Monday, January 02, 2006

Começar com o pé direito

Viver é movimento. Quem está parado, respira mas não vive (quem disse que as duas coisas são inseparáveis?)

Entre o ano com o pé direito. E depois com o esquerdo. E o direito. E o esquerdo. Taí uma receita simples para quem deseja a felicidade prometida. Não espere sentado senão ela não passa disso, uma promessa. E de promessas o Céu está cheio.

Ande. Caminhe. Corra. Viaje.

Viajar para dentro ou viajar para fora. Tanto faz. Viajar é transitar, é trocar, é ver, sentir, comer, cheirar o novo, o outro, o diferente.

Viajar não é simples. Não basta pegar um comboio, um carro, um avião. Não, mil vezes não. Viajar não é só tirar a bunda cadeira. Não adianta fazer isso se não tirar a bunda da cabeça. Se não por o cérebro a funcionar, se não liberar o sentidos.

Se não sair nunca do casulo, sempre será larva, nunca borboleta.

Estive o último mês viajando. Primeiro no Chile (de Santiago até aquele lugar onde Judas encontrou a bota, em plena Patagónia). Depois Argentina e ainda pelo Sul do Brasil até, por fim, passar pelo Rio de Janeiro.

Foi uma viagem estranha, porém bacana. Fui sozinho, como todas as boas viagens sempre acabam por ser (mesmo aquelas em que vai bem acompanhado). Deu para reflectir sobre algumas coisas, tomar umas notas mentais, fazer um balanço da vida e, noves fora, chegar a brilhantes inconclusões (o corrector de texto do computador avisa que esta palavra não existe, dane-se o corrector, quem sabe do que escrevo sou eu).

Os pontos altos foram vários e plenamente recomendáveis para quem um dia quiser conferir pessoalmente.

Não vai dar para esquecer o fim de tarde em Porto Varas, o Sol rosa/vermelho a descer como uma bola no lago, com o vulcão Osorno como pano de fundo.

Fim de tarde só comparável com um dos três ou quatro que vi em Ipanema. Com o diferencial da banda sonora ser de alguns turistas e muitos cariocas a brindar em plena praia ao Sol, ao Rio, à natureza. Aquela cidade tem dessas coisas. As pessoas perdem a noção do ridículo e batem palmas até para o horizonte. Melhor assim. Bem melhor, aliás.

Em Bariloche, descobri o prazer de nadar às 11 da noite numa piscina aquecida ao ar livre. Temperatura da água: 35º. Temperatura exterior: 10º. Resultado: a água a deitar fumo, só a cabeça do lado de fora e um belo visual para um fantástico lago patagónico.

Em Florianópolis, foi interessante rever uma cidade (na verdade, um ilha) em que morei há quase vinte anos. Curioso foi estar ao pé da casa em que lá habitei e descobrir que ela era mais feia do que lembrava, mais pequena do que lembrava e nem sequer ficava de frente para a praia, ficava de lado, o que não correspondia a nada do que estava gravado na minha memória. Fica a lição: deixe o passado no passado. As pessoas e os lugares nunca vão ser os mesmos. Vão estar sempre mais velhos e possivelmente mais feios. Com as pessoas ainda há uma salvação: o que importa nelas é o que está por dentro e não o que está por fora. E de qualquer maneira, se for para comparar com a dos outros, a sua carcaça também não deve estar grande coisa.

No mais, um dos pontos altos foi poder ver numa sessão de cinema ao meio-dia, ou seja, entre praias, ao documentário “Vinicius”, que conta de maneira intimista a biografia do poeta Vinicius de Moraes. Lindo filme e também bela lição de vida.

Vinicius foi um poeta atípico, que começou a escrever para as elites e depois resolveu dedicar-se ao povo. Passou a vida a inventar e reinventar-se. Fugia do sucesso fácil. Estava sempre onde ninguém imaginava poderia estar. Pagou por isso. Foi menos reconhecido quando vivo do que deveria. Mas a sua obra continua aí, lida e cantada como se tivesse sido feita ontem, ou melhor, hoje.

Como por exemplo, o texto que vem a seguir que fala justamente sobre o que devemos fazer no começo de um novo ano e que dedico a todos vocês:


Amigos Meus

Ah, meus amigos, não vos deixeis morrer assim... O ano que passou levou tantos de vós e agora os que restam se puseram mais tristes; deixam-se, por vezes, pensativos, os olhos perdidos em ontem, lembrando os ingratos, os ecos de sua passagem; lembrando que irão morrer também e cometer a mesma ingratidão.

Ide ver vossos clínicos, vossos analistas, vossos macumbeiros, e tomai sol, tomai vento, tomai tento, amigos meus! - porque a Velha andou solta este último Bissexto e daqui a quatro anos sobrevirá mais um no Tempo e alguns dentre vós - eu próprio, quem sabe? - de tanto pensar na Última Viagem já estarão preparando os biscoitos para ela.

Eu me havia prometido não entrar este ano em curso - quando se comemora o 1964º aniversário de um judeu que acreditava na Igualdade e na justiça - de humor macabro ou ânimo pessimista. Anda tão coriácea esta República, tão difícil a vida, tão caros os géneros, tão barato o amor que - pombas! - não há de ser a mim que hão de chamar ave de agouro.

Eu creio, malgrado tudo, na vida generosa que está por aí; creio no amor e na amizade; nas mulheres em geral e na minha em particular; nas árvores ao sol e no canto da juriti; no uísque legítimo e na eficácia da aspirina contra os resfriados comuns. Sou um crente - e por que não o ser? A fé desentope as artérias; a descrença é que dá câncer.

Pelo bem que me quereis, amigos meus, não vos deixeis morrer.

Comprai vossas varas, vossos anzóis, vossos molinetes, e andai à Barra em vossos fuscas a pescar, a pescar, amigos meus! - que se for para engodar a isca da morte, eu vos perdoarei de estardes matando peixinhos que não vos fizeram mal algum.

