço e caio.

quando levanto-me a música é outra. já não há os Simple Minds e sim um dos temas do "Música no Coração" (há uma velhinha no ginásio que só consegue se exercitar ouvindo o raio dessa cassete). as gajas boas e os gajos bons desapareceram e foram substituídos por um grupo de pessoas mais ou menos gordas, mais ou menos carecas, mais ou menos desesperadas em perder algum peso e ganhar alguma forma. eu também já não pareço o Banderas. pareço comigo mesmo. continuo a correr na passadeira. olho para a minha imagem no espelho e penso: "como é que eu me transformei no tipo que aparece a minha frente?

fui parar num ginásio mais ou menos como um condenado a pena de morte em que é dado uma última oportunidade de se regenerar. passei quase toda a minha vida a desprezar qualquer tipo de actividade física. o meu record foi chegar a pesar um pouco mais de 100 kilos (mais 20 do que o meu peso ideal) e, confesso, não estava assim tão preocupado com assunto.

quem tem trintas-e-meios tem uma certa tendência para se acomodar. o fulgor da juventude ficou lá para atrás, perdido num copo qualquer de vodka deixado vazio no chão de uma discoteca, depois de uma noite em que as coisas não correram assim tão bem (igual a não comemos ninguém) e em que você pára e pensa que já não tem mais idade para essas coisas e precisa se concentrar no trabalho, arrumar uma família e abrir espaço na pista de dança para os chavalos de vinte-e-poucos.

não é que você nunca mais vai sair, vai beber ou vai dançar. mas nunca mais deixará de pensar coisas como: "o que será que esses putos pensam ao ver um cota como eu aqui a rebolar? será que é pedofilia tentar rebocar aquela loira fabulosa que não deve ter mais que 16 anos? e, meu Deus!, como é que se dança essa música da Britney Spears?"

quem trintas-e-meios raramente está satisfeito consigo próprio. e muito menos com o seu corpo. um belo dia você acorda com uma hérnia de disco ou um princípio de diabetes ou com um fígado que já não pode conviver pacificamente com o uísque (que pena, eram tão amigos) ou com os cabelos a desaparecem da cabeça e aparecem abundantemente no nariz e no ouvido ou com uma apnéia do sono ou com stress (que os médicos diagnosticam quando não encontram nenhuma outra doença melhor para lhe oferecer).

uma parte dos de trinta-e-meios conforma-se alegremente quando aparecem esses primeiros sintomas. de uma forma ou de outra é sempre mais assunto para conversa ("vês, sou como tu, pleno de enfermidades no corpo e cicatrizes na alma"). outra parte, resolve virar a mesa.

o ponto da virada pode ser qualquer coisa (e quase nunca tem a ver com o corpo em si, fora os casos de saudades extremas de conseguir ver o pénis enquanto se toma um duche): é a descoberta que o casamento foi um erro; que a carreira escolhida foi um equívoco (mesmo nos exemplos de sucesso); uma paixão fulminante por alguém bem mais novo ou (a melhor de todas) levar uma bela encornada.

a consequência directa dessa crise pode ser a tentativa de fazer as pazes com o espelho. e que redunda numa via crucis que passa pela (re)descoberta tardia do desporto, por operações plásticas e lipoaspirações, sem falar nas malditas dietas (como diria o meu Tio Olavo: "a dieta é o self-service da infelicidade"). passa por ser gozado pelos amigos, espezinhado pelos colegas de trabalho, humilhado pela demora no aparecimento dos resultados.

na maioria das vezes tanto esforço dá em nada. a vontade de mudar é vencida pelo quotidiano, pelo sentimento de se estar a ser ridículo ou porque a sua paixão de vinte anos foi para um festival de música heavy metal acampar com gente da mesma idade dela e nem ligou para si.

depois disso o que sobra é voltar para a sua velha vidinha, é ir encontrar com os amigos barrigudos no bar e entre um copo e outro de Jameson admitir que tudo não passou de um grande equívoco. os seus amigos vão receber você de braços (flácidos) abertos e fingir que nada se passou. A única coisa que vão exigir é que você pare de usar brinco.

enquanto corro no passadeira, constato que sei que esse não será o meu caso. a verdade é que já perdi os 20 Kilos que estavam a mais (equivale a parir uma criança razoavelmente bem nutrida). como todos os bons trintões tento enganar os outros e iludir a mim mesmo a respeito da idade. tento enfiar o meu cérebro (que guarda tudo o que eu sei sobre a vida, tudo o que eu aprendi nesses quase quarenta anos de estrada) num corpo que não é o meu, no corpo de um jovem. talvez não seja a coisa mais bacana do mundo mas...

sorrio para o espelho. a câmara começa a se afastar. fico a espera que apareçam os créditos, afinal o filme está a acabar. mas, não, não aparecem créditos alguns. é que (essa é que é essa) o filme da minha vida ainda vai a meio.

e, constato agora, a história é óptima e o actor principal, além de bonito (e modesto), está para lá de muito bem escolhido.

Tuesday, March 29, 2005

sonhar não paga imposto

é verdade, sonhar não paga imposto, não engorda, não faz mal à saúde.

sonhar não é proibido (aliás, trata-se de uma das poucas coisas boas da vida que a lei permite e onde o Estado e a Igreja não interferem). sonhar é democrático, sonha o rico, sonha o pobre, sonha-se bem num colchão de penas e às vezes melhor no chão frio de uma calçada (o melhor sonho é o daquele de quem mais precisa).

sonhar não tem sexo, não tem complexo, não tem nexo. sonhar é como respirar, para fazer basta o ar.

qual foi o seu último sonho?

há quem sonhe com riquezas, há quem sonhe com amores, há quem sonhe com a fama, com o sucesso, com balões de gás amarelos, há quem sonhe que está a comer gelado de baunilha, com calda de chocolate quente, dependurado num trapézio, servido pela Vera Fischer nua.

qual foi o seu último sonho?

só não sonha quem não tem alma. dizem quem os porcos não sonham. já os cães sonham todos as horas, os gatos todos os dias, os passarinhos quando estão a voar. os índios não sabiam o que era o sonho, confundiam tudo, se calhar era por isso que eram tão felizes.

qual foi o seu último sonho?

o sonho é sempre uma hipérbole, um exagero, um paradoxo. o sonho do baixinho é que o planeta seja povoado só por anões. o sonho do feio é que não haja espelhos. o sonho da gorda é que o mundo acabe em mel para que possa morrer doce. o sonho do general é ser uma bailarina de can-can, estrela do Moulin Rouge. o sonho do idiota é ter asas (é por isso que se os cretinos voassem nunca veríamos o céu). o sonho do bispo saiu nua capa da última Playboy. o sonho da rapariga de olhar triste, que passa a vida na janela, casou com uma prima dentuça e ruiva e foi morar para Badajoz.

qual foi o seu último sonho?

algumas pesquisas atestam que sonhamos todas as noites, várias vezes, mas nem sempre lembramos. Victor Hugo dizia: "poucos trabalham para realizar os seus sonhos, a maioria apenas ressona." já Anatole France exclamava: "a loucura é o sonho de uma pessoa. a razão é, sem dúvida, a loucura de todos." por outro lado, La Fontaine afirmava: "cada um transforma em realidade tanto quanto pode dos seus sonhos."

qual foi o seu último sonho?

segundo Freud, nós somos o que sonhamos. por isso seremos tanto maiores quanto for o que projectamos. se sonhar pequeno, será insignificante. se nada sonhar, nada será. de compromissos com a realidade a sua vida e o inferno já estão cheios. aproveite para sonhar sonhos enormes, sonhos fantásticos, sonhos impossíveis. o máximo que pode acontecer é algum desses sonhos se realizar. mas aí, como em tudo na vida que vale a pena viver, o sonho deixará de ser sonho.

aliás, já agora, qual foi o seu último sonho?

Monday, March 28, 2005

outrora

antigamente, o antigamente era chamado de outrora.

bons tempos aqueles em que o passado tinha um nome tão bonito e sonoro. quem falava do outrora não falava de uma coisa qualquer. o outrora era sempre acompanhado de um suspiro fundo e uma afirmação de que algo já tinha sido muito melhor do que hoje.

como uma vez escreveu Milôr Fernandes: "falar do passado é falar do presente pelas costas." já falar do outrora é pior. falar do outrora é humilhar o presente, é deixar bem claro que ele não tem futuro nenhum.

junto com o outrora desapareceram hábitos e costumes tão bonitos como passear com a família depois da missa ou beijar a namorada no banco da praça, a ouvir uma banda a tocar no coreto. aliás, também desapareceram a praça, a banda, o coreto e a namorada fugiu com a mulher-barbada de um circo libanês.

nos tempos de outrora, tudo era perfeito. ou, pelo menos, parecia perfeito. o mundo ainda não era colorido e resistia em tons de sépia contra todas as maldades. as raparigas casavam virgens, os filhos respeitavam os pais, os compromissos eram feitos para serem honrados. nos tempos de outrora, o homem ainda acreditava em si mesmo. isso porque o outrora (como o homem) era um ingénuo. não surpreende que tenha sido extinto, como também vão ser extintos os papagaios, os golfinhos e os fãs da Barbra Streisand.

essa coisa do outrora faz-me pensar em para onde vão as palavras que caem em desuso. o que será que acontece com as palavras que, passados os seus momentos de glória, são relegadas ao esquecimento?

imagino se não serão recolhidas, como cães abandonados, por funcionários de uma qualquer repartição pública. e se lá, um dia, eles não travariam o seguinte diálogo:

- chefe temos um problema. fugiu o Outrora.
- não pode ser, Constantino. já é a quinta palavra que foge este mês.
- ainda conseguimos agarrar o Alvíssaras, o Homessa e o Catadupa. entretanto, tivemos que atirar à queima-roupa no Catatau. acho que ele feneceu.
- não pode ter fenecido. já ninguém fenece. no máximo morreu, faleceu, extinguiu-se, cessou de viver. o fenecer é que feneceu, há muitos anos. que péssimo exemplo, Constantino. francamente, usar a palavra fenecer depois dela já estar morta... são pessoas como você que tornam o nosso trabalho difícil.
- desculpe, chefe. é que estou nervoso. temo pelo pior só de imaginar que o Outrora está por aí, livre para actuar. o que iremos fazer?
- temos que ser radicais. carregue a sua pistola com alguns neologismos e vá já para a rua. traga-me o Outrora vivo ou morto.
- mas, chefe, valerá a pena? quanto mais palavras recolhemos, mais palavras temos para recolher. é como se a língua hoje em dia tramasse contra nós. isto já foi mais fácil. outrora...
- o que disse?
- eu estava a dizer que outrora...
- arrá! apanhei-te, calhorda! estás preso, Outrora. pensavam que me enganavam. mas sempre desconfiei que tu e o Constantino fossem cúmplices.
- e como soube?
- pelo nome. ninguém mais se chama Constantino hoje em dia.

ou, como diria o meu Tio Olavo: "outrora as coisas eram bem diferentes. para se ter uma ideia, o ar ainda era limpo e o sexo ainda era sujo."