Muni-vos também de bons cajados e perlustrai montanhas, parando para observar os gordos besouros a sugar o mel das flores inocentes, que desmaiam de prazer e logo renascem mais vivas, relubrificadas pela seiva da terra.

Parai diante dos Véus-de-Noiva que se despencam virginais, dos altos rios, e ride ao vos sentirdes borrifados pelas brancas águas iluminadas pelo sol da serra. Respirai fundo, três vezes o cheiro dos eucaliptos, a exsudar saúde, e depois ponde-vos a andar, para frente e para cima, até vos sentirdes levemente taquicárdicos. Tomai então uma ducha fria e almoçai boa comida roceira, bem calçada por pirão de milho.

O milho era o sustentáculo das civilizações índias do Pacífico, e possuía status divino, não vos esqueçais! Não abuseis da carne de porco, nem dos ovos, nem das frituras, nem das massas. Mantende, se tiverdes mais de cinqüenta anos, uma dieta relativa durante a semana a fim de que vos possais esbaldar nos domingos com aveludadas e opulentas feijoadas e moquecas, rabadas, cozidos, peixadas à moda, vatapás e quantos. Fazei de seis em seis meses um check-up para ver como andam vossas artérias, vosso coração, vosso fígado.

E amai, amigos meus! Amai em tempo integral, nunca sacrificando ao exercício de outros deveres, este, sagrado, do amor.

Amai e bebei uísque. Não digo que bebais em quantidades federais, mas quatro, cinco uísques por dia nunca fizeram mal a ninguém.

Amai, porque nada melhor para a saúde que um amor correspondido.

Mas sobretudo não morrais, amigos meus!

1965
in Para uma menina com uma flor

Tuesday, December 06, 2005

Esperança e canja de galinha

Rápido, parado, mexido, na mesma. Acho que 2005 vai ser lembrado como o ano em que nada foi resolvido, pouco foi melhorado, em que o planeta esteve onde sempre esteve, mas, como diria Galileu, no entanto moveu-se.

Será que vamos ter saudades de 2005? Tenho dúvidas, tenho dúvidas.

Costumamos ter saudades dos tempos em que as coisas eram bonitas, melhores, mais ricas. As nossas recordações são sempre em polaroids da vida, nunca na crueza de uma imagem digital que pode ser perfeitamente apagada (apenas porque sim) só para não ocupar espaço no disco rígido das nossas almas.

Duvido que 2005 entre por si só no álbum de fotografias da década.

2005 não teve nos seus dias o delírio de um Euro 2004 em Portugal, por exemplo.

2005 foi um ano daqueles de, literalmente, cumprir o calendário. Não é que tudo foi mau (e, olha, que muita coisa foi má), apenas não teve o seu brilho próprio.

Não foi em 2005 que descobriu-se a cura para a SIDA. Não foi em 2005 que todos os países decidiram cumprir o Protocolo de Quioto (uma das poucas garantias de que este mundo tenha lá algum futuro). Não foi em 2005 que Saint Louis, o berço do jazz, não foi atingido por um furacão e que a festa pôde seguir como sempre. Não foi em 2005 que a humanidade descobriu-se extremamente solidária e que o G8 além de perdoar uns trocados da dívida dos países subdesenvolvidos (mesmo assim só por que o Bono dos U2 pediu) decidiu perdoar as dívidas todas e, já agora, vamos lá trabalhar todos para que as coisas funcionem melhor. Não foi em 2005 que Bin Laden, Bush e os seus comparsas chegaram a um acordo, fizeram as pazes e deixam-nos viver em paz.

Paz. Sim, teve qualquer coisa de paz em 2005. Aquilo lá entre Israel e a palestina até andou qualquer coisa. Mas foi pouco, soube a pouco.

Não foi em 2005 que a crise económica portuguesa acabou. Que o desemprego desceu. Que a justiça funcionou melhor. Que a saúde esteve em óptimo estado. Que o Estado esteve de óptima saúde.

Não, não foi em 2005. Nada disso aconteceu.

Mas, e agora?

Agora é bola para frente. Fora quem trabalha em museu, ninguém vive de passado.

2006 está aí mesmo a nossa frente para acontecer.

Como afirmou Gandhi: “Não sou um utópico, sou um idealista prático.” Ou Churchil: “Eu sou um optimista. Não me parece muito útil ser outra coisa.” Ou Armando Nogueira: “É sempre melhor ser optimista do que pessimista. Até que tudo dê errado, o optimista sofreu menos.”

É isso aí: 2006 ainda não deu errado.

Pode ser que dê certo. Todos os anos há sempre a hipótese dele dar certo. Quem sabe não é dessa vez.

Um pouco de canja de galinha e de esperança nunca fez mal a ninguém.

Tenha um feliz 2006.

E o mais importante: tente ter.

PS do meu Tio Olavo: "Se não houver frutos, valeu a beleza das flores; se não houver flores, valeu a sombra das folhas; se não houver folhas, valeu a intenção da semente."

Think about.

Wednesday, November 23, 2005

ponto de situação

então é assim pessoal: estou mesmo sem tempo de escrever coisas novas aqui. isso não quer dizer que desisti do blog ou que amanhã ou depois não arranje tempo para dar o ar da minha graça.

entretanto sugiro o seguinte: o blog contém dezenas e dezenas de textos. a maioria completamente atemporal. logo, se ainda não teve a oportunidade de ler alguns dos textos antigos, está aí uma boa oportunidade.

qualquer comentário sobre textos antigos pode ser colocado aqui neste post.

prometo que assim que puder ter trinta minutos de paz volto a escrever coisas novas.

e é isso. um abraço a todos.

Saturday, November 05, 2005

Conta aí

Tenho cara de “conta aí.”

Isso é mais ou menos como ter a cara de um padre do interior já patusco de tão velho e necessariamente surdo.

O “conta aí” tem cara de pedinchão. É como se ele passasse a vida a implorar que os outros lhes contassem as suas vidas nos mínimos detalhes. E que, claro, tudo o que fosse dito não sairia dali, morreria com ele.