Friday, March 25, 2005

realismo mágico

ele é um respeitável executivo. ela uma respeitável octogenária. a acção decorre toda dentro de um elevador.

- que horror!
- o que disse, minha senhora?
- que horror! que horror! um traque!
- um o quê?- não se faça de desentendido. o senhor sabe multo bem o que é um traque.
- claro que sei o que é um... um..., perdoe-me a expressão, um traque.
- tanto sabe que deu um. incrível, não se pode mais andar num elevador e vem logo um anormal a dar traques. no meu tempo...
- minha senhora, por favor, acha que eu tenho cara de quem dá traques.
- ah, quer dizer que o rapaz nunca dá traques?
- claro que dou... quer dizer, não dou muitos... desculpe-me, é um assunto embaraçoso de se tratar.
- embaraçoso é estar num elevador com um mau cheiro destes.
- sinceramente, não fui eu que dei coisa alguma.
- se não foi o senhor, quem foi?
- foi... foi... foi a senhora, pronto. é isso mesmo, foi a senhora.
- ah! além de javardo é mentiroso. que horror! que horror!
- não vejo piada alguma em debater este assunto. que situação! já agora este elevador está a levar séculos para chegar ao meu andar.
- não vai chegar tão cedo. o autor é um principiante. não tem controlo sobre a lógica narrativa.
- como?
- por favor, não se faça de ingénuo. acredita mesmo que seja possível uma octogenária respeitável como eu estar a falar sobre traques e ainda mais num elevador que nunca chega a lugar nenhum? é óbvio que estamos metidos num conto de um autor inexperiente.
- a senhora é louca!
- e o senhor é parvo. qual é o seu nome?
- o que é que tem o meu nome?
- não importa. responda-me, qual é o seu nome?
- é... é... é... que coisa! não me lembro do meu nome?
- bingo! o senhor não se lembra do seu nome porque o senhor não sabe o seu nome. o autor não referiu o seu nome na introdução deste conto. é essa a explicação.
- a explicação, minha senhora, é que eu estou nervoso com esta conversa, é por isso que eu não lembro do meu nome. a senhora é louca, este elevador é lento, aqui faz um calor insuportável e eu não estou a passar bem.
- aposto que comeu feijoada ao almoço.
- por acaso comi.
- eu sabia! vi logo pelo traque.
- oh, não! a história do traque outra vez?
- quer queira ou não, é essa a nossa história. repare bem: somos duas personagens estereotipadas. enquanto fios condutores de um drama, somos rasos como um pires. como diriam os ingleses, somos «flats. qual é o nosso passado? qual é a nossa real motivação para estarmos num elevador? você é casado ou solteiro? eu devo ser viúva. velhinha octogenária num texto cómico só pode ser viúva. mas por que tudo é encaminhado para que eu pareça uma louca desvairada? não tente responder. você não sabe. confesse. nem eu. que azar! caímos nas mãos de um autor incompetente. e muito hesitante. ele nem deve saber como é que vai acabar essa história.
- eu sei onde é que vai terminar. vai terminar comigo a sair do elevador e a chamar um manicómio para interná-la!
- é parvo! não vai fazer nada disso, porque a porta do elevador nunca vai se abrir. se o elevador se abrir o conto acaba.
- minha senhora, este assunto está encerrado.
- então está bem. ficarei calada. vamos esperar que a porta se abra.
- óptimo.
- hum, hum
- ...
- ...
- ...
- ...
- ...
- que demora!
- não disse?
- oh, meu deus! será que a senhora tem razão?
- meu filho, eu sou uma octogenária. não sabe que enquanto arquétipo os velhos representam a sabedoria?
- e será que não há uma maneira de sair desse pesadelo?
- bem, eu tenho uma teoria. imagino que a nossa história acabaria com um de nós a assumir a autoria do traque. como esse é o nosso único «plot» narrativo, o autor seria obrigado a dar o conto como encerrado. não sem antes introduzir um elemento qualquer tipo realismo mágico, uma coisa típica desses escritores moderninhos.
- então, está bem. pronto, fui eu que dei o traque! satisfeita? fui eu, sim! sou um depravado que come feijoadas e passa a vida como um sátiro a dar traques nos elevadores da cidade. além disso, uso roupa interior feminina. pronto. não vale mais a pena esconder a verdade. fui eu que dei o traque, sim senhora! dei e daria outro! daria não, dou! pruuuuuum!
- arrá! eu sabia! porcalhão! e eu aqui a ter que inventar esta história toda de literatura e personagens só para poder apanhá-lo!

foi nessa hora que a porta se abriu e o elevador foi invadido por uma legião de pigmeus canibais famintos. do executivo e da octogenária só sobraram os ossos.

Thursday, March 24, 2005

paul newman era em preto em branco

Marlon Brando era em preto e branco. João era em preto e branco. Ana era colorida.

James Dean era em preto e branco, como todas as coisas deveriam ser. João, por exemplo, era em sépia quando queria, mas nunca abusava do efeito, sabia que, mais cor menos cor, um homem poderia se pôr a jeito. já a Ana tinha a mania da policromia.

João não era um problema de impressão, era assim por opção, decidira ainda miúdo não ligar para as cores do mundo, não ser verde como a relva, nem azul como um sonho, preferia ser a imagem no espelho de um radical daltónico, retrato velho de um saudoso crónico.

já a Ana era pastel às quartas e quintas, ton sur ton segundas, terças e sextas, berrante aos domingos e aos sábados irreal arco-íris.

Bogart era em preto em branco, João também usava sobretudo e sobre tudo não tinha mais que uma pálida opinião. João era um tipo discreto, até meio cinzento, daqueles que não gostam de festas, não vão a bailes, usam galochas no invemo e tratam doenças com unguentos.

Ana era daquelas que se faziam notar, com suas roupas de hippie, cabelos ao vento, sandálias no ar. Era daquelas que se alimentam de risos, que já nasceram sem sisos, incapazes de pensamentos sombrios e torpes, que acreditam num mundo em technicolor, em amores de cinemascope.

João e Ana se encontraram por acaso numa exposição de pintura. João tinha ido interessado numa série de gravuras feitas em carvão. Ana, claro que não, só tinha olhos para um certo pintor impressionista.

o certo é que, como num cliché de uma gráfica antiga, os opostos se atraíram, não fosse cupido um irresponsável artista. e assim, Ana e João se apaixonaram em frente ao quadro daquele espanhol cubista.

no início a coisa até não correu mal. Ana pintou o sete com a alma de João. e ele imprimiu sombras na aguarela da amada, o que só tornou as suas cores ainda mais bonitas. mas, há sempre um mas, com o tempo aquela paixão enfim desbotou. João deixara de ser genuíno, já não era em preto e branco como a opinião de um menino. João tornara-se garboso como um pavão e passou a ter casos com raparigas de cartazes de oficina.

Ana ainda saiu com dois ou três cromos da bola só para fazer ciúmes mas mal conseguia disfarçar o seu negro azedume. Desesperada, viciou-se em tinta da china enquanto João andava enrolado numa lasciva e falsificada serigrafia.

um dia, vermelha de raiva, verde de inveja, amarela de desespero, Ana morreu de overdose com uma caneta tinteiro. João, em lágrimas, percebeu o erro mas era tarde demais. pálido com a perda do amor, ele que permitira se enfeitiçar pelo mundo da cor, deixou de se armar em bom, deu em maluco e em noites sem lua sai pelas ruas a ganir e a tentar explodir os cartazes Benneton.

Wednesday, March 23, 2005

aviso aos navegantes

então vamos lá, isso não uma escola de samba mas é chegada a hora de fazer um balanço.

primeiro, para quem já aqui veio, um beijo e um queijo.

alguns eu conheço pessoalmente. outros nunca vi nem mais gordos nem mais magros, o que é bom, pois isso de ficar sempre a mudar de peso não faz bem a saúde.

há, supreendentemente, brasileiros por todos os lados (thanks, Julio Hungria e o pessoal do BlueBus). há portugueses, como era de se esperar (saravá, Luís Gaspar). há até espanhóis. ainda não notei a presença de nenhum grego.

há quem deixe posts ou envia-me e-mails que eu, mal educadamente, raramente respondo. ou melhor, não respondo sempre que nada foi perguntado. cada um que diga o que bem entenda. eu, na modesta figura de autor, tenho mais é que enfiar a minha viola no saco.

aos elogios, fico grato. às críticas, faço as devidas reflexões.

aos amigos, mando um abraço. aos inimigos, a cadeia.

a maioria dos textos até agora publicados não é inédita. e nem era essa a intenção. estou apenas a recuperar crónicas, contos e outras irrelevâncias que foram publicadas anos atrás nas folhas de jornais que há muito já serviram de colchão para gatos ou embrulho de peixes.

como sempre trabalhei com criatividade, como sempre fui um gigolô de palavras (abenção, Luís Fernando Verissímo), aprendi que uma ideia quando boa deve ser vista e revista, visitada e revisitada. daí que não tenho vergonha de pegar em material antigo e apresentar a um público novo.

deve ser coisa de velho, é acho que estou a ficar senil, pois quase sempre quando pego num texto antigo ele parece-me novo. e se eu que escrevi não lembro do material, imagina quem leu tal coisa no jornal, a tomar café num domingo de manhã a curar a ressaca da noite anterior.

mas fica a promessa: de vez em quando publicarei aqui inéditos de verdade. só não prometo que sejam melhores do que os antigos.

e para terminar, um pedido: por favor, sempre que achar relevante, deixe aqui a sua mensagem. não há nada mais estimulante para quem escreve saber que existe pelo menos um leitor.

ou como diria o meu Tio Olavo: "para um bom actor, desde que haja uma pessoa a assistir, a plateia está cheia."

ps: ah, repondendo a uma questão que me foi enviada por um leitor brasileiro: os textos estão sempre publicados no português de Portugal, daí as diferenças nos acentos e na grafia de algumas palavras. claro que pelo meio há erros grosseiros (sou péssimo revisor de mim mesmo) e algumas liberdades de estilo. quaisquer dúvidas sobre o significado de uma palavra ou expressão idiomática, desde que solicitado, serão prontamente esclarecidas.

dar em doido

sou brasileiro, mas sou também o primeiro a concordar com a ideia de que o Brasil não é, boa parte das vezes, um país sério. já Portugal é diferente. Portugal é seríssimo. Às vezes sério até de mais.

às vezes de uma seriedade que beira o absurdo. está aí: o absurdo sempre me interessou.
deve ser por isso que sempre admirei o trabalho de Ionesco, o pai do teatro do absurdo. há um "quê" de Ionesco em Portugal.

Portugal é um bom País. diria mesmo que é um belo País. com um povo pacato e hospitaleiro. católico e respeitador dos bons costumes.