Pois é, tenho cara de “conta aí”. E as pessoas contam mesmo.

Graças à Deus há as excepções. Há quem seja prático e procure um psicanalista para fazer o trabalho sujo. E, então, com a atenção de um profissional ao seu serviço, comece a abrir as gavetas da alma, tirando de lá todos os tipos de objectos putrefactos e inúteis que coleccionamos ao longo da nossa curta e dispensável existência.

Como os analistas são pagos para não ter nojo das porcarias dos outros, vão remexendo no lixo à procura de algo que preste ou que possa ser consertado. Quase sempre conseguem dar a volta ao texto, mas às vezes não é fácil (“Hum, não, não, o facto do senhor coleccionar sapatos femininos não tem nada de errado, onde já se viu. É apenas uma demonstração tardia de apego ao design. Não vale a pena debruçarmo-nos sobre o tema. Prefiro antes voltar a aquele seu sonho recorrente, aquele do rapto do Pai Natal, em que aparecem o Lobo Mau, vestido em roupa interior de cabedal, a Cicciolina e dois rapazes fisioculturistas que têm os seios iguais aos da Pamela Anderson.”)

Mas como a maioria das pessoas não tem massa para pagar por uma análise, acaba por recorrer aos ouvidos dos amigos que, como todos sabem e o dicionário confirma, é o melhor sinónimo possível para a palavra sanita.

O meu caso então é terrível. Como tenho cara de “conta aí” e o meu ar apalermado é uma garantia de que nem que eu quisesse conseguiria usar o que ouço contra quem contou, volta e meia, conhecidos (o que até que é esperado) e desconhecidos (aí é que a coisa pia mais fino) contam-me segredos que fazem duvidar daquela balela de que o ser humano é uma raça superior.

E nem estou a referir-me necessariamente a coisas relacionadas ao sexo. Não, graças a Deus, o máximo que já ouvi de inconfidências sobre o assunto resume-se a meia dúzia de casos banais de infidelidade matrimonial (vamos ser sinceros, encornar e ser encornado são os dois desportos mais antigos do mundo). Nunca ouvi nada que envolva pigmeus albinos besuntados em ovos ou texugos selvagens (já sobre texugos domésticos, bem..).

Mas vamos aos factos. Dou alguns exemplos (todos eles reais).

Tenho uma amiga que há trinta anos não bebe água. Bebe sumos, ice-tea, refrigerantes em geral, mas água não. O estranho é que ninguém sabe desse seu hábito. Nem o marido desconfia. A água, como ela confessou-me, tem qualquer coisa de molhado que lhe causa uma certa repugnância. Certo, claro, então tá.

Um amigo, já um senhor de quase 40 anos, director de uma multinacional, guardou uma insólita mania da infância que é a de tocar músicas a soltar gases em geral (os arrotos e os outros). Cheguei a comover-me ao ouvi-lo arrotar outro dia o «Parabéns a Você». Mas nada que chegasse aos pés da sua maravilhosa improvisação do tema de “Dr. Jivago”, num arranjo para orquestras de gases.

Tenho outro amigo que só consegue dormir com duas almofadas. E daí? Bem, o problema é que as almofadas têm de ser as mesmas que o acompanham há mais de vinte anos (inclusive em viagens). Detalhe: elas nunca foram lavadas. Nem queiram saber a opinião da esposa dele sobre o assunto.

Pessoas que usam dois pares de meia de cada vez, conheci umas quatro. Pessoas que discutem sozinhas, a ponto de numa briga feia ficarem semanas sem dirigir a palavra a si mesmas, são quase todas. Idem para as pessoas que se deleitam com prazeres secretos a partir de actos aparentemente banais que envolvam a cera dos ouvidos e os macacos do nariz.

Tudo isso para dizer o quê? Bem, é só para lembrar que é risível a necessidade de toda a gente parecer normal. Além de uma perda de tempo (ninguém acredita) é só mais uma razão para causar stress desnecessário e infelicidade premeditada.

Sendo assim, amigo, ponha para fora o anormal que tem dentro de si. Gosta de pôr a língua na ponta nariz (há quem consiga), faça isso já, aí no meio da praça, no meio da rua. Ninguém se vai assustar (se calhar ainda é aplaudido).

Desde que não faça coisas ilegais, ninguém tem nada com isso.

Ou como diria o meu Tio Olavo: “De perto ninguém, é normal.”

Friday, October 28, 2005

honestamente

Recebi um e mail que demonstra um bocadinho do que nós, latinos, pensamos sobre a nossa maneira de ser.

O e mail dizia mais ou menos o seguinte:

A ONU decidiu realizar um debate sobre a fome. Para tanto, enviou uma mensagem pedindo que todos "respondessem, por favor, honestamente sobre a questão da escassez de comida nos seus países."

A mensagem causou uma enorme confusão. Os holandeses, por mais que pensassem, não conseguiam descobrir o significado da palavra "escassez". Os franceses desconheciam totalmente o conteúdo da expressão "por favor". Os africanos tinham dúvidas sobre o que era aquela coisa chamada "comida".

Mas o pior aconteceu no Brasil, na Espanha, na Itália e em Portugal. Dois meses depois, mesmo após imensos debates nos seus parlamentos, jornais e televisões, ninguém conseguia perceber o que a ONU queria dizer com a palavra "honestamente"

Thursday, October 20, 2005

Como nossos pais

Ok, este blog corre o risco de ficar monotemático, mas vamos lá a mais um texto a falar dos trintões & cia (sempre a lembrar o meu fabuloso livro “Os Ttintões”, que já está nas livrarias e já vai na segunda edição).

É moda em Londres, ou seja, não demora e será moda também em Portugal. São as chamadas School Dance, festas organizadas para trintões rememorarem os tempos de escola. A receita é simples: música dos anos 80 e roupas que remetem directamente para a época em que aquele bando de balzaqueanos bêbados que chocalha o esqueleto no Kapital ainda eram colegiais. É uma mistura de Duran Duran com celulite; um cocktail explosivo de Police e lipoaspirações.