Daí que sempre fico surpreso quando Portugal enlouquece. nem é uma coisa que aconteça assim de maneira tão pouco frequente. a histeria nacional ocorre com cada vez mais assiduidade. e, nessas horas, Portugal parece ficar fora de órbita, como um planeta atingido por um pesado meteorito.

mesmo a língua parece outra: por mais português que se fale ou escreva, as ideias parecem todas fora de ordem, sendo impossível compreender os seus significados.

de uma hora para outra, regularmente, Portugal deixa-se de se preocupar com todas aquelas coisas normais com que os países se preocupam (a saúde, a economia, as drogas e a selecção nacional, para citar apenas as mais importantes e em ordem inversa) e põe-se a discutir qualquer outra coisa.

basta ler os jornais para se ficar com a ideia que, de absurdo em absurdo, Portugal vai caminhando para se tornar numa peça de Ionesco, onde palco e plateia se confundem. e onde fica cada vez mais difícil saber a hora que o pano vai descer para que possamos bater as palmas. como se desse vontade de bater palmas.

fui conversar o meu Tio Olavo sobre essas metafísicas questões. E ele deu-me as seguintes respostas:

Tio Olavo, qual é sua visão da actualidade?
o mundo está se tornando um hospício dirigido por loucos.

é o caso de Portugal?
O problema não é Portugal parecer cada vez mais um vasto hospício. o problema é que andam a faltar remédios.

defina-me a loucura.
a loucura é o sonho de uma pessoa. A razão é a loucura de todos.

e os loucos?
um louco é alguém que crê em tudo que vem à sua mente.

a loucura é uma coisa assim tão má?
nem sempre. mais vale um homem que expõe a sua loucura do que um que esconde a sua sabedoria.

acha que muito do que anda a escrever por aí nos jornais é uma amostra de loucura?
sim. ou de burrice. para qualquer burrice que você escreva encontrará sempre um burro para dar apoio.

e o senhor não é apenas mais um exemplo?
de certa maneira. mas isso não é um problema. toda gente é meio burra, só que em assuntos diferentes.

mas o senhor tem a mania de que é um intelectual.
e daí? já está provado: se você cortar a cabeça de um intelectual quase sempre ele morre.

Tuesday, March 22, 2005

o pato

ela era a rainha balzaquiana da teleculinária. ele apresentava o telejornal. ela conquistava as audiências da manhã com bolos fabulosos, pastéis e rissóis. ele ganhava a vida a falar com ar carrancudo sobre guerras, epidemias e defuntos. ela acordava cedo, depois dos desenhos animados. ele deitava-se tarde, nunca antes do fecho de emissão. ela era divorciada de Asdrúbal, o palhaço loiro e mudo, aquele que apresentava números sem graça no telecirco de domingo. ele tinha várias namoradas, incluindo a enfermeira chefe da série sobre médicos e a rapariga bonita da meteorologia.

os dois encontraram se por acaso num talk show noturno que debatia um tema qualquer obscuro. ela sentia-se só. ele, em plena meia idade, demasiado acompanhado. depois do programa foram tomar uns copos. ela falou do dia em que em frente às câmaras matou um pato. ele de como era amigo de secretários de estado. ela reparou que ele estava magro. ele de como ela ficava bem com aquele penteado. o empregado avisou que o bar ia fechar. ele fez questão de pagar a conta. ela convidou-o para jantar.

- olá, cheguei cedo?
- não. Entre e fique à vontade.
- e a sua amiga da SIC Mulher não veio?
- desistiu. algum problema do jantar não ser a três?
- prefiro assim. etesto multidões.
- o jantar está quase pronto.
- hum, que cheiro bom.. O que é?
- pato assado.
- estava a falar do seu perfume.
- ah... Chanel nº 5.
- mal posso esperar para prová-lo.
- calma. não vá rápido demais. há muito que não recebo um homem em casa.
- estava a falar do pato.

ele comeu como um rei e repetiu três vezes. ela bebeu demasiado vinho. ele revelou que estava cansado de apresentar o telejornal, que queria ser valorizado como um bom jornalista e não apenas mais um rosto bonito. ela não ouviu nada. estava concentrada naquela covinha charmosa que ele tinha no queixo. foram para a cama.

- foi bom para ti?
- sei lá, bebi demais. não penses que sou dessas.
- não penso nada. a noite foi óptima. há muito que não comia um pato como esse.
- a receita é da minha avó. o Asdrúbal não gostava
- ele é um palhaço.
- não fales mal do Asdrúbal que eu não gosto.
- estava apenas a citar a profissão dele.
- o Asdrúbal quando comia em casa nunca repetia.
- e além do pato do que mais ele não gostava?
- de mim.
- hum... posso repetir?

no dia seguinte ela estava de cabeça tão perdida que durante o seu programa ensinou a colocar pimenta numa receita de pudim flan. ele estava tão feliz que teve um acesso de risos enquanto lia a notícia da demissão de um ministro. ele passou a jantar na casa dela todas as noites. os sinais da paixão eram visíveis em ambos. ele cada vez mais gordo a apresentar o telejornal. ela com umas olheiras enormes em seu programa matinal. ele terminou com as outras namoradas. a rapariga bonita da meteorologia tornou-se numa triste. só falava de tempestades e de nuvens sombrias a sobrevoar o litoral. e a enfermeira chefe passou a deixar morrer um paciente atrás de outro.

um dia, ela foi surpreendida pela visita do Asdrúbal, o palhaço loiro e mudo. Asdrúbal, apesar do sorriso vermelho pintado na cara, chorava. dos seus olhos saíam esguichos de lágrimas. andava pelo apartamento a arrastar os seus longos sapatos, a derrubar coisas, a levar tombos involuntários. e a dizer, por gestos descoordenados, que estava arrependido e que queria voltar. ela, sensibilizada, perguntou se ele não queria ficar para jantar. fez um teste, assou um pato. asdrúbal comeu com prazer. repetiu seis vezes. e mais tarde na cama, idem.

- temos que terminar.
- o quê?!
- o Asdrúbal. ele pediu para voltar.
- aquele palhaço?
- a profissão dele não importa.
- mas quem falou de profissão? ele é um palhaço mesmo.
- não fales assim. estou confusa. acho que ele merece uma segunda oportunidade.
- não posso crer. mas o que ele faz por ti que eu não possa fazer?
- ele faz-me rir.

e foi assim que tudo terminou. sem os pratos saborosos que ela lhe fazia, ele voltou a emagrecer. cadavérico e feio, ganhou respeito e um prémio como jornalista do ano. casou-se com a rapariga da meteorologia, que desde então passou a só prever um bom tempo. ela abandonou o programa de culinária e passou a cozinhar apenas em casa. Asdrúbal, o palhaço loiro e mudo, pintou o cabelo de ruivo e passou a fazer números com imensa piada. a enfermeira chefe mudou se para uma telenovela venezuelana onde agora faz de freira. e o pato?

está óptimo, obrigado.

Monday, March 21, 2005

pálida polaroid

como um lampião num poste, ele era anacrónico. tinha uma timidez intrínseca, uma desesperança anímica e um ar levemente cómico. ela, ao contrário, já nasceu em berço esplêndido, boca, lábios siderados, pernas, coxas de marquesa, seios fartos, generosos como apóstolos numa santa ceia.

ele tropeçava em vírgulas, era gago e muito feio. apanhava na escola dos miúdos, dos valentes encartados, seis gonçalos, vários nunos e um talvez chamado pedro. ela dava certo em tudo, era a musa do recreio, frequentava os sonhos lúbricos de todos os caixa d'óculos, onde sempre aparecia nua e lívida, enigmática, uma mini-monalisa.

ele era anacrónico. fazia ilusionismo no intervalo das aulas para um escasso público: duas professoras gordas, um amigo cego e outro surdo. tranformava lenço em flores, tirava pombas da cartola, sem receber um simples aplauso, um elogio, uma gala. Houdini desencantado, deixou-se prender aos livros, gostava de Pessoa, de Eça, de O'Neill mesmo sem perceber palavra.

ela, ao contrário, era fútil, inconsequente. miúda rica, filha única de um demente, estava mal acostumada.

encontraram-se, por acaso, numa ida ao Gran Circo. ela de vestido e brinco, simplesmente um arraso. ele quase teve um treco só de ver tal epifânia, meio metro de beleza tão rara quanto estranha. e jurou amor para sempre, sem nem saber seu nome. mas sabendo lá por dentro que o que é do homem o bicho não come.

ela disfarçou o incómodo, sempre impávida e serena, assistiu ao espectáculo com a altivez de uma sereia. aproveitaram o entreacto para ir comprar farturas. ele num rompante de coragem aproximou-se da medusa. tocou no seu lindo braço e sorriu com o aparelho. ela desceu do pedestal, permitiu tal investida. apesar de tão miúdos, apaixonaram-se num segundo. deliram no espaço, esqueceram o pobre mundo.

ele era anacrónico. ela era estupenda. ele era desolado. ela era uma encomenda. ele era execrado. ela era um pesadelo.

encantados que estavam nem toparam o grande pânico. pipocas voaram pelo ar, gritos, corre-corre súbito. fugia lépido um leão, solto, livre, esfomeado. terror total na multidão. enquanto eles parados como um quadro, freeze frame da paixão. a fera aproximou-se rápido, pronta para dar o bote, engolir a rapariga, estraçalhar a pincesinha e arrotar seu laçarote. ele num gesto de magia, improvável Harry Potter, paralisou a grande besta. valente como nunca, agarrou a sua cauda e rodou no ar o mau leão, provocando a sua morte afogado num tufão.

ele levitou incrédulo. ela desmaiou de medo. perderam-se de vista ia a tormenta ao meio. nunca mais se encontraram. e os anos se passaram. ele seguiu com aquele circo, tal Mandrake redivivo, deu a volta ao planeta, só não voltou, no grande giro, a passar pela cidade. dela quis o destino pouco mais que o medonho. formou-se em contabilidade. casou, pariu, enviuvou. sem esquecer aquela noite do sorriso, da fera e do sonho. de como ela era tão menina. que ele tinha um aparelho. que ela era tão bonita. que ele era grande, bobo e feio.

mas, o que é o mais irónico, foi o único que ela amou. ele que era anacrónico. como um trenó no inverno. como uma pálida polaroid. como um conto de amor eterno.