A ideia de fundo das School Dance é proporcionar um reencontro de colegas de turma e a simulação de uma máquina do tempo, remetendo toda a malta para uma era em que eram todos menos feios e mais felizes, menos sérios e mais loucos, menos carecas e mais magros.

A coisa segue uma tendência que vem dos EUA. Lá é imenso o sucesso dos sites que promovem o reencontro de ex-colegiais. Só um deles, o “classmate.com”, tem cerca de 30 milhões de registados. Gente que aderiu sem pudores ao Complexo de Peter Pan, que tem dificuldades em crescer, em desligar-se do passado, em usar os trapinhos da Diesel ou dançar trance ou hip hop.

Cá na terrinha o negócio tem tudo para prosperar. Cedo chegará o dia em que vou encontrar alguns dos meus amigos numa School Dance lusa. A festa será num lugar entre o Frágil do Bairro Alto e a Discoteca 2001 no Autódromo do Estoril. Lá estarão o Pedro Rolo Duarte (a dançar com a gravata na testa em cima de uma coluna de som) e o João Gobern, a fazer de DJ, a pôr um LP dos Táxi para girar na pick-up e animar o pessoal. Você, claro, também estará convidado. E com um pouco de sorte ainda convence a Margarida Rebelo Pinto a dar uma voltinha nas dunas do Guincho, com a desculpa de que sempre é uma maneira de homenagear o GNR.

As School Dance e os sites de ex-colegiais têm a ver com um só fenómeno: o revivalismo dos anos 80. Ainda mal se dá por ele aqui por estas bandas, mas desde há uns dois anos a onda vem crescendo de importância um pouco por todo o planeta e principalmente na Europa.

Basta fazer as contas para ver que os grandes impulsionadores da coisa são as pessoas de trinta-e-tantos anos. E nem poderia ser diferente. São consumidores com alto poder de compra (para alguma coisa tem que servir trabalhar até tarde naquele emprego chato) e que têm imensa dificuldade de acompanhar a velocidade com que a informação circula no mundo hoje em dia.

Trata-se de uma raça que surgiu e viveu toda a sua juventude sem a internet e a TV por cabo. Que garimpava as rádios à procura de pequenas pepitas musicais. Que gastava a mesada em revistas como a New Musical Express ou a Melody Maker, na esperança de decorar os nomes de bandas que levariam ainda alguns meses para ter um disco lançado no mercado nacional. Que nem no Amoreiras encontrava a maioria das marcas de roupas internacionais. Que para conhecer o continente tinha que passar pela aventura do inter-rail.

Os ex-jovens dos anos 80 sentem-se razoavelmente perdidos na Torre de Babel em que o mundo se tomou na última década. Ainda olham para o telemóvel como um fantástico avanço tecnológico e mal aprenderam a enviar SMS. Navegam na rede ainda com uma dose cavalar de espanto e admiração mas é pouco provável que convivam com o ICQ como se fosse a coisa mais natural do universo.

Daí que de vez em quando precisem se encontrar num canto qualquer com os da mesma espécie. Seja numa festa ou na audiência do canal VH1. Tanto faz. O importante é sentir-se seguro e protegido contra algumas modernidades que andam por aí. Tal como os nossos pais fizeram um dia. O que me faz lembrar uma velha canção da Elis Regina (ora bolas, não estamos a falar de reminiscências?) que dizia:

“Não quero lhe falar, meu grande amor
Das coisas que aprendi nos discos
Quero lhe contar como eu vivi
E tudo o que aconteceu comigo.

Viver é melhor que sonhar
E eu sei que o amor é uma coisa boa
Mas também sei que qualquer canto
É menor do que a vida
De qualquer pessoa.

Já faz tempo eu vi você na rua
Cabelo ao vento, gente jovem reunida
Na parede da memória
Essa lembrança é o quadro que dói mais.

Nossos ídolos ainda são os mesmos
E as aparências não enganam não,
Você diz que depois deles
Não apareceu mais ninguém.

Você pode até dizer que eu estou por for a
Ou então que eu estou inventando
Mas é você que ama o passado e que não vê
Que o novo sempre vem.

Minha dor é perceber
Que apesar de termos feito tudo
Tudo, tudo que fizemos
Nós ainda somos os mesmos e vivemos
Ainda somos os mesmos e vivemos
Como nossos pais…”

Sunday, October 16, 2005

Politiquices

Já agora, a propósito das recentes eleições, o meu Tio Olavo enviou-me uma série de frases que falam sobre os políticos e a política.

Por exemplo:

"O político é um sujeito que vive as claras, aproveitando as gemas e sem desprezar as cascas."

"O estômago sadio é sempre conservador. Poucos radicais têm uma boa digestão."

"Não é raro que o diâmetro do cérebro de um político seja inferior ao do seu bolso."

"Político é como cozinheiro: quem faz o melhor bocado nem sempre o come."

"90 % dos políticos dão aos 10 % restantes uma péssima reputação."

"Todo poder é emprestado e há de retornar aos seu legítimo dono."

"Se votar resolvesse alguma coisa, votar seria ilegal."

"Vote no candidato que promete menos. Você ficará menos decepcionado."

"A melhor plateia para um comício é uma plateia inteligente, educada e ligeiramente bêbada."

Tuesday, October 11, 2005

meia-idadismo

A propósito do meu novo livro (“Os Trintões”, Editora Palavra, já à venda nas boas lojas do ramo), alguns amigos perguntam-me onde começa a meia idade.

Isso porque a simples comemoração do trigésimo aniversário (como se fazer 30 anos fosse motivo de festa) não é o suficiente para determinar o meia-idadismo. É natural. Até há 300 anos, ter 20 anos (quando quase ninguém chegava aos 40) era uma idade bastante madura.

Hoje em dia, pelo que eu vejo nos “Morangos com Açúcar”, aos 20 anos ainda se está a aprender a falar, a andar, a comer com talheres e a pensar e respirar ao mesmo tempo (a maioria, infelizmente, não consegue).