Sunday, March 20, 2005

o homem de La Mancha

"o rapaz sem braços e sem pernas queria nadar. sonhava atravessar o Canal da Mancha".

durante anos essas duas frases não saíam da cabeça. acho que elas primeiro me ocorreram durante uma visita a Londres. e eu sabia que mais cedo ou mais tarde iria escrever uma história a partir delas.

não sei a quem interessa isso, mas a minha técnica de escrita tem muito a ver com essa coisa de ficar com uma frase solta na cabeça ou com uma palava cuja sonoridade me interessa ("inconstitucional" ou "paralelepípedo" são dois bons exemplos).

na maior parte das vezes a frase vem e a história demora a vir. porém no dia que aparece, dá o ar da sua graça inteirinha.

o meu tempo normal de escrita de um conto é mais ou menos duas horas. sento-me ao computador e numa espécie de "jam" escrevo sem parar, sem saber para onde a história vai me levar. não sei o que vai acontecer na linha seguinte, não faço a mínima ideia sobre quais são as reais dimensões dos personagens. eles são para mim apenas palavras em movimento, pelo menos enquanto o conto não está terminado.

aí vem o fim. ele aparece, não sou eu que decido. acho ele bom quando me supreende. e aí releio tudo. mudo uma ou duas palavras. procuro um título. fecho a loja.

o conto em questão ( e que reproduzo a seguir), primeiro foi publicado com o título de "Longe é um Lugar que Não Existe", paródia do nome de um livro que fez grande sucesso nos anos setenta e que tentava convencer as pessoas que se tivessem muita fé em si mesmas poderiam tudo, até atravessar as paredes.

muitos anos depois, achei que "O Homem de La Mancha" era um título melhor para esse conto. e é assim que aqui ele aparece. espero que ache que os anos em que a frase original ficou marinando na minha cabeça tenham sido os suficientes para resultar numa boa história.

o homem de La Mancha

o rapaz sem braços e sem pernas queira nadar. sonhava em atravessar o Canal da Mancha. queria mesmo bater o recode mundial dessa travessia. e por isso ele podia ser visto pelas manhãs nas margens do canal a passear na sua cadeira de rodas prateada. era nesses passeios que ele treinava. dava braçadas ilusórias contra ondas irreais. não tinha braços, não tinha pernas, mas tinha sonhos.

o rapaz não tinha pais, parentes, descendentes. a sua única companheira era uma enfermeira, gorda como uma baleia. era ela que empurrava de cá para lá, de lá para cá a sua cadeira. gostava de levá-lo para passear no canal por causa das gaivotas e dos ventos. havia lido, nuns quaisquer documentos, que os espaços abertos contribuíam para a tranquilidade de uma alma sofrida. nem imaginava as intenções secretas do pobre rapaz. de qualquer maneira, pensava, "passear mal não faz". a enfermeira, além de gorda, também se achava muito sabida.

passados alguns anos, o rapaz sem braços e sem pernas já era um atleta. nadara milhares de quilómetros dentro da sua cabeça. ganhara medalhas de ouro, prata e bronze, todas atribuídas por um juiz que existia apenas em seu cérebro. e por mais que pareça absurdo, dentro do seu ranking etéreo, ele ocupava o primeiro lugar do mundo.

um belo dia, o rapaz sem braços e sem pernas cansou da ilusão. se ele queria atravessar o canal, teria que cair na água, sair do chão. faria isso de qualquer maneira, contra tudo, contra todos, contra a enfermeira. ele não tinha braços, nem pernas, mas era um homem duro. e depois de tantos anos de treino, sentia-se seguro. conhecia cada palmo da Mancha, sabia que se o seu desejo fosse verdadeiro, se a sua vontade fosse muita, poderia atravessar o canal e ser recebido na outra margem com uma grande festança. e então não seria mais o rapaz que braços e pernas não tinha, seria um herói nacional, mundial, interplanetário. dedicaria a vitória a todos os que ultrapassaram barreiras algum dia. e mostraria que, mesmo sem metade do corpo, estava no páreo.

a enfermeira nem viu quando o rapaz, a utilizar apenas a força da mente, soltou o travão da cadeira, que saiu ladeira abaixo em desabalada carreira. não demorou a cair na água. e então o rapaz sem braços e sem pernas descobriu o que era um mergulho de verdade. sentiu as ondas a acariciarem-lhe o corpo, a deixarem-no louco. nesse momento ele tornou-se um puro de espírito, um ser sem vaidade. riu, sorriu, gargalhou. o seu sonho mais secreto tomara-se verdade.

foi aí que o rapaz deixou de ser ele mesmo e passou a simbolizar todos nós, a representar na sua débil estrutura os nossos mais íntimos desejos, as nossas mais estúpidas loucuras. ele iria atravessar o Canal da Mancha não mais para ganhar um prémio, para vencer uma aposta, nem porque gosta, ele iria fazer aquilo como um santo moderno para salvar-nos do inferno.

e, pela primeira vez em décadas, parou de chover na Mancha e os raios de um sol muito forte iluminaram as águas. quem lá estava relata, talvez num exagero de prosa, que as nuvens tornaram-se algumas azuis e outras cor de rosa. é pouco provável, mas o rapaz pensou ter visto um golfinho a indicar-lhe o caminho. e ao mover a cabeça, ao girar o tronco, ao agitar o dorso, bendito seja, encontrou a paz necessária para cumprir o seu destino, para sentir-se uno, para sentir-se inteiro, para sentir-se todo.

levaram uma semana para encontrar o seu corpo.

Thursday, March 17, 2005

bilíngue

o homem com duas línguas falava de mais.

o problema é que uma das suas duas línguas só falava estrangeiro, era poliglota. a outra traduzia em simultâneo, tornando as conversas com ele numa estranha experiência auditiva, como se estivéssemos a bater papo com uma entrega do óscar ou uma sessão da ONU.

o homem com duas línguas ainda tentou ser locutor de uma rádio pirata, cantor de casamentos, provador de vinho do Porto. mas não deu. por um desses tristes azares do destino, tipo Deus escreve certo por linhas tortas, eis que o homem com duas línguas também era gago.

o fracasso fez degenerar o seu carácter. na falta do que dizer de si mesmo, tomou se bufo, o que não teria nada de errado não fosse ele parar várias vezes ao hospital por estar sempre a dar com a língua nos dentes.

foi num desses internamentos que ele encontrou um jornalista inglês que o levou para Londres para participar num reality show televisivo. foi lá, no programa, ao lado do homem com cinco orelhas e do rapaz de três rabos, que ele descobriu a mulher com duas vaginas.

foi amor à primeira vista. Sairam do estúdio directo para a cama. hoje o casal vive num subúrbio parisiense com a mulher a trabalhar como prostituta. como tem dois sexos, factura o dobro e cansa-se a metade.

quanto ao homem com duas línguas, vive calado mas vive feliz.

tolices - II

seguem mais e melhores tolices. ou como diria o meu Tio Olavo: "errar é umano".

"esta nova terapia traz esperanças a todos aqueles que morrem de cancro a cada ano."

"apesar da meteorologia estar em greve, o tempo esfriou ontem intensamente."

"os sete artistas compõem um trio de talento."

"a polícia encontrou no esgoto um tronco que provém, seguramente, de um corpo cortado em pedaços. e tudo indica que este tronco faça parte das pernas encontradas na semana passada."

"a vítima foi estrangulada a golpes de facão."

"um surdo-mudo foi morto por um mal-entendido."

"os nossos leitores nos desculparão por este erro indesculpável."

Tuesday, March 15, 2005

tolices jornalísticas - I

ainda sou um caloiro nessas lides da blogosfera.

confesso que durante muito tempo não tive muito boa opinião dos blogs e coisas afins. é natural. uma das boas coisas de se ficar velho é não gostar de nada que seja novidade. o que dá imenso jeito, tendo em vista que nem tudo o que é antigo é mau como nem tudo o que é novo valhe a pena.

essa posição pode parecer meio reacionária. e é. mas vamos lá, não deixa de ser uma prova de alguma abertura intelectual render-se a uma coisa que antes só sabia dizer mal.

e olha que não tenho nada contra a internet, muito pelo contrário. já tive empresas na área na época do boom e, claro, perdi muito dinheiro com elas. mas valeu a experiência. agora prefiro investir a minha grana em viagens. adiante.

tudo isso para contar uma história bem exemplar de como as coisas se processam no espaço virtual.

há quase dez anos, escrevi uma crónica no diário de notícias sobre os equívocos factuais ou de linguagem que os jornais cometem no dia a dia. para ilustrar o raciocínio, transcrevi uma série de títulos de jornais que, apesar de reais, beiravam a estupidez. esses tais títulos vieram do livro de um francês que agora não recordo o nome. mas lá na crónica original constava tudo, o nome dele, o do livro, acho até que o da editora.

passados alguns dias, fazendo uma pesquisa de rotina com o meu nome na internet (é, eu faço isso com frequência, mas isso já é assunto para outra crónica), encontrei alguns links para páginas onde estava parte da minha crónica, os tais títulos de jornais imbecis, para ser mais exacto. em nenhuma constava o nome do francês. em todas eu era apresentado como o autor da pesquisa.

passadas mais algumas semanas, os links já estavam na ordem de algumas dezenas. uma grande maioria era (sei lá eu a razão) de sites brasileiros.

mais algum tempo e descubro um texto publicado no jornal O Estado de São Paulo, assinado pelo Mário Prata, uns dos maiores cronistas do Brasil, onde a tal lista de títulos aparecia, dando a entender que eu havia enviado para ele. infelizmente, apesar até de o conhecer (embora ele, de certeza, não se lembre), nunca tive intimidade com o Mário para tanto.

pouco depois, estou a assistir o programa do Jô Soares no GNT e o gordo diz que recebeu um e-mail de um tal de Edson Athayde, de Portugal, com uma série de títulos engraçado que haviam saído no jornal Diário de Notícias. a coisa deve ter feito sucesso, pois em pelo menos mais duas ocasiões a rábula se repetiu. eu nunca enviei e-mail nenhum para o Jô.

e a coisa continua. cada vez que vou no Google há mais e mais sites com os tais títulos. já vão em centenas, alguns em inglês, espanhol e francês.

acho estranho como uma simples colecção de frases deu tal volta ao mundo. acho mais estranho ainda eu ter me tornado pesquisador de jornais para um sem número de pessoas. mas assim é a internet. o que eu hei de fazer?

bem, no mínimo, republicar aqui uma parte das tais frases (o restante segue outro dia). quem sabe você também não goste. e envia para cada vez mais gente. por exemplo:

"parece que ela foi morta pelo seu assassino"

"ferido no joelho, ele perdeu a cabeça."

"os antigos prisioneiros terão a alegria de se reencontrar para lembrar os anos de sofrimento."

"a polícia e a justiça são as duas mãos de um mesmo braço."

"o acidente fez um total de um morto e três desaparecidos. teme-se que não haja vítimas."

"o acidente foi no tristemente célebre Rectângulo das Bermudas."

"este ano, as festas do 4 de Setembro coincidem exactamente com a data de 4 de Setembro, que é a data exacta, pois o 4 de Setembro é um domingo."

"o tribunal, após breve deliberação, foi condenado a um mês de prisão."

"quatro hectares de trigo foram queimados. a princípio trata-se de um incêndio."

"o velho reformado, antes de apertar o pescoço da sua mulher até à morte, suicidou-se."

"no corredor do hospital psiquiátrico, os doentes corriam como loucos."

"ela contraiu a doença na época em que ainda estava viva."

"a conferência sobre a prisão-de-ventre foi seguida de um farto almoço."