Logo, a meia-idade começa mais ou menos quando uma série de factores reunidos fazem com que o cidadão (ou a cidadã) se sinta o portador de uma carcaça mal gerida.

Para facilitar o auto-reconhecimento do seu meia-idadismo, reuni uma série de indicações que permite que você descubra se está naquele ponto da estrada em que ainda não vê o fim da linha mas que já não dá para voltar para trás.

Portanto, você é uma pessoa de meia-idade quando:

Em vez de ir escondido dos pais ao concerto dos Rolling Stones, passa primeiro na casa deles para deixar as crianças.

A ressaca de sexta feira prolonga-se até segunda de manhã.

Homem: presta mais atenção a uma mulher quando ela fala, do que quando ela anda.

Mulher: consegue se divertir mais ao lado de um homem do que debaixo dele.

Fica a tentar compreender as letras das músicas que tocam no rádio.

Não recebe convite para nenhum casamento há muitos anos e, quando ele chega, é da filha de um dos seus amigos, aquela que há pouco tempo você foi no aniversário e deu uma boneca de presente.

Acha a Madonna uma miúda espevitada.

Ainda usa a palavra «espevitada».

Acha que silicone é coisa de travesti.

Fica emocionado quando ouve uma música dos GNR

Lembra-se de quando a Manuela Moura Guedes era cantora.

Sabe que a Ana Maria Lucas já foi Miss Portugal.

Pior que isso: sabe o que é uma Miss Portugal.

Consegue passar horas na cama com a sua parceira só a conversar.

Relê os clássicos e descobre que eles não eram tão chatos assim.

A maioria dos telefonemas que recebe em casa é para os seus filhos.

Tem mais cabelos na toalha do que na cabeça.

Já não presta atenção às próprias celulites e varizes.

Ainda tem dúvidas se o Michael Jackson é gay.

Dá preferência aos vinhos tintos por causa dos flavonóides.

E o pior: sabe o que são os tais flavonóides.

Chegou a ter um sonho erótico com uma hospedeira da TAP.

Assistiu a chegada do homem à Lua.

Ainda tem dúvidas sobre se o homem realmente chegou à Lua.

Comprou ou ganhou de aniversário um Longa Duração da Madalena Iglésias.

Terrível: sabe o que é um Longa Duração e quem é Madalena Iglésias.

Já fez sexo sem camisinha sem ter medo de apanhar SIDA.

Assistiu a pelo menos um programa do Vasco Granja.

Participou num debate a discutir se «Vila Faia» era ou não melhor do que «Passerele».

Costuma mostrar álbuns de fotografias às visitas.

Acreditou que a Teresa Guilherme era noiva do Goucha.

Para as mulheres: a única maneira de alguém pedir para você fazer um topless é quando vai fazer uma mamografia.

Para os homens: a memória começa a ir embora e a única coisa que ainda consegue reter com facilidade é água.

Sunday, October 09, 2005

Um e Outro

Onde um era água, o outro era mão. Um escorria pelos dedos, enquanto o outro, desesperado, agarrava-o em vão. Um não era nada, o outro achava-se tudo, menos tudo o que queria ser. Como eu. Como você. E seguiam juntos pela vida, como se a vida fosse para algum lugar, mas não, não vai. Nem vem. A vida não é táxi de ninguém.

Um era astronauta sem foguete, o outro era avião. Mesmo Céu, mesmas estrelas, mas sempre presos ao chão. O que faz lembrar que pior do que nada ser é ser apenas quase. Pois quase é perto, mas não é lá. Quase é o demónio que engana o homem sério, quase é o melhor atalho para o inferno. É o que faz acreditar que no fim tudo vai fazer sentido. E é aí, amigos, que mora o perigo. Pois nada sentido faz. Nem fez. A vida é sempre com vocês.

Um era rebuçado, o outro papel plástico amassado. Um era teorema, o outro resposta na página ao lado. Um era lâmpada acesa, o outro vela sobre a mesa. Um era um bom cigarro, o outro não era um comentário do ministério implicado na solução final para o problema prioritário do cancro nacional. Onde um era água, outro era mão. Água molha, mão segura. Água verte, mão na luva. Água mole, pedra dura. Tanto bate, mão esmurra. Água esguicha, mão partida. Mão doente, água quente. Mão enferma, água cura.

Se a paixão fosse um copo, um até poderia sonhar. Esquecendo o claro risco de, por uma gota, ver o outro transbordar. Onde um era água, o outro era mão. Até que veio o inverno e, junto, a solução. Água virou gelo. E mão o pode agarrar. Daí seguiram juntos pela vida. Como se a vida fosse para algum lugar. Mas não, não vai. Não vai não. A vida só vai até a próxima batida do coração. Ou, no caso, até nascer o primeiro raio de Sol na primeira madrugada do primeiro dia do próximo Verão.

Monday, October 03, 2005

Adorável Dora (2ª parte)

É o carteiro. Ela recebe a carta. Volta para o sofá. A fatia do bolo continua sobre a mesa. Abre a carta com um ar meio indiferente, enquanto morde o bolo. É nesse instante que ela, já a mastigar o bolo, descobre que a carta é de um fã apaixonado, que a conheceu no tempo em que ainda era uma cantora de sucesso e que se lembrou do seu aniversário. Em off, ouvimos a voz do fã a fazer rasgadas declarações de amor. Dora fica surpreendida com o teor da carta. Lembra-se que está a mastigar o bolo envenenado. Assustada, vai até a casa de banho, vomita, lava a boca e volta a correr para a sala. Continua a ler a carta. O fã começa então a narrar uma fantasia erótica que teve com ela. Dora passa a sonhar. Vemos a fantasia a acontecer. Mas nunca vemos o rosto do fã, tudo se passa a partir de uma câmara subjectiva com o ponto de vista dele. Ao fim, Dora acorda do sonho. Está feliz. Abraça a carta contra o peito. No gira-discos o LP chega ao fim e o aparelho desliga-se. A imagem vai a negro.


Sequência 3

A partir daí, todos os dias Dora recebe uma carta a narrar as fantasias sexuais do fã. Vemos sempre as fantasias a acontecer. Dora continua a vestir-se como uma jovem dos anos sessenta.

É criado um clima de suspense quanto a quem é o fã. Pistas falsas indicam que ele pode ser o próprio carteiro ou um rapaz que Dora vê na rua a olhar para a sua janela ou um homem que ela tem a impressão que está a segui-la. Todos os suspeitos são jovens e bonitos.

Sequência 4

Um dia, o fã avisa que irá visitá-la no dia seguinte. Dora fica feliz com a notícia.

No dia da visita, vemos Dora a arrumar freneticamente a casa e depois se prepara para o encontro. Coloca um vestido de festa, brincos enormes, sapatos de saltos muito altos. Tudo extremamente antigo e piroso. Ela está tão feliz que porta-se como uma adolescente a se preparar para o primeiro encontro.

A campanhia toca. Ela corre a atender. Pára na porta antes de abrir. Tenta controlar as suas emoções. Abre a porta com um imenso sorriso. Fica desconcertada com o que vê: um senhor careca, a beira dos sessenta anos. O homem se apresenta como o fã, entrega um punhado de flores e pede para entrar. Meio que em transe, Dora deixa-o passar. Os dois sentam-se e ficam a se olhar. O fã tenta ser simpático, mas não consegue manter uma conversa com Dora, que está completamente assustada. A situação torna-se constrangedora.

Num dado momento, Dora se levanta e coloca um disco seu a rodar. Depois vai para a cozinha. Volta com o bolo envenenado. Serve uma fatia para ele e uma para si mesma. Ele, simpático, elogia o bolo. Dora tem então um ataque de risos. Ele também ri, sem saber o porque. Os dois comem e riem sem parar. A música sobe. Ecrã vai a negro. Fim.

Tuesday, September 27, 2005

Adorável Dora (1ª parte)

(apontamentos para uma curta-metragem)


Dora: Mulher cinquentona, decadente fisicamente, que há cerca de vinte anos era uma bonita cantora de ié-ié. Vaidosa, não suporta o seu envelhecimento. Enlouquecida, Dora acaba por se refugiar em símbolos do passado para se sentir jovem, atraente, desejada. Seu mundo passa por uma mistura de fantasias. Solitária, isolada no seu apartamento, ela está a beira de colapso nervoso no dia do seu aniversário. Resolve então se suicidar. Mas um imprevisto acaba por dar um novo impulso em sua vida.


1ª Sequência:

Dora acorda pela manhã numa grande cama de casal. O seu braço movimenta-se sobre a cama, como que a procurar alguém para abraçar. Não encontra. Dora então se senta na beira da cama. Se espreguiça. Ela está a usar uma máscara de dormir. Fica um tempo parada, desanimada. Depois de alguns segundos, tira a máscara dos olhos. A luz da manhã incomoda-a.

Dora vai até a casa de banho. Olha-se no espelho. Examina as suas rugas, os dentes meio amarelados. Levanta os seios caídos. Ensaia um sorriso patético, na tentativa de parecer melhor. Aos poucos o sorriso vai se desmanchando. Ameaça chorar.

Após o duche, Dora volta ao quarto enrolada numa toalha. Abre o armário e tira dele uma espécie de baú. No baú ela encontra roupas visivelmente fora de moda: mini-saias, camisas coloridas, cintos de fivela larga, tudo bem típico da década de sessenta. No baú há também várias fotos dela há décadas atrás em festas, espectáculos, programas de televisão. Dora examina as fotos e as roupas. Ri sozinha. Até que encontra uma foto onde ele está a soprar as velas de um bolo de aniversário, abraçada a um lindo rapaz. Se detém nessa foto. Ao fundo, ouvimos de uma festa de aniversário, mulheres a falar como Dora está bonita, rapazes a lhe fazer elogios, a voz de um homem a dizer que a ama. Os ruídos são substituídos por uma música romântica de época (pode ser “Perfume de Gardénia”). Dora caí em prantos. Rasga a foto. Fica raivosa, começa também a rasgar algumas roupas. Na confusão a toalha cai, deixando-a nua. Chuta o baú, magoando o pé, cai no chão e continua a chorar, nua sobre a alcatifa, no meio das roupas, das fotos. A imagem escurece até negro.

2ª Sequência

Vemos Dora a se arrumar em frente ao espelho. Está vestida com as roupas que estavam no baú, de cílios postiços, muito pintada. Não demonstra qualquer emoção, está fria, passiva. Ajeita na cabeça uma peruca com um penteado em formato de bolo de noiva. Ao fim, olha-se no espelho satisfeita.

Vai até a sala e põe o gira-discos a funcionar. Vemos na capa do disco que é a própria Dora a cantora. Uma música de ié-ié invade o ambiente.

Dora vai para a cozinha e começa a preparar um bolo, onde coloca veneno de rato. Quando o bolo fica pronto, coloca duas velas de aniversário em cima (59 anos).

Dora volta para a sala com o bolo. Põe na cabeça um chapelinho de aniversário. Apaga as velas. Corta uma fatia de bolo e já está a se preparar para o comer quanto toca a campainha.


(continua)

Friday, September 23, 2005

meiquin-ofe

No começo aquilo não era um livro. Era vida. A minha vida, de certa maneira. A coisa arrancou como uma página semanal no DNA (suplemento do Diário de Notícias), intitulada "Os Trintões". E estava mais para uma espécie de confessionário público daquilo que assistia no meu dia a dia, além de alguns acertos de contas com o meu passado.

Tentava não escrever com muita antecedência. Tal como nas novelas de televisão, queria uma obra em aberto. Acreditava que seria mais interessante deixar claro para quem estivesse a minha volta que sim, aquela nossa conversa, aquilo que estava a acontecer connosco poderia perfeitamente aparecer narrado no suplemento da semana seguinte.E foi mais ou menos o que foi acontecendo. Claro que, pelo meio, acrescentava muita ficção ou, pelo menos, algum delírio estilístico.