"o acidente provocou uma forte comoção em toda a região, onde o veículo era bem conhecido."

"o aumento do desemprego foi de 0% em novembro."

"o cabrito-montês ficou morto na estrada durante alguns instantes."

"à chegada da polícia, o cadáver encontrava-se rigorosamente imóvel."

"as circunstâncias da morte do chefe de iluminação permanecem rigorosamente obscuras."

"o presidente de honra é um jovem septuagenário de 81 anos."

"é uma bela obra, de onde parecia exalar toda a fria tristeza da estepe gelada. foi executada com um calor magistral."

"depois de algum tempo, a água corrente foi instalada no cemitério, para satisfação dos habitantes."

(continua)

Monday, March 14, 2005

velho é a avozinha

(a maioria d)as pessoas são como os espelhos, reflectem sem pensar.

não estou livre desse vício. mas, confesso, com a idade, aprendi a pensar menos e, em contrapartida, a tentar pensar melhor. o que não deixa de ser contraditório.

dizem que a velhice traz sabedoria. a mim está a trazer apenas rugas, gorduras localizadas e dúvidas inteiramente novas.

estou naquela fase a que os mais novos chamam meia-idade e os mais velhos chamam período produtivo. mais uma vez, os termos e as expressões não dizem nada. não me sinto a meio caminho de coisa nenhuma (muito menos, no caso, do túmulo) nem acho que ando a produzir muita coisa.

envolto neste mar de questionamentos, fui falar com o meu tio Olavo. sábio como sempre, ele deu-me algumas respostas.

Tio Olavo, o que é ser adulto?
o adulto é uma criança recheada de idade.

tem saudades da sua juventude?
às vezes. tudo era mais fácil. um jovem não precisa de razões para viver, apenas de pretextos.

isso quer dizer que era um jovem feliz?
juventude e felicidade são conceitos antagónicos. o jovem vive tão intensamente que não pode ser feliz o tempo todo. isso da juventude ser feliz é uma invenção dos velhos.

e é bom ser velho?
nem tanto. hoje em dia, o único respeito que se tem para com os mais velhos é quando eles vêm engarrafados.

é assim tão mau?
um bocado. mas de qualquer maneira, envelhecer é ainda o único meio que inventaram para se viver muito tempo.

tudo isso também é válido para as mulheres?
uma mulher de 45 anos parece sempre mais velha do que um homem de 45. e sabe porquê? porque, na verdade, ela é.

explique-me melhor a influência da idade nas mulheres.
aos 20 anos, a mulher é instável, como a Ásia. aos 30, é ardente, como a África. aos 40, é pragmática, como a América. aos 50, está fora do circuito, como a Austrália. aos 60, ela debruça-se sobre o seu passado e lamenta não ter aproveitado a vida, como a Europa.

o que é a terceira idade?
é quando você precisa de usar óculos até para ouvir rádio.

e qual é a verdadeira diferença entre as idades?
os velhos crêem em tudo; as pessoas de meia-idade suspeitam de tudo; os jovens sabem tudo.

interessante.
Isso faz-me lembrar um poema, que diz o seguinte: às vezes fico aflito./nada faz sentido./quanto mais cresço,/menos o mundo cabe//no meu umbigo.

para finalizar, quer dar algum conselho?
torna-te velho cedo, se queres ser velho por muito tempo.

Saturday, March 12, 2005

más notícias

afinal, o que é a publicidade?

nos mais de vinte anos que tive de carreira publcitária, li e ouvi centenas de definições.
algumas fazem mais sentido do que outras. todas tentam de alguma maneira explicar o que é essa coisa que entra na nossa casa, nos nossos olhos, orelhas e bocas sem pedir ao menos licença.

que tal essa definição do finado comunicólogo e guru canadiano Marshal McLuhan: "os anúncios são notícias. o mal é que são sempre boas notícias. é por isso que os anúncios têm de gritar a sua mensagem feliz em voz alta e clara, a fim de contrabalançar o penetrante poder das más notícias que o circundam."

McLuhan costumava ter razão no que dizia. foi ele que inventou o jargão "aldeia global" para definir o impacto que o desenvolvimento dos meios de comunicação provocariam na vida do planeta. e isso, décadas antes de inventarem a Internet e de alguém falar mal ou bem da globalização. na sua definição, McLuhan faz uma clara comparação entre as notícias dos jornais e as "notícias" publicitárias.

diferente do jornalismo, onde o que interessa é a ruptura com o normal, a publicidade tem por hábito tentar "vender" um mundo bom. ao jornal não interessa o avião que não caiu. à publicidade interessa justamente o contrário: destacar com todas as letras que os aviões da companhia Y ou X nunca caíram.

por conviverem no mesmo espaço (seja na TV, no rádio ou na impressa escrita) a publicidade e o jornalismo acabaram por criar uma relação clara de interdependencia. não, não estou a falar do velho lugar comum de que é o dinheiro da publicidade que financia a actividade jornalística. o que estou a dizer é que muito do impacto da publicidade reside simplesmente em trazer o belo, o mítico, o simbólico, o positivo, como se fosse uma aspirina, para quem vive confrontado com a dura realidade do dia-a-dia.

no mundo da publicidade clássica todos os membros das famílias amam-se uns aos outros (noras e sogras incluídas). os cães são simpáticos. as casas são bem decoradas. as roupas estão sempre bem passadas. as crianças não são terríveis monstrinhos. até mesmo nos anúncios cómicos (inclusive naqueles onde as situações negativas são elevadas ao exagero, onde os personagens são caricatos, onde os cenários são surrealistas) o que interessa é que os problemas têm sempre uma solução, na forma de um produto ou serviço.

de certa maneira, a publicidade funciona como as fábulas infantis. por mais que o lobo coma a avózinha haverá sempre um caçador para entrar na história e provocar um final feliz. outro possível ponto de comparação em termos de narrativa são as telenovelas.

o telespectador habitual de telenovelas sabe que, por mais confusões que aconteçam, os maus personagens serão, via de regra, punidos no final e os bons serão recompensados. muito do choque causado pelas campanhas da Beneton teve a ver com isso. teve a ver com a invasão de um espaço reservado para as boas notícias no nosso admirável mundo cão.

vou dizer uma coisa terrivel: quanto piores forem as coisas na vida das pessoas mais eficaz é a publicidade.

duvida? então tente explicar porque resultam os anúncios de remédios milagrosos, de astrólogas que vêem o futuro, de paranormais que ensinam como ganhar na lotaria. esses anúncios, que para si não representam nada, podem ser a última esperança na vida de muita gente. claro que estou a falar numa situação limite. mas que representa muito da realidade de qualquer anúncio.

ou como diria o meu Tio Olavo: "com boa publicidade as pessoas acreditam até em ovo quadrado."

como vai, vai bem?

a história é brasileira, mas penso que pode alguma ter graça contada em portugal.

nos anos 50, houve um presidente brasileiro chamado Dutra. rra um marechal gordinho e bonacheirão. na época os EUA estavam em plena política de boa vizinhança com a América do Sul. e o então presidente americano Truman foi ao Brasil fazer uma visitinha.

o problema é que o marechal Dutra não falava inglês. na verdade, o marechal Dutra não entrou para a história exactamente pela sua inteligência. Truman já sabia disso e foi instruído a não tentar fazer grandes conversas com o marechal. Truman tencionava apenas fazer curtas perguntas retóricas que não exigissem como resposta mais do que um inglês instrumental.

e foi assim que, mal avistou o marechal Dutra no sagão do aeroporto do Rio de Janeiro, Truman estendeu-lhe a mão e disse com aquela simpatia artificial tipicamente americana: "how do you do, Dutra?" e Dutra, com um ar ligeiramente assustado, respondeu: "how tru you tru, Truman?"

perguntas retóricas. sempre fui encantado pelas perguntas retóricas. não servem para grande coisa. mas ao mesmo tempo não podemos viver sem elas.

o melhor exemplo são os cumprimentos. todos os dias falamos para alguém: "como vai, tudo bem?" até parece que realmente queremos saber como vão as coisas com os outros. mentira. estamos literalmente nas tintas com relação à vida da maioria do planeta.

"como vai, tudo bem?" a resposta é invariavelmente: "tudo bem." o que não passa de mais retórica. nada vai bem. ou, pelo menos, nem tudo vai bem com ninguém. há sempre uma avó que caiu da escada, um flho adolescente que passou 15 horas ao telefone numa linha erótica e produziu uma conta telefónica de dois mil contos, um cunhado que decidiu morar na sua casa e passa a vida a passear de cuecas pela sala, um cão que mordeu um vizinho que, em represália, pasou a ameaçar moder a sua empregada.

imagine se as pessoas passassem a responder com sinceridade ao "tudo bem?" num instante ninguém mais perguntava. apenas responderíamos com um "bom-dia" seco e sairíamos correndo com medo de ter que ouvir as mazelas alheias.

e a maneira como atendemos o telefone em portugal? faz algum sentido perguntar a quem está do outro lado da linha "estou?". essa pergunta se for levada ao pé da letra deixa de ser retórica e passa a ser filosófica. "estou ou não estou, eis a questão.""estou, sim, logo existo." se não estivéssemos ao telefone poderíamos perguntar se estávamos? claro que não. a não ser que não estivéssemos nunca, que o universo, o tempo e a história não passassem de uma grande abstração, que a nossa existência fosse apenas a invenção de um autor vanguardista com pendores para a metafísica e, assim, seríamos apenas o atendedor de chamadas de nós mesmos.

as perguntas retóricas podem levar as pessoas ao delírio. é o caso de quando falamos com os bebés. quantas vezes não nos viramos para um sobrinho recém-nascido e perguntamos: "então, estás com saudades do tio?" quando indagamos isto estamos à espera do quê? o pobre miúdo só sabe chorar, comer, defecar e dormir. o máximo que podemos ter como resposta é um arroto.

que, por acaso, também será apenas retórico.