Foi assim que apareceu, por exemplo, o personagem Laura uma espécie de musa sincrética cujo perfil foi montado a partir dos gestos, atitudes e pensamentos de cinco antigas namoradas. E, o curioso, é que na facilidade em fazer os encaixes, percebi que os meus ex-relacionamentos correspondiam a um perfil exacto de raparigas. A outra opção seria a de afirmar que todas as mulheres são iguais. O que não é muito politicamente correcto de se dizer. Só elas podem falar essas coisas sobre nós.

Nós. Pois é, estava a esquecer-me de uma coisa importante. “Os Trintões” traz especificamente o ponto de vista de um “gajo” sobre o mundo (digo “gajo” pois é disso que se trata: os textos têm uma voz ligeiramente machista, certamente masculina e, por vezes, cínica, como só um “gajo” pode ter). Isso, diferente do que eu pensava, em vez de afastar o público feminino, só atraiu. Eram as mulheres que me escreviam, que me mandavam e-mails, na maior parte da vezes a agradecer a ajuda. “Os Trintões” tinham se tornado numa espécide de bula para se perceber um pouco melhor a cabeça dos namorados, maridos e amigos.

Um belo dia, a coisa acabou. Tinha já tocado em todos os temas que queria e para continuar teria que me expor mais do que gostaria. O exercício estava feito e antes que se tornasse entediamente pedi ao Pedro para parar. E passei a escrver sobre outros assuntos.

Meses depois o Gonçalo Bulhosa, da Editora Palavra, procurou-me para desafiar-me a construir um livro que fosse uma consequência da coluna “Os Trintões”. Achei estranho, achei que não dava. Já estava com a cabeça noutras coisas, prestes a embarcar para o Brasil, onde viveria alguns meses e sem tempo para aquele projecto.

Mas o Gonçalo foi insistente. Declarou-se leitor atento dos “Trintões”, que aquela página o havia ajudado a reflectir sobre a sua vida num determinado momento, que outras pessoas deveriam ter sentido a mesma coisa e, enfim, de tanto argumentar acabou por me convencer.Daí foram mais alguma semanas, já no Rio de Janeiro, a reler e reescrever os textos. Eram, no principío, uma colcha de retalhos sem nada que os unissem verdadeiramente. Demorou até aparecer o click de que eles não deveriam ter títulos próprios, nem ser divididos em crónicas e ficção. Só percebi que sim teria ali um pequeno e despretencioso livro quando dividi os textos em quatro grandes áreas (o culto ao corpo, o amor, a amizade e a vida como um
todo). Daí para a frente a coisa foi bem mais fácil. Fui repescar alguns textos antigos já publicados noutros contextos mas que ali se encaixavam com perfeição. Escrevi as partes que faltavam para aquilo tudo fazer mais sentido.

No final, a obra acabou por se tornar numa coisa entre o manual de auto-ajuda e um pequeno livro de contos. A ideia é estar sempre a supreender o leitor, que nunca sabe o que vai encontrar na página seguinte. É também um livro conciso, que dá para ler em poucas horas, de um só fôlego, para que o raciocínio geral não seja perdido nem esquecido. Vícios de publicitário, talvez.

Originais prontos e organizados, enviei para Lisboa (no começo de Dezembro do ano passado, as pessoas não têm muita noção do tempo e do trabalho que dá editar um livro). Vim para cá em Janeiro para, entre outras coisas, tratar da paginação, da escolha da capa, da foto da contra-capa. Um amigo, o designer Rui Costa, propôs uma capa só com tipografia e com os “Trintões” escritos de maneira estrannha (“Os 3Ões”). Achei piada. Ficou assim.Depois o Gonçalo propôs lançar junto com o livro um CD de música que eu havia acabado de produzir. O CD (parte de um projecto de releituras acústicas de músicas dos anos 80, chamado “Davi Não Vê Estrelas”) encaixava-se na temática dos “Trintões”. Nasceu assim a banda sonora ofertada com o livro.

Questão importante foi a do prefácio. Queria que ele fosse escrito por alguém que tivesse vivido os anos 80 de maneira intensa e com que me identificasse em termos de gostos e de visão do mundo. O problema é que o nome que mais vinha a minha cabeça era a de uma pessoa a quem eu nunca sequer havia sido apresentado pessoalmente, o Miguel Esteves Cardoso. Mas, como tenho uma certa lata para essas coisas, mandei um e-mail para o Miguel, sem muita esperança que ele respondesse. Passadas algumas horas, lá estava a resposta positiva. Trocamos mais alguns e-mails até que o prefácio fosse entregue ainda antes do prazo combinado. Até hoje, ainda não me encontrei nem falei sequer ao telefone com o Miguel, mas é uma daquelas pessoas que pela simpatia e antenção que teve comigo só posso chamar de amigo.

E é isso. O livro já está nas livrarias. É como se um filho estivesse a sair de casa. Ele deixa de ser meu e passa a ser de quem o ler. Espero que ele cresça nas mãos dos leitores, que ele seja útil para alguém.

Ou, pelo menos, como diria o meu Tio Olavo: “Nos dias de hoje, tudo o não atrapalha, já está a ajudar o suficiente.”

Wednesday, September 21, 2005

festa esta sexta

meus caros,

Pois é: tenho um novo filho, ou melhor, livro e gostaria de o apresentar à sociedade como um todo e ai em específico. O livro fala sobre a turma da meia-idade. Daí que a ideia é nos encontrarmos todos e relembrarmos os saudosos anos 80. Além dos comes e bebes por conta da casa e da oportunidade de podermos comparar as nossas velhas carcaças, vamos ter um belo concerto da banda Davi Não Vê Estrelas (por acaso, produzida por mim). O show apresentará uma releitura totalmente acústica (guitarras, piano, violino, baixo, violoncelo, percussão) de várias canções dos eighties. E é isso. Boa conversa, boa música, bom livro e boa noite. pode vir e trazer companhia.

se quiser vir, faz o seguinte: deixe aqui um post com o seu nome até sexta pela manhã e eu coloco ele numa lista na entrada do evento.

Programa das Festas:

Dia 23 de Setembro, sexta-feira, Bar Lua (antigo Musicais) - Jardim do Tabaco - Lisboa

Cocktail e Autógrafos: das 21:00 às 23:00

Show: às 23:00

Friday, September 09, 2005

nadar

Ai, ai, ai: vamos falar do hai-kai. É uma espécie de poema com uma avaria no sistema. Parece meio bobo, se calhar, até tolo, pois rima coisas como bolo e lobo, sem motivo aparente, mas, o que é que isso minha gente?, o bolo até pode ter comido o lobo, ou o inverso, e assim sucessivamente.

Segundo os entendidos, “o hai-kai é um tipo de poema originário do Japão. Consta originalmente de 17 sílabas em três versos: o primeiro de cinco, o segundo de sete e o terceiro de cinco.”

Mas isso é muito acadêmico para o meu gosto. E também para o meu saudoso compatriota Paulo Leminski (grande poeta e redactor publicitário que, apesar de muito vivo, já se encontra bastante morto).

Leminski ensinava como fazer um hai-kai: “Você tem a fórmula do conteúdo, que é o que os poetas contemporâneos obedecem, ao invés da contagem de sílabas; escolha temas simples; o primeiro verso expressa algo permanente, eterno; o segundo, introduz uma novidade, um fenômeno; o terceiro e último, é a síntese.”

A coisa já parece mais livre, mais solta, melhor. Mas ainda pode ser mais. O próprio Leminski fez poemas soberbos fora do formato hai-kai, guardando, porém, a sua leveza crónica e, por vezes, cômica.

Por exemplo:

não fosse isso
e era menos
não fosse tanto
e era quase

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aquário de água limpa
olavo limpa
olavo lava
aquário de água clara
olavo aclara
olavo eleva
na água do aquário
olavo é adão
olavo é eva
na água do aquário
peixa pisca
olavo paga
na água do aquário
olavo risca
o tempo apaga
sombras do pomar
cores no cocar
susto no lugar
do aquário para o mar


................................................


o pauloleminski
é um cachorro louco
que deve ser morto
a pau a pedra
a fogo a pique
senão é bem capaz
o filhodaputa
de fazer chover
em nosso piquenique


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sossegue coração
ainda não é agora
a confusão prossegue
sonhos afora

calma calma
logo mais a gente goza
perto do osso
a carne é mais gostosa


Quando descobri Leminski e a lógica do hai-kai, vi que a minha praia andava por ali. Das poucas vezes que tenter cometer poesia, sempre foi inspirado na coisa.

Os dois poemas que pode ler abaixo são pequenas provas disso. Mas há uma melhor (na verdade, pior) que tem a ver com uma história.

Um dia, houve um concurso de poesia moderna na minha faculdade. Quis participar mas, morto de vergonha, assinei o poema com um nome falso. De qualquer forma, o texto nada mais era do que uma gozação com a turma de pseudointelectuais que andava pelo campus a vomitar poesia de péssima qualidade e muita pretensão. O certo é que o poema ganhou o concurso eu tive que fingir que não tinha nada com aquilo. O poema chamava-se “Nadar” e era assim:

nada?
a danada?
não nada nada.
nada, nada?
nada, nada.
danada.

sincero

desfeito
o grande mistério.
descobri,
afinal,
que eu não sou
um homem sério.

duro de matar

o meu coração
é um bruce willis
cheio de fracturas
e múltiplas
cicatrizes

Wednesday, August 31, 2005

ego

“Quem é que tu pensas que és?”
Sempre que eu ouço essa pergunta tremo nas bases.
“Quem é que tu pensas que és?”
Nunca sei se a pergunta é à sério ou uma mera figura de retórica.
“Quem é que tu pensas que és?”
Na dúvida, minto. Digo que penso que sou o que não sou.
E depois passo a ser.
É por isso que já fui mergulhador nas Antilhas, mensageiro na Índia, piloto da Nasa.
Já fui serial killer em Detroit, pop star na Cochinchina, bombeiro, chulo, Bispo de Braga.
Já fui diplomata depois de uma crise matrimonial com uma dona de bar no Arkansas.
Fiz carreira, cheguei a cônsul na Jamaica.
Mas, um dia, numa discussão de trânsito, alguém me perguntou quem eu pensava que era e passei a ser investigador científico renomado.
Estava a pesquisar uma misteriosa virose que atacava uma minoria étnica, quando o meu irritadiço chefe me obrigou a dizer que eu era um palhaço.
Desde então segui a vida num circo, onde as crianças vinham rir das minhas piadas.
Viajei meio mundo, fui à Rússia, ao Ceilão, à ex-Jugoslávia. Casei com a mulher barbada e tive três filhos: um trapezista, um mágico e um anão.
Mais uns anos de trabalho e conseguiria dinheiro para comprar a minha própria tenda.
Até que um dia, o domador, numa inexplicável crise de ciúmes pelo leão, fez-me a pergunta fatídica: “Quem é que tu pensas que és?”
E então eu respondi que era apenas um publicitário com pouco menos de quarenta anos, cliente especial de uns dois ou três bancos, que adora filmes, livros, i-pods e coisas moderninhas, que não sabe se acredita em Deus, mas que tem a certeza que Deus acredita nele, que tem poucos amigos reais e muitos imaginários, que tem medo de chegar ao fim da vida sem ter feito nada que valha realmente a pena esquecer, que tem a mania de que é uma daquelas pessoas sensíveis que a gente encontra nos bares ou naquelas festas de casamento em que não conhecemos os noivos e que costuma dizer que o mundo é duro, injusto e cruel, enquanto pede mais um gin tónico com um ar superior, o tipo de gente que não dá para confiar, pois ao mais pequeno descuido apanha a sua alma, arranca-lhe os olhos, e aproveita-se dela para escrever um conto sem lhe pagar mil contos.
E, o pior, é que dessa vez tenho a impressão de que eu disse a verdade.