Friday, March 11, 2005

a última valsa

há coisas que parecem que acabam, mas na verdade nunca terminam.

desaparecem, mas voltam, morrem, mas ressuscitam, desafiando as leis da lógica, da física, da metafísica.

o ser humano tem a mania de ser moderno. como se ser moderno ou, pelo menos, ser modernista, não fosse por si só uma coisa do início do século passado.

e para ser moderno é preciso estar sempre a inventar qualquer coisa nova em contraposição a uma antiga. já dizia Napoleão: "os homens são melhor governados pelos seus vícios do que pelas suas virtudes." faz sentido. se o homem fosse lógico, ficava na mesma. não inventava o progresso e todas as suas maravilhosas consequências como o tamagotchi e a telepizza.

o problema é que aprendemos a trocar de hábitos, de roupas, de penteados como se isso mudasse o que somos por dentro. e o que somos por dentro? em realidade não somos lá grande coisa. posso garantir que é impossível sentir algum tipo de atracção sexual ou admiração intelectual pelos rins de quem quer que seja.

não nos enganemos. o mundo é um eterno retorno. damos cada passo para a frente apenas para disfarçar os dois passos que demos para trás. as coisas voltam, as coisas voltam. e é por isso que acho que ainda vamos acabar todos num grande baile de valsa.

não vai ser hoje, porque essas coisas levam o seu tempo. primeiro, vamos ter de enfrentar mais alguns anos de U2 e de Fafá de Belém. mas depois vai ser a vez da valsa.

tenho provas concretas disso. outro dia, liguei o rádio e ouvi uma valsa. dito assim, parece a coisa mais simples do mundo. mas não é. é assim que tudo começa. lembra-se quando você ouviu a "Macarena" pela primeira vez? pois é. quem me garante que a valsa não voltará a ser dança da moda?

supostamente, a valsa já foi extinta, como os dinossauros ou os mamutes, e substituída por coisas mais nobres e desenvolvidas, como a salsa e a dança da garrafa. de certa maneira, eu nem deveria saber o que é uma valsa. nem você. talvez a sua avó tenha valsado com naturalidade. provavelmente, a tentar controlar aquela mão atrevida do seu avô. mas o tempo e a história não nos deram este direito. já nascemos com a valsa completamente anacrónica e a cheirar a bolor.

mas o que eu sei é que outro dia no meu rádio tocou uma valsa. o "Danúbio Azul" para ser mais exacto. e a verdade é que eu sabia a sua melodia inteirinha. eu que mal consigo trautear uma canção dos Beatles.

lembrei-me então de um texto do melhor cronista americano de todos os tempos, chamado H. L. Mencken, que há quase 100 anos escreveu: "a valsa nunca sai completamente de moda, fica apenas de tocaia; de vez em quando, faz um triunfal regresso, para tormento e corrupção da pureza química. (...) A valsa é, na verdade, magnificamente indecorosa, porque torna lúbrico o espírito. arrisco-me a dizer que as composições de Johann Strauss já fisgaram mais rapazes e moças do que todos os astros de cinema e caçadores de escravas brancas desde a queda do império romano. há algo de irresistível na valsa. aplique-a na mais gorda e patusca ou na mais magra e ácida das mulheres; e em dez minutos ela estrará pronta para o mais clandestino beijo atrás da porta."

se calhar é disso que o mundo precisa. de um bocadinho de valsa. um mundo com valsa é um mundo com algum pudor. é um mundo que cora ao mais pequeno indício de pecado. e que ainda acredita que certas coisas até podem ser feitas, mas não podem ser ditas.

de qualquer forma, se mais cedo ou mais tarde, a Coréia ou os EUA vão atirar bombas atómicas sobre o planeta e provocar o apocalipse, sempre seria mais bonito que isso acontecesse ao som de uma valsa, a última valsa.

rodopiaríamos entre as ondas de radiação até sermos engolidos pelas fendas que se abririam no chão. ou até a orquestra acabar o tema e passar a tocar o último sucesso do Roberto Carlos.

ou como diria o meu Tio Olavo: "dançar valsa é uma das duas melhores coisas do mundo. e a única que dá para fazer com roupa."

elogio à loucura

vivo a dizer que uma coisa é ser sério, outra é ser sisudo.

um pouco de leveza nunca fez mal a ninguém. só assim é que dá para toca a vida sem criar cabelos brancos até debaixo do braço.

outro dia, enviaram me um e mail que mais ou menos ensina como viver mantendo um nível saudável de insanidade. é um manual que não deve ser seguido à risca, mas que traz algumas boas sugestões como:

1) no seu horário de almoço, sente-se no seu carro estacionado, coloque óculos escuros e aponte um secador de cabelos para os carros que passam. veja se eles diminuem a velocidade.

2) encoraje os seus colegas de escritório a fazer uma dança das cadeiras sincronizada consigo.

3) insista que o seu e mail é xena.princesa.guerreira@telepac.pt ou elvis.o.rei@hotmail.com

4) coloque a sua lata de lixo sobre a mesa e cole uma placa a dizer "entre, se faz favor" nela.

5) sempre que alguém lhe pedir para fazer alguma coisa, pergunte se quer batatas fritas a acompanhar.

6) sempre que alguém lhe falar alguma coisa, responda com "isso é o que você pensa".

7) termine todas as suas frases com "de acordo com a profecia".

8) escreva sem usar maiúsculas ou qualquer tipo de pontuação.

9) sempre que possível, salte ao invés de andar.

10) pergunte às pessoas de que sexo elas são. ria histericamente depois que elas responderem.

11) descubra onde o seu chefe faz as compras e compre exactamente as mesmas roupas. use-as um dia depois do seu chefe usá-las. isso é especialmente efectivo se o seu chefe for do sexo oposto.

12) coloque uma tela de mosquitos ao redor do seu posto de trabalho. toque um CD com sons da floresta o dia inteiro.

13) com cinco dias de antecedência, avise aos seus amigos que não pode ir à festa deles, porque "não está no clima".

14) faça os seus colegas de trabalho chamarem-lhe pelo seu apelido, que é "Duro na Queda".

15) quando sair de um banco, grite.

16) sempre que o seu chefe pedir uma opinião, depois de responder acrescente: "garantem-me as vozes na minha cabeça."

17) na hora do jantar, anuncie para os seus filhos: "devido à nossa situação económica, teremos de mandar um de vocês embora."

18) todas as vezes que você vir uma vassoura, grite: "amor, a sua mãe chegou!"

19) ao sair do prédio da sua empresa, corra na direcção do parque de estacionamento sempre a gritar: "salve se quem puder, eles estão soltos."

20) mande um e-mail com uma cópia deste texto para toda a sua lista de endereços, mesmo que eles tenham pedido para você não mandar e-mails como este.

amigo, siga essas instruções. seja insano e seja feliz.

11 de Março

passado apenas 1 ano desde o atentado de madri, a ideia que se tem aqui no burgo é que o mundo está em paz e não há mais ameaça alguma no ar.

tanto é verdade que praticamente não se falou no assunto durante as recentes eleições. estamos, aparentemente, no lugar mais seguro do mundo, que é em cima do muro. onde, provavelmente, as bombas do senhor George W. Bush e do senhor Bin Laden não chegam.

deve ser por isso que leio cada vez mais nos periódicos aqui da província textos a tentar ver razões em ambas as partes da contenda (como num acidente de trânsito em que um motorista que ia na contra-mão bate num outro que vinha bêbado como um texugo). de que lado está a razão? que venha o diabo e escolha.

isso me faz lembrar de um velha lenda judaica, que fala de uma desavença entre Jacob e Salomão que, estando em desacordo, foram falar com o rabino e ver quem é que estava com a razão.o rabino recebeu os em casa e pediu que Jacob explicasse a sua versão.

Jacob dissertou brilhantemente e ao fim o rabino disse: "Jacob, você está com a razão."Salomão ficou enfurecido. disse que também queria mostrar o seu ponto de vista e então contou o que tinha se passado na sua opinião. foi tão ou mais eloquente que Jacob. ao fim, o rabino disse: "Salomão, você está com a razão."

e assim, os dois, Jacob e Salomão, saíram da casa do rabino pacificados, cada qual com a sua razão.mas Sara, a mulher do rabino que a tudo assistiu, ficou extremamente descontente com o resultado da consulta. voltou se contra o marido e argumentou que aquilo não era justo, que dois oponentes não podem ter igualmente razão, que ele, o rabino, deveria ter tomado o partido de um dos lados e dado a razão apenas a quem merecia.

o rabino ouviu Sara atentamente, pensou um bocado e disse, ciente de que estava a fazer justiça: "é verdade, Sara. afinal, você é que está com a razão."

lógica

diz a lógica que há melhores maneiras de se matar um rato do que atirando nele um piano de cauda.

mas a lógica diz muitas coisas. a maior parte delas sem lógica.

não sou o Manuel Carrilho, mas o pouco que estudei de filosofia faz me ver que, desde Aristóteles, pouco evoluímos além do raciocínio dedutivo. e o raciocínio dedutivo levou ao silogismo (meu Deus!, estou a ficar velho e chato, nunca pensei que um dia escreveria uma frase dessas).e o silogismo levou a todos os tipos de disparates, muitas vezes apresentados como uma simples questão de lógica.

senão, vejamos: as guerras são coisas barulhentas; a paz é silenciosa; como saímos às ruas e não ouvimos os ruídos das bombas, logo, estamos em paz. as más notícias vêm rápido; as boas notícias demoram; como ainda não aconteceu nada mais visivelmente pavoroso no nosso horizonte geográfico mais próximo depois do atentado de 11 de março, há muita gente por aí a afirmar que, logo, o pior já passou. vale lembrar que foi a partir de lógicas como essas que as grandes guerras do passado encontraram terreno fértil para vingar.

ou, como diria o meu Tio Olavo, a respeito do andar dos acontecimentos e apoiando se na lógica: "não adianta reclamar. depois que a pasta de dente sai do tubo é quase impossível fazer com que ela volte para dentro."

Thursday, March 10, 2005

as leis de edson

a coisa mais fácil do mundo é ditar regras.

deve ser por isso que praticamente todas as publicações do mundo se esfalfam em estabelecer leis sobre todas as coisas. de "como salvar o seu casamento" até "como ficar rico sem fazer força", passando por "truques fantásticos para conseguir orgasmos multiplos na terceira idade", tudo parece caber dentro de fórmulas matemáticas.

como não sou alheio a essas coisas, vou também meter a minha colher na conversa. seguem as "Leis de Edson" para quem quer dar certo na vida. não sei se vão resultar no seu caso, só sei que comigo a coisa funcionou:

1) não seja parvo. 90 % das pessoas são parvas. dos 10 % que restam, 9 % são loucas de babar na gravata ou de correr atrás de avião para anotar a placa. ou seja, apenas 1% tem o cérebro em pleno funcionamento. e é essa minoria que tem alguma chance de dar certo no que quer que seja. nem é preciso ser génio. basta ser menos idiota do que os outros.

2) trabalhe. é triste ter que afirmar isso. mas ainda não inventaram um negócio onde se pode ganhar dinheiro sem trabalhar. do céu, amigo, só cai chuva e avião. para ficar rico, você vai ter que levantar o rabo da cadeira e pôr a mão na massa.

3) seja pessimista. tudo na vida que tende a dar certo costuma dar errado. e tudo que tende a dar errado com certeza dará. o pessimista nada mais é do que um optimista bem informado. e o único que faz planos altemativos para o caso das coisas não sairem como o desejado. num mundo em que tudo é novo e muda do dia para a noite, o melhor é não contar com o ovo dentro da galinha e estar preparado para o pior. e rezar para estar enganado.

4) tenha humildade. por incrível que pareça (e por mais injusto que seja), fora a sua mãe, toda a humanidade acha que você é bem pior do que imagina. E acredita que seria um excelente negócio comprar você pelo que vale e vender depois pelo que você pensa que vale. todas as manhãs olhe-se no espelho e faça uma rigorosa autocrítica. quanto mais acreditar que é maravilhoso, mais terá chances de enganar a si mesmo e ir de cabeça numa grande furada. gostar de si mesmo é bom. mas não esqueça que o amor emburrece.

5) faça as coisas na hora certa. o que ontem era excelente, amanhã pode ser uma porcaria. é preciso estar sempre a inventar(-se) e a reinventar(-se). A aprender e a reaprender. entre nos negócios sempre com a certeza de que eles não têm formatos definitivos. e mude o negócio (ou de negócio) com a rapidez devida. não se esqueça da grande máxima da vida: jacaré parado,vira bolsa.

ou como diria o meu Tio Olavo: "para vencer na vida não é preciso ser o melhor. basta ser o mal menor."

cristo e o publicitário

essa é dos tempos em que eu era publicitário:

um dia, o dono da fábrica de pregos baptista decidiu fazer uma grande campanha a promover os seus produtos. foi até uma agência da moda, fez o seu briefing e teve a garantia do director criativo de que os anúncios seriam extremamente criativos e de grande impacto.

passadas duas semanas, o dono da fábrica de pregos estava no seu carro a ir para o trabalho e deparou-se com uns cartazes de rua a mostrar a fotografia de um Cristo de cabeça para baixo, pregado apenas pelos pés. nos cartazes, podia ler-se: "se usassem os pregos baptista, ele não caía."

o dono da fábrica quase teve um ataque do coração. foi directo até a agência exigir uma explicação. o director criativo mostrou-se supreso com a reacção do cliente. afinal, tinha feito o prometido: anúncios que chamavam a atenção. mas o dono da fábrica argumentou que muitos dos seus clientes eram católicos e de certeza não gostariam de ver Jesus Cristo a ser gozado daquela maneira. o director criativo, mesmo a contragosto, aceitou fazer novos cartazes com a promessa de não usar mais a imagem de Cristo. Mas avisou que seriam, ainda assim, peças de grande impacto.

no dia seguinte, o dono da fábrica saiu de casa e viu os seus novos cartazes na rua.

eram um anúncio de grande simplicidade. onde se viam apenas uma marca de sangue na parte de baixo do outdoor e uma frase a dizer: "se usassem os pregos baptista, ele não fugia."

diálogo de surdos

outro dia, um investidor português perguntou-me o que eu achava dele aplicar parte do seu dinheiro em projectos no Brasil. não foi o primeiro a tocar no assunto comigo (por ser brasileiro, as pessoas acham que tenho alguma credibilidade nessas questões).

via de regra, em casos desses, costumo recomendar alguns cuidados. o facto de falarmos todos a mesma língua (ou, pelo menos, línguas muito parecidas), não faz com que a comunicação entre as partes seja sempre a melhor.

aliás, é aí que reside o principal problema nas relações empresariais entre os dois países. portugueses e brasileiros tendem a acreditar que, quando se sentam para negociar, são iguais na maneira de pensar. não são. na verdade, há um oceano de separação (a metáfora é velha e gasta, mas serve perfeitamente para o caso).

por exemplo, o brasileiro costuma acreditar que está a falar com quem deve. o modelo de gestão português é muito diferente do brasileiro (que é bastante americanizado). um director executivo brasileiro costuma estar mandatado para (pasmem!) mandar. não tem que necessariamente reportar cada acto de gestão a um administrador que reporta a um conselho de administração que reporta ao presidente do conselho de administração que reporta ao conselho de administração da holding que reporta, reporta, reporta...

já acompanhei diversas negociações entre brasileiros e portugueses. chega a ser caricato o diálogo de surdos estabelecido entre as partes. enquanto o brasileiro apanha o avião da Varig de volta para casa a achar que tudo está decidido, é aí que o português vai começar a encaminhar os papéis dentro de casa e ver se consegue dar seguimento ao processo sem esbarrar nas vontades políticas internas que o cercam. ah, e já agora, ver se afinal há mesmo dinheiro para tocar a coisa.

não estou a dizer que uma das partes está mais certa que a outra. o voluntarismo e a rapidez de decisões exigidas de um executivo brasileiro têm a ver com um mercado muito agressivo e com condições económicas que estão sempre a mudar. no meio de tanta agilidade, muitos negócios dão errado por não terem tido tempo suficiente para serem maturados. a ditadura do "fazer" nem sempre é a melhor para quem gosta de pensar antes de decidir.

ainda na questão do ritmo em que as coisas são tratadas, o brasileiro costuma tocar os projectos sempre de maneira condicional. Ou seja, se não der certo, fecha-se o negócio, encerra-se a parceria, parte-se para outra. ninguém quer fazer negócios para sempre. os projectos existem enquanto valem a pena. e só. o português pensa justamente o contrário. se é para fazer um negócio, que ele seja perene, semente para coisas ainda maiores.

e os preconceitos? o português costuma acreditar que o brasileiro não gosta de trabalhar. logo, todos os processos irão se arrastar por falta de dedicação do brasileiro. a realidade pode ser outra. o brasileiro (como já disse) tem sempre um timing muito apertado para fazer as coisas. não pode, por exemplo, esperar que Portugal regresse dos seus quase três meses de férias de verão para que as coisas voltem a andar.

uma vez, ouvi de um investidor brasileiro que pretendia vir a Portugal em agosto para agilizar os processos da sua parceria comercial. quase caí no chão de tanto rir. e foi com alguma dificuldade que lhe expliquei que ou as coisas estavam prontas em maio ou só valia a pena pensar que ficariam decididas em outubro ou novembro. no mínimo, faltaria sempre uma assinatura no contracto (fruto da ausência momentânea de algum administrador que estaria de férias).

quanto ao rigor dos números, esqueça. o brasileiro não costuma gastar muito tempo a quantificar dados rigorosos sobre nada. é tudo sempre estimado por cima. se quer saber ao centavo quanto irá investir no Brasil mais vale ir fazer negócios na Suécia.

outro detalhe divertido tem a ver com a questão monetária. se vai negociar com um brasileiro leve uma máquina de calcular e os indíces do câmbio do dia. brasileiro só sabe fazer contas em dólar. e, consequência disso, os valores que são discutidos à mesa são sempre flutuantes. basta amanhã o real ser devalorizado em 30% e o negócio que está a fazer ficará 30 % mais caro. pensa que o brasileiro acha isto um grande problema? na verdade, não. ele pensa que esse tipo de imprecisão, como é óbvio, faz parte do próprio negócio.

De qualquer forma, é mais do que natural que existam negócios entre Brasil e Portugal. essa é a única maneira de brasileiros e portugueses competirem contra o bloco hispanico. ao Brasil interessa fincar uma bandeira em solo europeu. e a Portugal interessa um mercado da dimensão do brasileiro. ou como diria o meu Tio Olavo: "a minha pátria é a minha língua."

viva a imbecilidade

há tempos, tropecei numa música que tinha como tema a burrice.

como é óbvio, a canção não era brilhante. é uma pena que seja sempre assim: por algum motivo que desconheço, a humanidade passa a maior parte do tempo a gastar a sua melhor energia criativa a falar da inteligência em vez de reflectir sobre cretinice. como se, via de regra, as pessoas que encontramos no nosso dia a dia não fossem idiotas reincidentes, parvalhões declarados, gente com dois neurónios (que mal se conhecem e raramente se cumprimentam).

aliás, para não parecer parcial, somos percebidos pelos outros da mesma maneira: não passamos de imbecis de pai e mãe, cretinos mal amanhados, patetas de plantão.

não, não me venha fazer essa cara de "comigo não é assim". é, ponto final. você tem tanto respeito pela inteligência alheia como pelo raciocínio de uma ameba albina.

a música sobre a qual falei é de um grupo chamado Simply Red. trata-se de uma balada romântica sobre um tipo que está a namorar uma linda mulher que é tão burra, mas tão burra, que o tal namorado cada vez que se encontra com ela só pensa em se suicidar. e ela, coitada, não percebe nada, não está nem aí, é feliz.

a verdade é que não há imbecil que não seja profundamente feliz. nunca encontrei um beócio stressado ou um energúmero entristecido por não atingir as suas metas.

o cretino é por definição a pessoa mais bem resolvida do planeta.

ele tem o mundo nas mãos, não tem dúvidas sobre nada (para duvidar de alguma coisa é primeiro conhecer a coisa e saber que há alternativas para ela).

um certo filósofo uma vez afirmou que a "ignorância tem asas de águia e olhos de coruja". é uma bela frase, embora não consiga perceber o seu significado. diga se de passagem, raramente percebemos o significado do que quer que seja. apenas intuímos que percebemos o que nos dizem e daí tiramos ilações e certezas. deve ser por isso que há discussões, brigas e guerras: cada um percebe o que bem lhe apetece e o que lhe traz mais vantagens, daí para uma cena de porradaria é um passo.

vamos lá, vamos lá, amigo, vamos deixar de tentar parecer inteligentes, até porque ninguém acredita. vamos partir do princípio de que nada sabemos e daí tentar descobrir o que vale a pena saber. mire-se num exemplo de sucesso: o George W. Bush, se não fosse um palerma, nunca chegaria a presidente dos EUA.

ou como diria o meu Tio Olavo: "os imbecis deixam as suas impressões digitais no que dizem."

Wednesday, March 09, 2005

a felicidade é um estado imaginário

você é feliz?

não, não perguntei se você está feliz, perguntei se é. a diferença não é pequena e não é apenas semântica. a maioria das pessoas dá pouca importância à felicidade. estamos todos mais preocupados com coisas menores, como a alegria, por exemplo. a humanidade se quer alegre, o ser humano tem um infinita vocação em se tornar numa espécie de hiena bêbada.

um poeta já disse: a felicidade é um estado imaginário.

e eu acrescento: não, uma pessoa não pode ser normal e feliz ao mesmo tempo. daí aquela velha história de que só os loucos são felizes.

segundo percebo, a questão da felicidade é mais ou menos nova para a nossa civilização. até há bem pouco tempo, estávamos mais preocupados em encontrar batatas para comer, viver até aos 30, não ser queimados pela inquisição e evitar mandar piropos à mulher do rei.

agora, com a vida mais ou menos estendida pela medicina e com os fins-de-semana livres para uso próprio, é que temos tempo para reflectir sobre coisas mais ou menos importantes como a felicidade. ou se a luz se apaga quando fechamos a porta do frigorífico. adiante.

preocupado com o tema, fui conversar com o meu tio olavo. o velho, ajudado pela sua infinita colecção de achismos e citações, deu-me as seguintes respostas:

tio Olavo, o que é a felicidade?
felicidade é ter uma família grande, amorosa, cuidadosa, que se preocupa consigo e está bem unida, só que em outra cidade.

só isso?
bem, a felicidade está nas pequenas coisas: um pequeno iate, um pequeno rolex, uma pequena mansão, uma pequena fortuna...

é uma questão de dinheiro, portanto.
para falar a verdade, nem tanto. devo admitir que há coisas mais importantes na vida do que ter algum dinheiro. ter muito dinheiro, por exemplo.

a idade traz a felicidade?
às vezes. a felicidade é, no fundo, uma questão de ter boa saúde e péssima memória.

teve uma vida feliz?
acho que sim. se eu tivesse que viver a minha vida outra vez, cometeria os mesmos erros, só que mais cedo. aliás, não leve a vida tão a sério. ela não é permanente.

que conselhos daria para quem deseja uma vida mais feliz?
escreva diariamente o seu próprio horóscopo. pare de se achar o centro do universo. principalmente porque, quando você morrer, o sucesso do seu funeral vai depender apenas do tempo que estiver a fazer. diariamente, sorria e diga "olá" a pelo menos cinco estranhos que encontrar na rua. esqueça todos os rancores, perdoe todos os inimigos. se conseguir fazer isso, diga-me como.

honestamente

recebi um e-mail que demonstra um bocadinho do que nós, latinos, pensamos sobre a nossa maneira de ser. o e-mail diz o seguinte:

a ONU decidiu realizar um debate sobre a fome. para tanto, enviou uma mensagem pedindo que todos "respondessem, por favor, honestamente sobre a questão da escassez de comida nos seus países."

a mensagem causou uma enorme confusão. os holandeses, por mais que pensassem, não conseguiam descobrir o significado da palavra "escassez".

os franceses desconheciam totalmente o conteúdo da expressão "por favor".

os africanos tinham dúvidas sobre o que era aquela coisa chamada "comida".

mas o pior aconteceu no brasil, na espanha, na itália e em portugal. dois meses depois, mesmo após imensos debates nos parlamentos e nos media, ninguém conseguia perceber o que a ONU queria dizer com a palavra "honestamente".

factóides

as palavras, sempre as palavras.

elas andam por aí na boca do povo, escritas em muros, papéis, computadores. esprema uma palavra e ela conta tudo, mesmo quando ela foi feita para não dizer nada.

os neologismos são um bom exemplo disso. os neologismos dizem muito sobre a evolução de uma sociedade. os neologismos são criados quando as pessoas precisam de palavras novas para definir coisas que antes não existiam (e, vamos ser sinceros, cada vez mais existem coisas que nunca existiram antes). e um neologismo que tem tudo para entrar na moda em portugal é a palavra "factóide".

0 factóide é o facto que não é necessariamente um facto. é o facto inventado, travestido, recriado, induzido para se tornar notícia. segundo um dicionário inglês um factóide é "algo fictício ou não provado, mas apresentado como facto, para efeito de propaganda, e incorporado por insistente repetição". já um outro dicionário (no caso, brasileiro) diz que um factóide é um "facto, verdadeiro ou não, divulgado com sensacionalismo, no propósito deliberado de gerar impacto."

em época de eleições é fácil ver a quantidade industrial de factóides, criados pelos diversos candidatos. é a chamada agenda de campanha, que leva os políticos a lugares que não frequentatam no dia a dia (feiras, creches, asilos, esquadras), a falarem sobre números, relatórios, projectos que ninguém tem a capacidade de guardar na memória, nem tempo de verificar a sua veracidade ou o seu pé na realidade.

aliás, os candidatos que não acreditam que possam ganhar são os mais eficientes produtores de factóides. inventam planos que só por obra de magia poderiam ser concretizados. mas como não vão ganhar, tanto faz. é esse raciocínio que leva, por exemplo, um candidato a uma autarquia a pronunciar-se sobre questões sobre as quais não tem a mais pequeria influência, como prometer acabar com o desemprego ou mudar os horários das telenovelas.

quando um candidato diz que Lisboa precisa de mais 1500 polícias, ninguém se lembra de perguntar onde, quando e porquê. são 1500; nem 1258, nem 979. 1500 é um número grande, gordo e exacto, como todos os números deveríam ser. 0 factóide tem essa qualidade, é redondo, não tem a ponta por onde se lhe pegue, agarra nos olhos e nos ouvidos.

na recente campanha, havia um candidato que prometia "fazer". outro propunha que o melhor era "acreditar". "fazer" ou "acreditar" não passam de verbos que não deveriam adjectivar o que quer que seja. e têm tanta profundidade politica quanto "comer", "andar" ou "transpirar".

e assim, de cartazes que nada dizem a boatos que dizem o indizível, de factóide em factóide, o eleitor vai ficando mais ou menos desinteressado na política.

ou como dizia o meu Tio Olavo: "o melhor cartaz eleitoral que já vi foi o de um candidato a uma câmara no interior do brasil. o cartaz mostrava a foto do candidato (que era negro) e dizia em letras garrafais: "não vote em branco"

achismos do meu tio

já agora, a propósito das recentes eleições, o meu Tio Olavo enviou me uma série de frases que falam sobre os políticos e a política.

vale a pena ler tais achismos, no momento em que estamos prestes a ter um novo governo. por exemplo:

"acho que o político é um sujeito que vive às claras, aproveitando as gemas e sem desprezar as cascas."

"acho que o estômago sadio é sempre conservador. poucos radicais têm boa digestão."

"acho que não é raro que o diâmetro do cérebro de um político seja inferior ao do seu bolso."

"acho que político é como cozinheiro: quem faz o melhor bocado nem sempre o come."

"acho que 90 % dos políticos dão aos 10 % restantes uma péssima reputação."

"acho que todo poder é emprestado e há de retornar aos seus legítimos donos."

"acho que se votar resolvesse alguma coisa, votar seria ilegal."

"acho que o melhor é votar no candidato que promete menos. você ficará menos decepcionado."
(essa é particularmente interessante se lembrarmos da campanha do Sócrates)

"acho que a melhor plateia para um comício é uma plateia inteligente, educada e ligeiramente bêbada."

"acho que numa democracia, o direito de ser visto ou ouvido não inclui automaticamente o direito de ser levado a sério." (essa é uma homenagem ao Santana)

eu te amo, gary

então é assim: Gary precisa de ouvir que nós o amamos.

não, não conheço o Gary (na verdade, não conheço, nem nunca conheci Gary algum). ele mora no Village, em Nova Iorque. Suponho que vocês também não o conheçam. não importa, o Gary quer que vocês liguem para ele e digam: "eu te amo".

e é aí que começa a história. Gary estava apaixonado (não sei se pela namorada, noiva, esposa, marido, namorado ou amante, isso de morar no Village tem dessas coisas). e levou, como se diz no Brasil, com o pé na bunda. ela (ou ele) foi-se embora e deixou o Gary na lama, no lodo, na merda. Gary então trancou-se em casa e entrou em depressão. sumiu da vista de todos e o mais provável é que fosse desta para melhor não acontecesse (como num filme de Hollywood) a intervenção do seu amigo Thomas.

como o Gary não atendia mais o telefone nem abria a porta do apartamento para ninguém, Thomas teve uma pequena grande ideia. contratou os serviços de uma caixa-postal telefónica e mandou imprimir milhares de pequenos folhetos a dizer nada mais do que "por favor, diga 'Gary, eu te amo' depois do sinal. obrigado", seguido de um número de telefone. os folhetos foram distribuído sem maiores explicações para os peões que circulavam por alguns pontos de Manhattan. resultado: milhares de pessoas ligaram, sem saber porque o faziam, para o Gary e disseram "eu te amo". claro que boa parte delas prefiriu personalizar a mensagem, acrescentando todos os tipos de adereços. houve o rapaz que disse "I love you, Gary. este é o som do Brooklyn aqui ao fundo... paz". alguns criaram poemas para o rapaz desconhecido. e, a mais tocante, a mensagem da rapariga que disse ter encontrado o folheto no chão, numa tarde fria, e que aquilo a fez sentir saudades dos pais e que depois de dizer que o amava (o Gary) iria tentar voltar a ter contacto com eles.

o certo é que ligar para o Gary tornou-se moda. a ponto das pessoas perguntarem-se umas para as outras: "já ligou para o Gary a dizer que o ama". a onda foi tão grande que virou tema de reportagem do "New York Times", que finalmente desvendou o mistério sobre quem era o Gary e o porque das mensagens.

o amigo Thomas já editou um CD com as melhores mensagens para o Gary. ste ouviu e saiu da depressão profunda em quem estava. ainda não está bom de todo, mas para lá caminha (se quiser também ligar para ele é só teclar o código internacional mais (212) 560 2306).

e é aí que voltamos para Portugal e para a política. temos um primeiro-ministro novinho em folha. como parece óbvio, trata-se de uma pessoa inteligente o suficiente para perceber que a maioria dos eleitores é bastante cínica na relação que tem com os políticos. ou seja, apesar de votar, os eleitores pouco crêem na política e nos seus agentes. daí que os próprios políticos podem se sentir menos responsáveis em tornar realidade quase todas as utopias. não é necessário, não é fundamental, ninguém que votou neles acredita mais nessas coisas. mas e se isso fosse diferente? e se os votos tivessem nome, idade, rosto, profissão? e se cada voto fosse nada mais do que um "boa sorte, Sócrates". e quem fala sorte, fala mensagem. mas como não podemos escrever coisas no boletim de voto, que tal seria se entupissemos a caixa de correio electrónico do engenheiro com todo o tipo de votos positivos e mensagens de apoio? e se (mais uma vez, como num filme de Hollywood) essas dezenas, centenas, milhares de mensagens (algumas com fotos de bébés, outras com sonetos de gosto duvidoso, outras telegráficas porém sinceras e eficazes) ajudassem a comover o homem, a pessoa, que existe dentro daquele político que vai estar a frente do país?

ok, ok, podem ficar tranquilos, não bebi, nem enlouqueci. apenas fiquei tocado pela história do Gary. e sempre tive um fraco por filmes do Frank Capra. eu sei que estamos em portugal, onde já e difícil dizer um bom dia com sinceridade, quanto mais mandar mensagens positivas para um político no poder. mas pelo sim, pelo não, fica aqui a ideia (e, já agora, o e-mail do engenheiro é o socrates@ps.parlamento.pt) quem sabe se algum de vocês não me faz a vontade.

Tuesday, March 08, 2005

para começar, o começo

olá. muito prazer.

esse poderia ser apenas um cumprimento mas está mais para uma carta de intenções. é suposto eu ter prazer de cá escrever. e é suposto que alguém tenha prazer em ler o que cá está escrito. revoguem-se quaisquer disposições em contrário.

não prometo muita coisa. tentarei apenas despejar aqui um pouco do que vejo por aí todos os dias, além de republicar os meus textos que saíram em jornais e revistas. quanto ao conteúdo a coisa é simples: mais de uma vez escrevi, a crónica nada mais é do que uma polaroid da vida. não peça ao cronista muito peso no que escreve, quando, na verdade estamos concentrados na leveza do ser. espere de mim apenas profundas superficialidades. não é muito, mas é o que tenho.

ou como diria o meu tio olavo: "há certos cronistas que, para quem veio do nada, são muito fiéis às suas origens".